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quarta-feira, 8 de setembro de 2010


Protesto silencioso


Thich Quang Duc, nascido em 1897, foi um monge budista vietnamita que se sacrificou até a morte numa rua movimentada de Saigon em 11 de junho de 1963. Seu ato foi repetido por outros monges. Enquanto seu corpo ardia sob as chamas, o monge manteve-se completamente imóvel. Não gritou, nem sequer fez um pequeno ruído. Thich Quang Duc protestava contra a maneira que a sociedade oprimia a religião budista em seu país. Após sua morte, seu corpo foi cremado conforme a tradição. Durante a cremação seu coração manteve-se intacto, pelo que foi considerado como quase santo.


Acesse o link abaixo e veja algumas fotos que impactaram o mundo
no século 20:


http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.filipesouza.com.br/palavras/wp-content/uploads/2007/08/image012.jpg&imgrefurl=http://www.filipesouza.com.br/palavras/%3Fcat%3D8&usg=__VWsIsat445ham08xqs_4FPEFY2Y=&h=507&w=399&sz=31&hl=pt-BR&start=62&um=1&tbnid=haYxW5k6YBJM1M:&tbnh=131&tbnw=103&prev=/images%3Fq%3Dkevin%2Bcarter%26start%3D60%26ndsp%3D20%26um%3D1%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DN

Foto de Eustache Kossakowski, 1967


Happening Panorâmico do Mar
Incrível. Incrível. Tadeusz Kantor domando o mar, o som do mar, a visão do mar. Sendo o mar.

Outra foto de Antonio Carlos Floriano


Fotos de Antonio Carlos Floriano





Fotos do poeta Antonio Carlos Floriano para o livro Carpintarias das Ribeiras do Rio Itajaí-Açu

Uma crônica de Rubens da Cunha

SAIBAM POR QUE MOTORISTAS NÃO USAM PISCA-PISCA
Elogio em boca própria é vitupério, diz o sábio provérbio. Mesmo correndo o risco de me vituperar, devo admitir que uma das minhas melhores qualidades é a empatia. Segundo uma das acepções do dicionário, a empatia é o estado de espírito no qual uma pessoa se identifica com outra, presumindo sentir o que esta está sentindo. Tenho essa capacidade, tento sempre entender o ponto de vista do outro, as suas razões, motivações. Evito ao máximo fazer julgamentos morais, talvez o pior veneno para a empatia. Recentemente, o jornal “A Notícia” fez uma pesquisa sobre o que mais irritava os motoristas joinvilenses e ficaram quase empatados os buracos e os motoristas lentos na pista da esquerda. Duas coisas chatas, mas que não superam o que mais me irrita: gente que não dá o sinal quando muda de direção. Pois bem, foi pensando na minha capacidade empática que desenvolvi uma série de possibilidades para explicar por que muitos motoristas fazem isso. Vamos às minhas teorias:1) Amnésia: trata-se de distúrbio no cérebro dos motoristas, algo que os faz esquecer um procedimento básico. Quando eles percebem, já foi. O interessante é que esse tipo de amnésia é bastante seletivo, já que nunca envolve o ato de frear, de mexer no volante, de trocar a marcha, fica restrito apenas ao uso do sinal. Esse tipo de amnésia tem uma variante que são os motoristas que freiam primeiro e depois decidem indicar a sua direção. É como se o ato de frear ativasse na memória o ato de ligar o pisca-pisca. 2) Fobia: por algum distúrbio psicológico, alguns motoristas desenvolveram uma fobia terrível daquela peça que liga o sinal. Pensam que seus dedos ficarão grudados nela, que não poderão mais dirigir. Quando os motoristas encostam a mão nessa parte do carro, seus piores fantasmas vem à tona, causando-lhes calafrios e gritos histéricos. Ainda dentro do campo da fobia, descobriu-se que alguns têm medo é daquela luz que fica piscando no painel. São pessoas assustadas, que ficaram presas na infância diante da uma luz intermitente e agora esta pequena luzinha no painel ressuscita os temores de antes. É de dar pena os pisca-piscafóbicos. 3) É opcional: alguns motoristas querem muito comprar um carro melhor, vão até a concessionária, verificam modelos, fazem test drives, escolhem a cor, pensam na família, enfim, trata-se da aquisição de um bem que vai mexer no orçamento. O problema é que alguns não conseguem dinheiro suficiente para comprar o carro que desejam. Assim, vendedores astutos e fora da lei chamam o cliente num canto e lhe oferecem algo que é absolutamente proibido, mas que sempre se dá um jeitinho: carros em que o pisca-pisca é opcional. Ou seja, se o cliente levar o carro sem esse artefato ganha 20% de desconto. O cliente não acredita, acha que é pegadinha, pensa que todos os carros devem ter isso, mas o vendedor o convence que dar sinal não é tão necessário assim, que se alguém bater atrás perde a razão, e que são 20% de desconto, o que permitirá a compra do tão desejado carro. O motorista pondera vantagens e desvantagens e opta por comprar o carro sem pisca-pisca. Esse sem dúvida é o motivo principal para que tantos não usem o sinal.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Shânkara Karl, minha filha



Vieste da minha noite mais escura: agora és uma grega, sopras o mar.

domingo, 5 de setembro de 2010

Doutscha photographada por Robert Demachy, 1910

A erva que Doutscha acendeu
Chuva torrencial nos arredores de Bremen


Chuva torrencial lá fora, nos arredores de Bremen, e aquela mulher de nome estranho – Doutscha – acende uma erva.

O vinil rodando na vitrola.

Próximo à janela envidraçada, o guarda-chuva aberto e a repentina sombra que ele tatua nas paredes. Cessa uma chuva, principia a neve. A mulher de longos cabelos negros, que tem a alma compassiva, confidencia:
"Neste momento – ela diz como quem se surpreende – a neve, olha a neve..."

Tento conversar:
"Quer que cesse a neve? Quer um cigarro? Trago fósforos".
"Não, a neve, olha a neve..."

