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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O colapso das colmeias - Crônica de Rubens da Cunha

O colapso das colmeias

Li uma reportagem sobre o colapso das colmeias e comecei a elucubrar novos colapsos impostos pela natureza. Para quem não sabe, o colapso das colmeias é um fenômeno que faz as abelhas produtivas desaparecerem das colmeias. As abelhas abandonam tudo, inclusive crias, desaparecem sem deixar vestígios. Começou há alguns anos nos Estados Unidos e agora parece que o fenômeno chegou a Santa Catarina. Alguns apicultores já notaram o sumiços das abelhas e estão começando a ficar preocupados. Os cientistas ainda não descobriram os motivos, estão apenas trabalhando com hipóteses como mudanças climáticas, uso de agrotóxicos, algum tipo de vírus.
Para além de todo o problema social e econômico que o sumiço das abelhas pode provocar, não deixo de pensar numa revolta. Uma poética revolta das abelhas cansadas de produzirem mel para os homens. Como começou? que abelhinha americana pensou em organizar o sumiço? Como a notícia se espalhou e chegou até o sul do Brasil? O denominado colapso das abelhas pode muito bem ser a libertação das mesmas. Chega das mesmas flores, dos mesmos caminhos, da mesma colmeia, chega de trabalho e lá partiram as abelhas para algum lugar que ninguém conhece. E quando o colapso chegar a outros bichos que só trabalham para os homens? E quando os avicultores chegarem nas granjas e as galinhas tiverem sumido, logo depois os porcos, os bois e vacas e todos os animais explorados pelos humanos. Sumiço geral, os bichos espalhados pelo mundo e ninguém sem saber bem o que fazer, sem saber o que comer.
Alguns dizem que os acontecimentos climáticos recentes já são uma espécie de colapso, ou de retorno da natureza a seu lugar. O homem é um bicho gregário, mas ao mesmo tempo destruidor do ambiente, atua como se não pertencesse ao sistema da natureza, mas fosse o seu dono. É visível o afastamento da humanidade da natureza, já não somos mais parte da natureza, mas algo que paira sobre, manipulando, fazendo estripulias, brincando com o próprio destino. Enquanto isso, os colapsos acontecem: primeiro o clima, depois o mar, as águas, as abelhas, logo virão os outros bichos, até chegar um dia em que os vegetais também se revoltarão, também entrarão em colapso e sumirão do mapa. Até chegar o dia em que o humano será realmente rechaçado da natureza, não por sua vontade como acontece agora, mas por vontade da própria natureza, a grande mãe que um dia será realmente incapaz de perdoar.
Claro que minha distopia é apenas isso: uma distopia, uma situação de um futuro imaginário, um tanto ingrato para o humano, um tanto pessimista em relação à raça da qual faço parte. Mas os sinais estão aí: tragédias ambientais contínuas, montanhas antes vestidas de neve agora desnudas, o mar infestado de plástico, além disso, o sumiço das doces e trabalhadoras abelhas, diagnosticando que o futuro não será aquele melzinho na chupeta como muitos pensam.


Rubens da Cunha

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sensualidade

No caderno do aluno de amor, desenho o ventre azul.
Faço meu beijo do perfume da boca de amoras.
Rabisco seios morenos de incêndio.
Toco flauta com mãos de rio
e umedeço as palavras de ontem.
Quando exausto, estico o pescoço até o topo dos
manacás
onde moram as cigarras.
Diante dos olhos uma cidade constrói homens de cera.


Valdemir Klamt

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011



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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

LIÇÃO DE PRIMEIROS SOCORROS

aperte a garganta
até que ela cuspa
os venenos das palavras roxas

quanto aos olhos cianóticos
o sangramento da poesia
deixa ramificações vermelhas

faça respiração boca a boca
tente traduzir
os segredos de sua língua


Antonio Carlos Floriano

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Joel-Peter Witkin, sem data



O vendaval lanha as árvores que fustigam as vidraças do jardim de inverno do senhor Caligari. Ele fuma erva, sorve líqüido. Uma deusa aquática dirige-lhe a voz, de modo familiar, para perguntar alguma coisa, algo banal que seja, mas, em verdade, apenas para retê-lo consigo e sentir a língua escamosa dele na sua pele branca de uma neve de romance russo. Com os dedos hábeis e grossos o senhor Caligari ergue a saia da deusa aquática e a violenta ali mesmo entre as plantas do jardim de inverno. Que amor mais escuro, choram árvores da noite – galhos contra o muro – árvores que espancam sem dó nem piedade a ampla janela envidraçada. Antes de vestir a roupa, ela ainda volta a cabeça, e, na forma do costume, dá adeus com a mão que, só agora, o senhor Caligari percebe que é uma garra de pássaro. Ele vê a deusa aquática atravessar o hall com plantas ornamentais – ou seria uma plantação de cannabis? – ele a vê, sim, ir embora, dobrar a esquina, depois o senhor Caligari se dirige à piscina de seu casarão onde há um vento folheando as páginas de um Kaváfis, a vitrola rodando um jazz de Duke Ellington e, com assombro, vê o cu de um besouro de onde vaza a passacale de Buxhetude a mais bela música sacra do barroco alemão.


