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domingo, 30 de janeiro de 2011

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Miran

Moutty, 2010

Feto de um delfim.



A noite acaba feito gim. O senhor K. não é uma criatura débil como uma haste de verbena; e até afirmou, em determinada ocasião, que o excesso é fundamental; que o excesso leva ao Castelo da Pureza; disse, igualmente, que a vida lhe fugia em cada sopro que vazava dos lábios finos do destino. Tinha um olhar, o senhor K., de ser gerente do The Bay Hotel --- mas ele é o gerente do The Bay Hotel ---, apenas esqueceu por um instante. Seus primeiros pensamentos da manhã já se parecem com os seus últimos pensamentos do dia. A cabeça, a do senhor K., mais bruta do que a cabeça do açougueiro Hamm. Apenas o tédio é, nesse meio-dia de verão, mais bruto, e cáustico. Não aspira, o senhor K. não aspira nunca ao céu. Como Orfeu, parece que está sempre recolhendo no vaso da alma, a um só tempo, um sáurio gravemente ferido e uma deusa com tímpanos de chuva. A noite acaba feito gim. Foi sugerido ao senhor K. que, entre as cinco irmãs — escolhesse uma—, e o senhor K. apontou para Joana, a única a quem a natureza tinha dado todas as rosas do amor. Todas as outras quatro irmãs mais pareciam ter seiva de areal, isto é, eram secas. Eu convido Joana para as fadigas de uma noite de núpcias ou o lúbrico serpentário da língua na nuca. Joana, a boa menina, lânguida após um copo de gim ou mais lânguida se o senhor K. tenta acariciar o musgo molhado entre suas coxas. A noite acaba feito gim. Joana guarda no relicário íntimo a sua fragilidade e a razão de preferir uma Cassiopéia boreal a uma longa temporada no Gehenna fumegante; entre ácaros e lesmas, entre chifres e cascas de cigarra. Um sopro inaudível conta à Joana que ela sabe mais que as plantas e os peixes; que ela sabe mais que os santos. Joana morena, olho verde, cabelo comprido. Por causa dela o galã da noite --- o senhor K.--- poderia até entoar antífonas religiosas na Ilha da Ilusão ou, após beber litros de gim, cairia de língua nas peles, nos pêlos dessa Joana de circunstância --- dessa mulher que enxágua retinas --- e se entrega, de quatro, feito uma piscina molhada, ao senhor K.. A noite acaba feito gim.


Fernando José Karl

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Porcelana

Video Clip da Banda Lady Murphy.

Música: Rico Vogel
Letra: Rubens da Cunha

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Miki Carmi




K. escreve uma carta ao filósofo Hervum: “A Jarra de Heidegger (Das Ding/A Coisa) é uma imagem e imagem não tem enigma. Não custa nada frisar que a Coisa existe em sua exata natureza e persevera – atua – desprendida da figuração, e é provável que tenha dado origem ao deus babilônio Shamash; às cocléias, homares e conclins; à peônia que pende rente à neve; ao bate-bate de atabaque do batuque; ao acaso que impera. A Coisa – o Outro em exclusão interna. Escavar na ilusão este ponto (.) – quantum – em que a ilusão mesma se transcende, se arrasa, confessando que aí está apenas como significante: um exemplo – a palavra ‘Jarra’ –, de ‘A Jarra de Heidegger’, é significante enquanto essência daquilo que não contém nada. Outras jarras significantes: casca de laranja, de lagosta, de cebola, de crustáceo, de réptil, de sequóia, de tartaruga, de caracol, de ovo, de pão. A jarra de Heidegger – casca de vidro – é um objeto que circunda o Vazio e tenta aclarar a existência deste Vazio no centro do real. Quanto mais o objeto – a Jarra – é presentificado, mais ele nos abre esta dimensão na qual a ilusão se destroça e aspira a outra Coisa – menos a letra do que o espírito do escritor”. A Coisa é babel, bárbara, balbuciante. A Coisa existe mesmo quando não há. As palavras sopraram antes da Coisa e cada sopro delas é um ramo de sutis idílios. A palavra neve: sônica, nívea.


Fernando José Karl

Odile Redon (1840-1916)



Se fossem do Deus, somente, as mortes,
seriam impérios aéreos, ravinas solares.

Mas as mortes são nossas,
que nos entregamos às minúcias:

crochê
moeda
chafariz

exalamos um vazio
do fundo mais firme do silêncio.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

UM ESPAÇO PARA DISCUTIR TEATRO

Amigos, fiz um blog só para teatro. Tudo que se refere ao teatro brasileiro e catarinense vocês encontrarão lá: entrevista com diretores, atores e teóricos. Comentários sobre livros e crítica, bastante crítica. Vocês podem começar acompanhado o texto sobre o espetáculo QUARTO 101 - VAZIO DA MEMÓRIA que está em cartaz no teatro da UBRO. Eu e o poeta Rubens da Cunha lançaremos a OSÍRIS - REVISTA DE LITERATURA E ARTE em março. Ela será online e terá um dossiê impresso a cada número. No dossiê nos escolheremos um artista da literatura, do teatro ou das artes plásticas para fazermos um panorama de sua obra e vida. Dentro da revista teremos dois blogs, um de teatro e outro de literatura. O de teatro já está no ar com crítica novíssima. Vejam em http://revistaosiris.wordpress.com/teatro . Aos poucos farei correções e edições às críticas dos espetáculos da temporada passada eu vou postar também no novo blog.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

POEMAS DE NICOLÁS GUILLÉN

FOME

Esta é a fome. Um animal
todo olho e caninos.
Nada o engana ou distrai.
Nunca se farta à mesa.
Não se contenta
com um almoço ou jantar.
Anuncia sempre sangue.
Ruge como leão, agarra como giboia,
pensa como pessoa.