Pois Doutscha foi sempre uma consoladora para quem, como eu, na vida aprecia a lógica e pretende que existir seja uma raiz quádrupla do espírito. Há chuvas que Deus mesmo envia, e são aguaceiros no vazio, nos telhados das casas e nas vidraças. Recolho-me, não aos esconderijos que os outros têm, mas à sombra da ampla árvore nessa rua de Warmstrasse. Desço os lábios à bica d’água atrás da igreja luterana. Tenho caligrafia regular, sal até nas lágrimas, e os meus livros eu os grafo com mergulhar a pena da melancolia no tinteiro velho, enquanto, ao lado daquela árvore mais escura, alguma deusa com a pele transparente me sorri. Tenho amor a isso de haver a deusa Doutscha e eu acariciá-la, talvez porque, essa noite, eu não tenha mais nada a fazer a não ser enrolar uma erva, escutar Chet Baker.

Ou talvez Doutscha só exista nesta narrativa, da mesma forma que o amor de uma alma só pode respirar à beira do vulcão, e, se temos por sina dar amor, tanto vale se o dou à xícara com chá de artemísia ou ao colosso das constelações.

Tenho, muitas vezes, o hábito de fumar cigarros Gauloises. Que me é esse disco que flue na vitrola um Chet Baker, salvo o instante ocasional em que a agulha toca a pele do vinil e a música, senhora das minhas horas, consola os dias noturnos da melancolia. Trata-me bem, Doutscha, escuta-me com doçura, salvo nos momentos bruscos em que, por tédio ou inércia, eu te apunhá-lo a clavícula com a faca enferrujada. Desconhecida, sim, és, Doutscha, mas por que me preocupa um símbolo, uma escada de pedra, um mergulhar o pão no café, e a razão, Doutscha, o que é?

Leio aqui O Livro Negro, de Fernando José Karl: “Para mim a morte explica-se como História Natural, como aquilo que tornou possível o pensamento. Se temos uma meta, parece-me que só pode ser a morte. Tudo o que se diz é sempre sobre a morte. O nosso nascimento lança-nos numa amnésia, ávidos de mar grosso e de palavras, ávidos de algumas sombras de amor. Tentamos ressuscitar a xícara e fracassamos, o fôlego e fracassamos, tentamos ressuscitar o que somos nesse instante e fracassamos, porque não se trata de ressuscitar ou não, trata-se de sumir numa Fuga, de Schubert, para não se sabe onde, para onde não se sabe mais”.

À sombra de um ventilador, numa casa pequena e repleta com vasos de plantas, lembro-me de tua nudez, Doutscha, lembro-me dela no futuro com a saudade que sei que terei. Nos arredores desse pequeno jardim buscarei a chuva. De meu coração, eu pressinto, uma carpa de fogo escapa em andante lentíssimo e fura a cortina de meu quarto que a brisa estufa de leve e, pelo buraco que a carpa deixou na cortina, eu não verei o vento que não vejo agora.


Fernando José Karl
Marinheiro Popeye
Skinhead
com roupas
de Popeye



Inclinado de leve para a deusa de água, o skinhead com roupas de Popeye traz mãos que abandonam no abismo todo um ritual de argúcias. Murmura, cáustico, para si mesmo: “Sou, então, skinhead com roupas de Popeye? Os de minha rua trazem-me aqui para ser julgado por esse Fariseu ressoando como tambor! Que fiz eu? Onde é o meu reino?”

O Fariseu, desatento ao esgoto que lhe suja a alma, perfila-se junto ao sólio de mármore e repete, tonitroante, uns versículos na antiga língua dos livros apodrecidos. Como o skinhead permanece silencioso, o Fariseu vocifera no tímpano dele uma brasa do inferno. Então Jesus, o sereno, que estava perto do poço, se aproxima, estaca severo diante do Fariseu e, para que ele ouça, recita uma linha de Ovídio: “Se os bichos pudessem falar, ficariam calados”. A voz de Jesus é clara, segura, quando pronuncia a sagrada verdade:
"O reino do skinhead com roupas de Popeye
não é daqui!"

Com sombrio murmúrio todos recuam, deixando o Fariseu e Jesus, a sós, no limiar do átrio escuro. Não anda sobre água o Jesus nem multiplica pedras em peixes nem água em vinho, mas, para pasmo da turba que se aglomera ruidosa, ele ordena ao Fariseu que este seja transformado numa chuva fina sobre o rio Jordão. O Fariseu não aceita que o transfigurem em chuva:
"Por que não me transmutas na conta de orvalho

que estremece na ponta de uma folha?"

Com os longos cabelos caindo sobre os ombros, Jesus desiste de transformar o Fariseu em chuva. Opta por algo mais leve. A turba, amontoada ao canto do átrio, aguarda o veredito. Jesus convoca as forças angélicas e confirma a sentença:
"A partir de agora tu não és mais um Fariseu,

mas um peixe com sede e, para esta sede, não há saída".


Fernando José Karl
Rita Hayworth (1918-1987)
Espiando Rita Hayworth no banho

L’hydre-Univers tordant son corps écaillé d’astres.

Victor Hugo



Água morna de chuveiro na pele de Rita Hayworth. Com suavidade descerro as portas do box e a flagro ensaboando as clavículas, o ventre, os pés.

A nudez dela ondula sombras nos azulejos brancos. Vidros embaçados, o barulho da água atrás da cortina de plástico; as coisas essenciais, os reinos da chuva, incrustados fora da razão.

Aqui, ante Rita Hayworth, devo ser um servo, e servo reverente. Ela me chama, aproxima seus lábios dos meus e nos beijamos através do plástico transparente: dura apenas um instante.

Não esqueço nunca que eu tenho pelas banhistas de chuveiro uma predileção especial, ainda mais se essa banhista é Rita Hayworth.

E se, após o banho, ela cobrir o nu com uma toalha, ai dela, eu viro Calígula, o Terrível, ordeno a meus exércitos que arranquem a toalha enrolada em seu corpo.

Que a toalha suma!

E que reste límpida a nudez de Rita Hayworth, assim deitada na cama, em estado de óbvia distração.


Fernando José Karl
Al Capone (1899-1947)
O último dia de Al Capone

E ter coração já não é metade do caminho?

Guimarães Rosa



Poucos depois, num Domingo de Ramos, morreu Al Capone com os testículos estraçalhados no ventilador. O que foram fazer ali? Chora, leitor, se tens lágrimas, por esse Al Capone e seus testículos perdidos. Os mafiosos quando envelhecem, mansos e peludos, com as bolotas nas virilhas, só pensam em nabo e onde colocar o nabo.

Como todo mafioso termina só – o nabo acaba sendo de quem convive com o nabo, – diria Lucrecius, na Roma antiga.

Al Capone não morreu súdito nem vencido. O esforço que, nas últimas semanas, fazia para abrir a torneira não durava muito; a dentadura despencou outra vez no lavabo; o rosto conservou porventura uma expressão pálida de tísico.

Escrevo aqui o fim de Al Capone – o scarface (cara de cicatriz) –, que adoeceu, também, por causa do prego que enfiou no pé; ganiu infinitamente. Antes de findar a agonia, que não foi curta, Al Capone pôs coroa gelada na cabeça, – coroa que, na realidade, era apenas uma tosca bacia de alumínio, dessas usadas para guardar roupa. No seu último dia de vida, Al Capone ainda tentou pegar o vento, pegou em nada, levantou nada e só ele pensava que a bacia de alumínio em sua cabeça era uma coroa imperial, de ouro maciço e cristais do oriente.

Amanheceu morto na rua, com o silêncio de uma sereia enterrado no tímpano, o que é muito mais terrível – o silêncio dela. Antes houvesse escutado as cantatas de Bach.

Eis, para sempre morto, o Al Capone que chega, neste milésimo de segundo, às regiões infernais.

O carrasco Göring, escolhido por Satanás para cuidar de Al Capone, não quis nem conversa com ele e, atendendo à letra fria da lei do geena (Do grego géenna,és: “lugar de tortura”), ou porque estava encharcado de rum, desferiu machadadas a todos os lados: Al Capone foi se desviando, Göring fincava o machado no ar, Al Capone fugia em direção ao nada, ao inferno – inferno este que o dogma sujou –, e que é, em vida, já ter a alma morta. O carrasco Göring continua desferindo machadadas que zunem no exíguo espaço do calabouço onde Al Capone não tem um minuto de sossego.

Göring dorme apenas 1 hora por dia. Al Capone aproveita e dorme também. Quando Göring acorda é aquela correria atrás de Al Capone que já se tornou mestre na arte de se desviar de machadadas. Mas Göring está envelhecendo a olhos vistos. Para ele não murmuram as sombras do amor. O pesado machado machuca-lhe as mãos delicadas de diabo. Göring sente sono, um sono imenso, deita no catre, depois de ter encostado o machado na parede. Göring, hoje, não vai dormir apenas 1 hora. Göring nunca mais vai acordar – o coração apodreceu.

E, Al Capone, sem caber em si de tanta alegria, respira pela primeira vez no inferno, livre de seu algoz, este Göring morto para sempre. Al Capone, exausto de tanto de não dormir, caiu em sono profundo e sonhou que estava deitado num sofá – à direita a mesinha de chá, à esquerda o rádio – na parede à direita havia um quadro de Rembrandt – nele, o mestre holandês pintou a luz da manhã que, não sendo Deus nem nada, é apenas a presença da luz – palavra esta criada, segundo o Dicionário Houaiss, no ano de 1041 a.C.


Fernando José Karl
Fernando José Karl by Heloísa Espada
Ler Improptus Linguarudo,
de Fernando José Karl,
em Ô Catarina


http://www.alquimidia.org/fcc4/arquivosSGC/DOWN_192004ocatarina71.pdf

maneiras - Zeca pagodinho

Fala umas verdades pra gente, Zeca Pagodinho...


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

TODOS PARA A LIVRARIA NAVEGAR



Lançamento do livro Harmonias do Inferno


O livro de contos Harmonias do Inferno, de Marco Vasques, será lançado no dia 18, na Livraria Navegar (Lagoa da Conceição), às 20h e 30 min. Harmonias de Inferno teve uma edição feita pelo autor em 2005. A nova edição tem o selo da Letradágua e a concepção gráfica feita pela artista Vanessa Schultz. Esta edição conta, também, com desenhos do poeta e artista plástico Rodrigo de Haro. A noite será de diálogo, pois Rodrigo de Haro fará uma breve apresentação da obra de Marco Vasques que também conversará com o público sobre seus últimos livros: Elegias Urbanas (poemas, bem-te-vi, 2005), Flauta sem Boca (poemas, Letras Contemporâneas, 2010), Harmonias do Inferno (contos, autor/Letradágua, 2005/2010) e o terceiro volume Diálogos com a Literatura Brasileira (entrevistas, 2010, Movimento/Letradágua) que será distribuído gratuitamente no lançamento do livro Harmonias do Inferno.


O QUÊ: Lançamento do livro Harmonias do Inferno de Marco Vasques e conversa com os escritores Marco Vasques e Rodrigo de Haro.

QUANDO: Dia 18. Às 20h 30min;

QUANTO: o livro Harmonias do Inferno custará R$ 25,00

ONDE: Livraria Navegar. Av. Afonso Dalambert, 644, Lagoa da Conceição.

Contato: vasques_marco@hotmail.com e 32349401 ou 96078049

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

série poemas para os peixes do pedro

fotografia: Patrícia Moreira






hoje recebi a agradável visita de pedro. meu sobrinho (aliás está me chamando agora pra almoçar). durante a estada do pedro no escritório, produziu alguns peixes, os quais posto aqui com algumas aproximações menores que os desenhos. uma dádiva, o pedro e seus peixes.







PEIXE UTI

UTI é peixe insone

não dorme atento a tudo

que passa na superfície

sabe barcos pelo ronco

PEIXE BEIK

peixe também é deus porque dança

obervado por anêmonas

evolui um girassol matutino






ABWATI


pedro navega o infinito dos peixes

o abismo não é onde o peixe vive

mas o infindável nome dos sentidos

ABWATI, disse o pequeno criador



PEIXE ADUAK


peixe fisgado pela curiosidade

sobe ou mergulha no feixe fótons

entre lâminas d'água e papel











Encontro entre poetas V

agora sim, a última desta série. antológica foto dos poetas singulares. no alto da cadeia produtora de poemas postados no blog: fernando karl, antonio carlos floriano e cristiano moreira.