O exemplar que aqui se mostra
foi caçado na Índia (subúrbios de Bombaim),
todavia existe em estado mais ou menos selvagem
em muitas outra partes.

Não se aproxime.


SONHO

Esta borboleta nocturna
flana sobre nossa cabeça
como um abutre sobre a carcassa.
(O exemplar
que aqui mostramos é o sonho vulgar).

Sem dúvida,
a direção promete para o fim do ano,
ou talvez antes,
remessas escolhidas de sonhos
quer de homem quer de mulher.

Cinco caixas de moscas tsé-tsé
foram encomendadas anteontem.


BOMBA ATÔMICA

Esta é a bomba. Vejam-na bem.
Repouca dormitando. Por favor
não a provoquem
com paus, cajados, ferrões,
pedras. É proibido
deitar-lhe alimentos.
Cuidado com as mãos,
com os olhos!

A Direcão

já o disse e avisou
todavia ninguém fez caso,
nem sequer o Ministro.

É um perigo bárbaro
este animal aqui.


[Estes poemas estão no livro O GRANDE ZOO (1968). Um livro de choque. Costumo dizer que há uma literatura de impacto e uma literatura dócil. Nicolás Guillén (1902-1989), poeta cubano que tramou em sua linguagem o impacto em todas esferas é o tipo de poeta que incomoda pelo que revela e pelo que oculta. Divirtam-se com as ironias e porradas dele!]

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

CRÔNICA - RUBENS DA CUNHA

DO VAZIO, OU DE COMO ELISA LUCINDA ENCONTRA CIORAN

Vazio, a segunda-feira grita-se em azul. As paredes brancas do apartamento embranquecem ainda mais sua vida. Não o embranquecer da limpeza, da pureza, dos inícios do ano, mas o embranquecer da cegueira, dos anúncios de que vereadores de sua cidade locupletam-se em carros alugados, de que filhos do ex-presidente ganharam passaportes diplomáticos, de que a vida nas altas esferas do poder continua lá, nas altas esferas. Todos se esganiçando atrás de um naco de privilégio, enquanto ele aqui, sobre um colchão danificado, escamoteia palavras, fuça-se, força-se atrás de um assunto qualquer, de um conjunto de palavras que possam ser publicadas, que possam ser lidas e agradem àqueles que o leem. Vontade de citar o filósofo Emile Cioran, vontade de deixar a página em branco, vontade de encontrar o jacaré Fritz e pedir para que deixe o rio poluído de sua cidade, tem tanta dó dos bichos à margem do rio, soubessem o que comem, soubessem que são vítimas também da violência da cidade. Cioran o salvará nessa hora: “Enquanto os homens sentirem paixão pela sociedade, reinará nela um canibalismo, […] suprima seu desejo de ser escravos ou tiranos: a sociedade ruirá em um abrir e fechar de olhos, o pacto dos símios está para sempre selado; e a história segue seu curso, horda esbaforida entre crimes e sonhos, nada pode detê-la: mesmo os que a execram participam de sua carreira...”.Por que ler isso? Por que não ficar na superfície, nas águas rasas do cotidiano, olhar as formigas, olhar os lírios do campo, olhar a Serra do Mar, ir lá onde o rio nasce. Talvez lá ele esteja limpo, assim como todos os homens, nascem limpos, seguem limpos até certa idade. Mas depois o pacto dos símios os alcança e nada mais podem fazer, senão dançar a música, invejar quem dança melhor, quem se elege melhor. É um novo ano, dizem, um tempo de renovar as esperanças. Que palavra essa: esperança, espera misturada com alcança ou espera misturada com cansa, mas sempre espera, sempre o futuro, essa parede branca. Essa segunda-feira azul, essa falta de assunto, esse contínuo apego à rotina. Lembra de Elisa Lucinda, que acaba de lançar “Parem de Falar Mal da Rotina”, Elisa Lucinda precisa ler Emil Cioran, mas Elisa Lucinda precisa ganhar dinheiro também, então não a condena, afinal ela tem assunto, ela sabe o que fala, ela faz participações em novelas de Manoel Carlos, e ele? Ele vomita, vitupera, espanca as pobres palavras e nada diz, nada expõe, pouco altera a rota, ele não sabe o que fala, ele não quer falar daquilo que radialistas indignados falam todos os dias. Afinal, ele é tão hipócrita quanto os radialistas, ele é tão banal quanto Elisa Lucinda, ele é tão previsível quanto Cioran: “Como nosso destino é apodrecer com os continentes e as estrelas, exibiremos, como doentes resignados, e até a conclusão das eras, a curiosidade por um desenlace previsto, medonho e vão”.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011


A princesa Shai

– herdeira do império Chiuang –

mexe na constelação

para

segurar

o

angorá

pelos

pêlos