Encontro entre poetas IV


uma das últimas conversas ocorrida na programação oficial do folia das falas foi entre Ademir Demarchi , editor da revista babel, a profª Susana Scramim que também editou a babel durante a "primeira dentição", e Dennis Radünz. O tema do papo foi a edição e circulação de revistas de poesia.

Encontros entre poetas III

a poeta ryana gabech participou do folia das falas junto com ricardo aleixo na paresentação da performance "modelos vivos movidos à moeda".





Festival Literário Palavrário

Estou atualizando alguns acontecimentos literário,alguns encontros que rolaram nestes três meses. faço somente agora pois estavaimerso na redação de minha dissertação de mestrado cuja defesa será dia 27 de setembro às 14:30 na UFSC.


na abertura do Palavrário em junho itajaí recebeu a visita de Salim Miguel e Eglê Malheiros. na ocasião, o poetaq dennis radünz mediou a conversa o grupo sul, a produção de roteiros de cinema e sobre a experiência da produção de o preço de uma ilusão, filme lendário feito por salim e eglê em 1957.

Encontro entre poetas II

mais uma da série do Folia das Falas. o poeta fernando karl veio para itajaí ministrar uma oficina. convidei então o artista eduardo moreira (de costas) o poeta antonio carlos floriano (com as mãos nos óculos) para uma conversa no instituto caracol. na ocasião, depois de um jantar, uma leitura de poemas para digestão.

Encontros entre poetas

na primeira quinzena de agosto aconteceu em itajaí s.c. o Folia das Falas, evento promovido pelo sesc (amém) e que contou com a participação de alguns dos poetas que vivem aqui neste sitio. nesta fotografia (da direita para a esquerda) os poetas ronald augusto (porto alegre), fernando karl (são bento) e cristiano moreira (navegantes).

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Lançamento do livro Harmonias do Inferno


O livro de contos Harmonias do Inferno, de Marco Vasques, será lançado no dia 18, na Livraria Navegar (Lagoa da Conceição), às 20h e 30 min. Harmonias de Inferno teve uma edição feita pelo autor em 2005. A nova edição tem o selo da Letradágua e a concepção gráfica feita pela artista Vanessa Schultz. Esta edição conta, também, com desenhos do poeta e artista plástico Rodrigo de Haro. A noite será de diálogo, pois Rodrigo de Haro fará uma breve apresentação da obra de Marco Vasques que também conversará com o público sobre seus últimos livros: Elegias Urbanas (poemas, bem-te-vi, 2005), Flauta sem Boca (poemas, Letras Contemporâneas, 2010), Harmonias do Inferno (contos, autor/Letradágua, 2005/2010) e o terceiro volume Diálogos com a Literatura Brasileira (entrevistas, 2010, Movimento/Letradágua) que será distribuído gratuitamente no lançamento do livro Harmonias do Inferno.

Uma crônica de Rubens da Cunha

BICICLETAS OU CARROS

No dia 22 de setembro, ocorrerá o Dia Mundial sem Carro. Trata-se de um movimento para se criar uma conscientização para o uso racional dos automóveis que vem ganhando corpo a cada ano. As cidades estão ficando pequenas para tantos carros, o resultado dessa obviedade que eu acabei de escrever são os engarrafamentos cada vez maiores. Porém, mesmo com o caos se instalando diariamente, as mudanças efetivas, a busca por um equilíbrio maior entre os meios de transportes, as políticas públicas de transportes urbanos andam a passo de tartaruga. Ou seja, pouca coisa realmente transformadora, por parte do poder público, está sendo feita no intuito de mudar a mentalidade das pessoas em relação ao carro. Alguns exemplos vencedores, geralmente europeus, deveriam ser seguidos. Ciclovias em Copenhague são perfeitas, as de Barcelona também, mas isso é lá na Europa, aquela cidade muito velha, como dizia Drummond, que está no mundo do consumo há muito tempo e que agora pode efetuar mudanças para o bem-estar da população sem prejuízo político, muito pelo contrário, há uma valorização grande das políticas neste sentido. Este talvez seja o ponto que nós, aqui do lado debaixo do Equador, temos que enfrentar de forma mais radical, antes mesmo de exigirmos que o poder público construa uma malha de ciclovias pela cidades, e não apenas pequenos trechos que ligam nada a lugar nenhum. Nós somos terceiro-mundistas, nossos carros até duas décadas atrás eram carroças, só para lembrar um não tão saudoso ex-presidente, ou seja, entramos no mundo do consumo pra valer há pouco tempo, e já querem nos retirar o conforto e a vaidade do carro, já querem que a gente desista do que eles, lá no primeiro mundo, usufruíram durante décadas. Ou seja, olhando por esse lado, é bastante injusto, efetiva-se assim o ditado de que alegria de pobre dura pouco. Penso que seja contra essa sensação de perda da população em geral a principal luta que movimentos por meios de transportes mais econômicos e ecológicos, tenham que enfrentar: convencer o indivíduo a largar seu conforto e o desejo de desfilar com o carro para andar de bicicleta ou de ônibus coletivo. Por mais ecologicamente correto que seja, por mais salvadora que seja, essa ideia esbarra na impopularidade. Talvez por isso, governos, terceiro-mundistas que são, exitem tanto em construir ciclovias, corredores de ônibus, passarelas, enfim, algo que privilegie a mobilidade do pedestre e do ciclista, em vez do motorista. Além disso, um viaduto, uma avenida larga, uma rótula gigantesca é sempre mais visível do que uma ciclovia qualquer e rende bem mais votos. A luta por cidades menos engarrafadas passa pela mudança da mentalidade tanto dos dirigentes em geral, quanto da população, que precisa enfrentar a realidade que nós chegamos atrasados no mundo do consumo, sobretudo de automóveis, e que vamos ter que reverter esse quadro, dar um salto sobre o desejo e a vaidade, e pedalar ou andar a pé, logo, logo, a única maneira de se chegar ao destino.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

POEMA SINGULAR

Após duas semanas fora do ar a seção POEMA SINGULAR retorna. Desta vez o poema selecionado é HOMUS INFIMUS, do poeta Augusto dos Anjos. A escolha é do elegíaco Marco Vasques. A proposta da seção POEMA SINGULAR foi idealizada pelo poeta Antonio Carlos Floriano. Na próxima semana o poeta Rubens da Cunha escolhe o poema de sua predileção. Boa leitura!



HOMUS INFIMUS

Homem, carne sem luz, criatura cega,

Realidade geográfica infeliz,

O Universo calado te renega

E a tua própria boca te maldiz!


O nôumeno e o fenômeno, o alfa e o ômega

Amarguram-te. Hebdômadas hostis

Passam... Teu coração se desagrega,

Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris!


Fruto injustificável dentre os frutos,

Montão de estercorária argila preta,

Excrescência de terra singular.


Deixa a tua alegria aos seres brutos,

Porque, na superfície do planeta,

Tu só tens um direito: — o de chorar!


(AUGUSTO DOS ANJOS)

sábado, 28 de agosto de 2010

EGON SCHIELE


Um poema de Antonio Carlos Floriano

O DOENTE


adoeceu-se de alma
queriam tratá-lo com água
banho silvado de reza

tentaram soprar os olhos
tentaram matar os sonhos
usando cores da geometria

usaram flores de sal
usaram vento de conchas
deixaram sem roupas do rochedo

para os pássaros da alma
para o rumor das águas
numa campa de flores de sal
o doente geômetra de gesso.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Roberto Piva



RITUAL DOS 4 VENTOS E DOS 4 GAVIÕES

para Marco Antônio de Ossain

"Eu trago comigo os guardiões dos Circuitos celestes."
— Livro dos Mortos do Antigo Egito —



Ali onde o gavião do Norte resplandesce
sua sombra
Ali onde a aventura conserva os cascos
do vudu da aurora
Ali onde o arco-íris da linguagem está
carregado de vinho subterrâneo
Ali onde os orixás dançam na velocidade
dos puros vegetais
Revoada das pedras do rio
Olhos no circuito da Ursa Maior
na investida louca
Olhos de metabolismo floral
Almofadas de floresta
Focinho silencioso da sussuarana com
passos de sabotagem
Carne rica de Exu nas couraças da noite
Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas
Bate o tambor
no ritmo dos sonhos espantosos
no ritmo dos naufrágios
no ritmo dos adolescentes
à porta dos hospícios
no ritmo do rebanho de atabaques
Bate o tambor
no ritmo das oferendas sepulcrais
no ritmo da levitação alquímica
no ritmo da paranoia de Júpiter
Caciques orgiásticos do tambor
Com meu Skate-gavião
Tambor na virada do século ganimedes
Iemanjá com seus cabelos de espuma.


Roberto Piva

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Gerlovin & Gerlovina, 1995
O sonho secreto de toda rainha louca é cortar os pulsos e morrer cantando na fogueira.

Dalton Trevisan
Theo Frey, 1955




Não há século novo
nem luz recente
apenas um cavalo azul
e uma madrugada.

Federico García Lorca



Cara amiga,
eu acredito muito no poder onírico: eu penso que devemos acordar do estado de vigília (onde o mundo externo vigora). No estado onírico podemos voar com uma árvore perfumada nas mãos; ao acordar vemos aquela árvore no quintal, só que não estamos mais voando nem a árvore é perfumada; isto é o que torna as coisas, de certa maneira, chatas ou desesperadamente enfadonhas. Por isto devemos despertar, não do sonho, mas do estado de vigília (onde o mundo externo vigora). Devemos aprender a retomar a potência do onírico; isto já falava o Nietzsche em sua teoria filosófica do Eterno Retorno.

Contudo há um outro estado, anterior à vigília, que se chama o Deus ou Algo: eu creio firmemente que o Deus ou Algo é quando a luz que temos (ou consciência) ilumina, alumbra, aclara a escuridão. A luz não apodrece. A luz não pensa. A luz, em latim dies: daí vem a palavra dia e a palavra Deus; Deus que é luz, não deste mundo, nem do outro.

Freud foi um divisor de águas no século 20, porque ele descobriu que, no tal do Inconsciente ou Deus ou Amor, só há o vocábulo sim.

O não vem do ego, do que há de mais podre em nós, do tirano que há em nós e que diz que a potência da vigília (o mundo externo) é mais eficaz que a potência onírica. O ego é aquele que diz, todos os dias, que um poema não vale nada; que um passo de dança não vale nada; que uma escultura do Aleijadinho não vale nada; que uma linha de Paul Klee não vale nada; que uma suíte para violoncelo de Johann Sebastian Bach não vale nada.

Por isto devemos esvaziar o ego.O único poder do ego é reconhecer que não tem poder algum: e isto é reverência, humildade, ou deixar que as coisas fluam. Paul Valèry sugeriu: "Devemos ajudar a Hidra a esvaziar seu nevoeiro".

Numa sala, se alguém disser que há um cavalo azul esvoaçando, sabemos que só as crianças o verão (quiçá alguns velhos). Ninguém entra no Reino se não se tornar criança (não no sentido de tamanho ou idade), mas criança no sentido de se abismar no lúdico, no abismo livre das águas e ver as coisas com olhos novos e retinas enxaguadas pela chuva.

E se, no estado de vigília, praticamos o estado onírico, aí somos artistas e, quanto mais artistas, mais conscientes. Outro dia eu imaginei que um leão de fogo passava próximo de minha xícara de chá e, nela, esquecia sua sombra vacilante. Eu não via o leão de fogo, apenas sua sombra na xícara de porcelana branca. Claro: nem o leão de fogo nem a xícara de chá nem a sombra existiam no estado de vigília; eles existiam, somente, no estado onírico. Quando me refiro ao estado onírico, falo também da glândula pineal, cuja função em nosso cérebro é ver; a glândula pineal é o nosso terceiro olho – nosso olho védico – o Olho do Deus ou do Algo: Aquele que tudo sabe e de quem nada sabemos, porque conhecer o Deus ou Algo é conhecer-nos. Através da glândula pineal podemos ver com os olhos fechados tudo o que há no mundo vasto mundo; e, assim de olhos fechados, recordar do mar, do vento, das barcas; rememorar a nossa origem primordial e nossas outras origens que tais.

O amor é um sim primordial; é fluido integrativo; o Deus é sim, nunca não; a não ser que este não seja para o ressentimento; a tristeza, a mentira; a violência; o desamor.

Devemos despertar do estado de vigília, não do estado onírico. No estado onírico podemos ser tudo, a cada milésimo de segundo. No estado de vigília vivemos sob o tacão da selvageria, humilhados pelo grilhão da mesmice, imersos em baboseiras e cotidianos aviltantes. No estado onírico eu posso fazer comigo e com quem amo o que a primavera faz com as cerejeiras; posso, igualmente, lamber o sal de todo o corpo daquele Ser que adoro e ciciar em seu tímpano a ondulação dos capinzais do Ceilão. Ver as coisas externas com a potência do estado onírico, eis a arte e a condição humana. No estado onírico curamos chagas com apenas passar a nossa língua de bálsamo nelas. Precisamos cuidar das coisas do Espírito (as coisas do estado onírico) e o resto nos será dado de acréscimo. No estado de vigília ficamos na cama dos hospitais. No estado onírico somos pássaros; no estado de vigília somos deputados, gerentes de banco, burocratas da pior espécie. No estado onírico somos um improviso só, algo novo, jazz do coração

Por isto viemos à Vida: para reverenciar o Deus que há em nós; o Deus paradisíaco enamorado pelas obras do tempo: um cabelo, um sorriso, um cálice de vinho; um barco que singra em torno da ilha.

Eu creio em poucas coisas, minha amiga; eu apenas creio que o Deus precisa de nosso pobre coração para existir. Devemos ser reverentes à potência do estado onírico e despertar as forças oníricas latentes. Por outro lado, devemos despertar do estado de vigília, enriquecendo a vigília com leões de fogo, deixando-a fluir musical.

Somos deuses quando nos abandonamos ao mistério.

Abraço
do

Fernando José Karl
Praxilla (500a.C.)




O que de mais terno eu deixo para trás é a luz do sol, as estrelas cintilantes e a face da lua cheia, mas também o pepino maduro, as maçãs e as peras. Cuidado com o escorpião, meu amigo, sob cada pedra. Você que se mostra tão linda vista da janela — um rosto virgem, mas com a cama recém inaugurada.

Praxilla

Tradução de Grace Cavalieri
Mulheres escritoras
da antiga Grécia e Roma


Sappho
Cleobulina
Telesilla
Myrtis
Praxila
Aspasia
Eurydice
Philaenis
Erinna
Hedyle
Anyte
Moero
Nossis
Nicobule
Theano
Perictione
Myia
Aesara
Melissa
Phintys
Ptolemais
Boeo
Corinna
Melinno
Cornelia
Hortensia
Sulpicia
Philinna
Syra
Salpe
Elephantis
Lais
Olímpia
Sotira
Timaris
Sulpicia
Pamphila
Maria
Cleopatra
Dionysia
Caecilia Trebulla
Julia Balbilla
Terentia
Samithra
Xanite
Perpetua
Theosebeia
Proba
Egeria
Eudóxia

Fritz Henle, 1975



Se não se escutam as folhas do arvoredo, Lucana gasta os olhos numa página avulsa do poeta Almafuerte: yo soy un palmar plantado sobre cal e pedregulho. Os vocábulos lidos na frase anterior já estão mortos, derrotados, e unicamente a retina do leitor pode trazê-los à vida com um sopro. Se o vocábulo é sopro e o sopro é vida, sopramos em yo, sopramos em soy, sopramos em un, sopramos em palmar, sopramos em plantado, sopramos em sobre, sopramos em cal, sopramos em e, sopramos em pedregulho. Lucana confessa ao palmar plantado: “Eu sou uma daquelas víboras descascadas junto à fonte fria.

Com pinças curvas eu arranco o cérebro dos fariseus – gruta com lesmas – pelas fossas nasais.

Eu, com um garfo de ouro, faço um talho na cara da prosódia sonolenta e, debaixo do chuveiro, tento captar, apesar da água torrente, o sentido das palavras em Fernando Pessoa: ‘Atinjo a força de palavras, não para realizar a obra que eu nunca poderia realizar, mas ao menos para dizer com simplicidade por que razões não a realizei’.

No espelho, enquanto me enxugo, verifico que na alma continuo sendo uma daquelas gueixas com neve no negro cabelo. Escuto a balada de Narayama e, com a colherinha de açúcar, faço nevar no espírito do chá”.


Fernando José Karl

Paulo Leminski (1944-1989)

Miran
William Mortensen, 1932




CURIOSIDADES



Se você ficar gritando por 8 anos, 7 meses e cinco dias, terá produzido energia sonora suficiente para aquecer uma xícara de café.

O coração humano produz pressão suficiente para jorrar o sangue para fora do corpo a uma distância de 10 metros.

O orgasmo de um porco dura 30 minutos.

Uma barata pode sobreviver 9 dias sem sua cabeça até morrer de fome.

Bater a sua cabeça contra a parede continuamente gasta em média 150 calorias por hora.

O louva-deus macho não pode copular enquanto a sua cabeça estiver conectada ao corpo. A fêmea inicia o ato sexual arrancando-lhe a cabeça.

A pulga pode pular até 350 vezes o comprimento do próprio corpo. É como se um homem pulasse a distância de um campo de futebol.

O bagre tem mais de 27 000 papilas gustativas.

Alguns leões se acasalam até 50 vezes em um dia.

As borboletas sentem o gosto com os pés.

O músculo mais forte do corpo é a língua.

Elefantes são os únicos animais que não conseguem pular.

A urina dos gatos brilha quando exposta à luz negra.

O olho de um avestruz é maior do que o seu cérebro.

Estrelas-do-mar não têm cérebros.

Ursos polares são canhotos.

Seres humanos e golfinhos são as únicas espécies que fazem sexo por prazer.
Gustav Doré (1832-1883)



O dinheiro é abstrato, repeti, o dinheiro é tempo futuro. Pode ser uma tarde no campo, pode ser música de Brahms, pode ser mapas, pode ser xadrez, pode ser café, pode ser as palavras de Epicteto, que apregoam o desprezo pelo ouro; é um Proteu mais versátil que o da ilha Faros.


Jorge Luis Borges


Kami: Deus, em Japonês


OS OLHOS

Sem dizer que são a destruição do mundo,
ou dois cestos cheios de nada.

São sempre uma casa, atrás do horizonte,
e muito maior do que a noite.

Mas sem a porta
pinto-a, com o vento cego;
sem palavras.


Yao Jingming
David Moore, 1957
Esfinge ao sol, enquanto durmo.
Se eu acordasse agora, então o quê?
Um olho aberto, outro fechado,
a esfinge sonha com meus olhos.

Meus olhos nessa luminância
dos olhos da esfinge de cal.
Meus olhos são alísios, alívios
nos olhos da esfinge no pátio.

Esfinge apagando altas estrelas,
que depois meus olhos reacendem.
E por que esfinge, por que olhos?

Seria mais simples não haver vida
– nenhuma palavra –
seria mais simples não morrer.



Fernando José Karl
Pedra persa




NOÇÕES DE GRAMÁTICA
(Origo et fons)

Essa frase tem contém dois verbos.
Essa frase tem repolho seis palavras.
Essa não é uma completa.
Essa também.




Fernando José Karl
Uma pintura e Fernando José Karl
SOMBRUS


Perde-se na noite dos tempos a memória do primeiro navegador que desembarcou na ilha de Sombrus. Não se sabe quando isso se deu nem a nossa humanidade foi capaz de buscar mesmo a data aproximada da arriscada façanha.

É que em Sombrus vivem e latem, noite e dia, os cães selvagens do Arquipélago, que ali fizeram morada não se sabe igualmente como e muito menos por meio de quem. Aliás, pouco se sabe da história primeira de Sombrus, suja, sem dúvida, de lendas sinistras e ainda mais sinistros eventos de sangue e mar, sal e insistência.

Não convém, de nenhum modo, entretanto, ficar aqui lembrando a história pregressa de uma ilha que emergiu das águas do Pacífico feito uma flor monstruosa e triste. O que vale anotar é o presente. Este se dá, em Sombrus, de forma sumamente enigmática – as horas passam não em direção ao futuro, mas num lentíssimo escoar-se passado e saudade afora. Herança, odores, perfumes – esvaídos nas dobras dos dias, puro reverso, notícias longínquas, ecos de tardes soterradas pelo Tempo.

Em Sombrus, primeiro vêm as noites e depois delas o entardecer e, na sequência, a própria tarde, a manhã, o alvorecer, a madrugada inteira, para só então sobrevir de novo a noite antes da meia-noite, a lua e as estrelas.

É sempre assim. Conosco também retornam as faces que a mó dos anos puiu e gastou, e, tudo o que era sulcos e rugas reverte, o que é ainda mais inquietante, até uma temida infância que ameaça as gentes com o retorno ao útero e do útero ao aéreo nada de que fomos feitos um dia. A morte de não haver?

Contudo, os cães de Sombrus são os únicos seres que alcançam vencer a marcha à ré do Tempo. Nascem, crescem, procriam e morrem – os alvos ossos nas praias desertas; cada vez mais desertas.

Ninguém até hoje conseguiu explicar porque de toda ilha são os únicos seres vivos capazes do que chamamos, em Sombrus, ou fora dela, escassamente, de futuro.

Então é que se dá de Sombrus o inenarrável encanto – os cães, diz a lenda, são os testemunhos fiéis de que, mesmo ao contrário, os anos andam e andam, consumindo seres e coisas, vegetais e pedras.

Por isso, aturdidos, os cães latem, tarde da noite, e vão aos bandos pelas praias da ilha, como se sentissem a dor do Tempo atravessada na garganta.

Isso um dia vimos e ouvimos, nós, os navegadores de Hérida, há muitos e muitos séculos. Desconhecemos apenas se, pelos indizíveis meses que passamos ao mar, e o nenhum calendário, eles, os séculos, se encontravam ou não ao revés.


Um conto inédito de Wilson Bueno
Al Berto
OFÍCIO DE VIAJANTE

procurei dentro de ti o repercutido som do mar
a voz exacta das plantas e um naufrágio
o deslizar das aves, o amor obsessivo pelos espelhos
o rumor latejante dos sonhos, as cores dum astro explodindo
o cume nevado de cada montanha
difíceis rios, os dias

vivi em Roma
no tempo em que ali chegavam os trigos da Sicília e os vinhos raros das ilhas
a fama remota dos ladrões de Nuoro

todo o meu corpo estremeceu ao mudar de voz
cresci com o rapaz, embora nunca tivéssemos sido irmãos
e quando ficamos adultos para sempre
alguém lhe ofereceu o ofício de viajante

eu morri perto de Veneza
e quando atirava pedras aos pássaros sempre me ia lembrando de ti



Al Berto

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Andrej Glusgold, sem data
GODOT CHEGOU AO HOTEL SUNSET BOULEVARD
E NÃO ENCONTROU NINGUÉM


Vim a este Hotel Sunset Boulevard, rente ao mar grosso de sal e azul, porque me contaram que aqui estavam me esperando Schopenhauer e Francisca B. Não os encontrei. Não faz mal. Ficarei espiando o mar tranqüilo assim e o visível corpo n’água.

Mar em que nos abandonamos e que cresce em nós com as tormentas, continuará a ser água salgada em desalinho constante e os limites deste mar, fixados em alguma idéia, se confundem com a altura do céu que é claro sem nunca ter pensado: este céu é suficientemente despovoado de anjos e beatas virgens, de tal modo que resta sempre novo céu que podemos exaurir e dele arrancarmos as finas cordas da chuva, as chuvas de que é capaz o espírito.

E acontece que, para o espírito, as nossas presentes chuvas, sem consideração moral, são mais molhadas. Aquele que construiu em si a obrigação de molhar os dedos na pia de água benta, sabe que nunca deixará de faltar matéria e realidade à água benta e só terá necessidade de recorrer a ela se, vazio, e para iludir o escuro em si mesmo, tocar a suposta santidade da água que, ali na pia, é água apenas, e isso é tudo para essa água que, sem pia nem beatitude, continua ali e logo evapora. Mas chega de filosofia.

Não vou esperar mais. Daqui posso ver a Tabacaria. Talvez o Esteves saiba onde Schopenhauer — o peixe espinho — e Francisca B. estejam.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Henry Horenstein, sem data
LES BAINS DE CARACALLA

Sonhei tanto, sonhei tanto,
que não sou mais daqui.

León-Paul Fargue



Às águas da piscina de Caracalla levo a alma,
--- na piscina nadam cinco Danaides ---,
levo a sede às cacimbas.
Com pureza entro na barca do pensamento;

agora sei que as Danaides
é que arejam a língua da piscina.
Há dentro de mim uma água que não existe.
Há uma fonte além do vento e da morte:

nela água é humilde.
A cisterna que a contém recende
a um acorde de pólen.

A música é haste de gramínea
entre os cabelos das Danaides.
Esqueci minha língua de piscina

no tímpano de uma delas --- a com o leque.


Fernando José Karl

fazer poesia deveria ser sempre assim: simples e impossível

Michael Davis, sem data
Aqui, na cervejaria Bürgerbräukeller, entabulo conversa com o garçom, que me traz logo uma cerveja e inicio a primeira leitura do Testamento para El Greco, do escritor grego Nikos Kazantzakis – que sugere o total isolamento para que se possa desvelar o mais profundo do ser humano. O mesmo Nikos disse em algum lugar: – As únicas coisas que importam na vida: idéias, frutas, mulheres.

O banheiro da cervejaria Bürgerbräukeller – arruinado, sujo. Almas acossadas em cada recanto sombrio. O dono do bar não é o Esteves, aqui não é a Tabacaria, aquele que me fita da mesa ao fundo não é o Fernando Pessoa. Se não é o Fernando, quem é? É Jorge Luis Borges e solicita que eu leia um texto de sua autoria intitulado “A escrita do Deus”: “Perdi o número dos anos que estou na treva; eu, que uma vez fui jovem e podia caminhar por esta prisão, não faço outra coisa senão aguardar, na postura de minha morte, o fim que me destinam os deuses. Com a profunda faca de pedernal abri o peito das vítimas e agora não poderia, sem magia, levantar-me do pó”.

Que estou na treva, estou. Sem magia, não me levanto jamais do pó nem alcanço o copo de água. Sem magia eu não ressuscito nem pra beijar a boca da Ingrid, aquela safada. Minha alma – agora sei – foi vista pela última vez na página 72 de “O livro perdido de Tácito”. Acontece que, numa faxina aqui em casa, perdi “O livro perdido de Tácito” e só Deus sabe quando vou encontrá-lo de novo.

Por enquanto minha alma continua perdida e eu aproveito para seguir religiosamente o conselho do espanhol Pablo Picasso para uma vida perfeita: De manhã, missa; de tarde, touradas; à noite, bordel.

Escrevo, aqui na cervejaria Bürgerbräukeller, num guardanapo: “Deus morreu nos meus braços naquele sábado em que eu e Júlia nos amávamos no Calvário. A língua vai para onde quer, o espírito sopra onde quer, o Olho por onde espio o vento é o Olho por onde o vento me espia. Meus olhos vão ver o paraíso, sim, mas serão olhos apodrecidos. ”



Fernando José Karl

sábado, 21 de agosto de 2010

ESTUDAR E VIVER - Crônica de Rubens da Cunha

Eu li num outdoor de uma faculdade à distância o seguinte slogan: “Ensino para vencer com tempo para viver”. No princípio, pensei que tinha lido alguma coisa errado, mas depois, olhando bem, percebi que o slogan que move a campanha publicitária da dita faculdade é esse mesmo. Além disso, tinha uma mulher com os braços levantados e sobre ela uma águia, reforçando ainda mais a ideia de liberdade distanciada de qualquer disciplina, ou esforço, que o estudante tenha que ter. Eu busquei na memória minhas aulas de análise do discurso (todas presenciais) para entender melhor essa frase. O sentido mais óbvio que a faculdade quer passar é que ficar durante algumas horas todos os dias numa carteira, ouvindo um professor, estudando, aprendendo pelo esforço e pela concentração não é viver. Que viver é fazer qualquer outra atividade, como por exemplo andar debaixo de uma águia com os braços levantados, menos estudar: no outdoor não tinha nem de longe a figura de um livro, de uma apostila, ou qualquer coisa que “carregasse” o conhecimento. Mas tinha um belo pôr-do-sol atrás da mulher, aquele mesmo que você perde porque está indo para a faculdade presencial. Não sou muito tradicional, acredito que o modelo atual da educação brasileira precisa ser alterado, acho que muitas vezes a escola é tolhedora da criatividade, da inteligência, mas uma faculdade expor num slogan que seu principal serviço corresponde a não viver e que, por isso, as aulas presenciais são apenas uma vez por semana, ou seja, você morre bem menos do que os alunos das outras faculdades que vão à aula todos os dias, é algo bem preocupante. Não é nem tanto o ensino à distância, uma realidade provavelmente irreversível, que me deixa indignado, mas fazer desse aspecto negativo dos tempos contemporâneos o seu lema. Afinal, ir a uma faculdade ainda é algo bem interessante, ouvir, conversar, debater, aprender um assunto ao vivo é sempre instigante, e claro, tem os aspectos extra-classe: as festas, as amizades, os contatos, a vida real que acontece num campus e que a faculdade à distância, por sua característica básica, não pode ter. Pois a faculdade a que me refiro faz de sua deficiência uma qualidade, estabelece que estudar é ruim, é chato, que ir às aulas é um esforço inútil, que vencer é muito mais fácil quando você vive longe da sala de aula. Vai lá cumprir tabela uma vez por semana. Em alguns casos, vai na escola só para fazer as “terríveis” provas. O slogan é uma ode à preguiça, à lei do menor esforço, aquela mesma que movimenta o mundo desde que ele é mundo. Obviamente, me dirão: para que ir todos os dias à faculdade se você pode ir uma vez por semana e aprender o mesmo? Para ir, para sair de casa, para ver que estudar mais que obrigação é algo bom, divertido, e que diferente do que prega o slogan, estudar está diretamente ligado ao viver.


Rubens da Cunha