Fernando José Karl

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

FIRMAMENTA

palavra para vanessa schultz

será que és
somente séssil
e cegas
no organismo
a coisa aérea
?

ou éreis
e seríeis sono
e míssil:
recém cessas,
sobre a íris,
a relva avulsa das origens
?

será somente
f i r m a m e n t a
(palma explodida
pelo aplauso)
ou salga látea
da galáxia
?


Dennis Radünz

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Poema De Enzo Potel

SUBSTITUTO

Eu procuro imaginar em que tipo de
latência eu estarei ao me deparar com você.
Ryana diz que eu não devo mastigar
para o resto da vida o que falaria,
porque quando chegar a hora, as monções
dos corpos conduzirão as palavras mais
adequadas, as cabíveis. Enquanto isso,
o inacessível me adoece. E em busca
do vento, me precipício.

Do livro CONTO DE FACAS

Poema De Raquel Stolf

Lista de Coisas Brancas - coisas que podem ser, que parecem ou que eram brancas



arroz. açúcar. nuvem. sal. isopor. caderno novo. tontura. neve. pérola. céu nublado. sussurro. borracha de apagar. concha. minha geladeira. cabelo branco. vermes. pasta dental. eco. naftalina. dia de sol forte na praia. ovos. morte. tinta de parede. vômito. guarda-pó. cocaína. maionese. roupa de médico e dentista. larva de inseto. dados. pasta d’água. ramela. papel. nervo. página. palmito. branco do olho. máscara para pó. quando se esquece de repente. mingau de aveia. dor de cabeça. melão aberto. tempo que não passa. papel toalha. dentro do pequi. sabão de coco. caneta quando falha. vôo. pedriscos de aquário. farinha de trigo. alho. dentro da barata. polpa de fruta-do-conde. franqueza. ossos. quase no fim de alguma coisa. metade da zebra. pelicano. glândula parótida. anseio. sofá. barba. arrepio. miolo de pão branco. sêmen. dentro da semente da fruta. esqueleto. rabo de macaco comodo. guardanapo. couve-flor. insônia. sulfato de bário. cimento branco. iceberg. dentro da maçã. falha. travesseiro. gaivota adulta. urso polar. máquina de lavar roupa. dentro da jabuticaba. magia branca. forno microondas. leveza. roupa de lutador de sumô. torre de marfim. entre a polpa da laranja e a casca. cabra-das-neves. flor da figueira-do-inferno. cegueira segundo saramago. quando a unha cresce. papel higiênico. leite. neblina. pus. dentro do travesseiro de penas. faixa de pedestres. saudade. instante antes do desmaio. saco de leite tipo a, b e c. ovos de siba. legenda de filme. shampoo. varinha de condão. plâncton. cano de esgoto. farinha de mandioca. pólo sul. mosquiteiro. nudez. copo plástico descartável. interruptor de luz. glândula mamária. cursor. talo de couve-chinesa. desejo. lacre do vidro de requeijão. pólo norte. borboleta. bola de golfe. gás lacrimogêneo. elefante branco. buda. barriga de pingüim. chuvisco de tv fora do ar. flor de heléboro. creme para cabelo. atrás da foto. algodão. paz. secreção nasal. vestido de noiva. pele de quem não toma sol. fumaça de cigarro. sabonete. chocolate branco. ovo de piolho. creme para espinhas. flocos de arroz. talco. bolor de pão. iglu. caspa. flash. nabo. areia da praia. cheque em branco. dente de leite. prédios públicos. leite de magnésia. filhote de urubu. gaze. avião. flor de feijão. coruja-das-neves. dunas. substância gelatinosa de ovos de rã. mancha de água sanitária. bolo de noiva. pó com antraz. glândula sublingual. deserto. cal. gato branco. pensar demais. protetor solar. espaço entre as linhas escritas. prato de porcelana. horizonte. requeijão. fantasma. gordura vegetal hidrogenada. lençol de hospital. coelhos. salada de repolho cru. saponáceo. luz. nosso carro. estrelas. animais albinos. carneiros. banana descascada. piso do meu banheiro. hóstia. diamante. envelope. espuma de sabão em pó. lua vista da terra. dentro do grão de feijão. sacola plástica de supermercado. cerdas da escova de lavar o vaso sanitário. molho branco. cérebro. sol. manjar de coco. pessoa pálida. parede. comprimido. minha máquina de costura. broto de pinhão. lenço. carne do peixe. atadura. meia soquete. gelo seco. gesso. garça. sagu cru. carne da lagosta. balinha de 2 calorias. felicidade inesperada. saco de algodão. computador quando trava. cadarço de tênis. bola de pingue-pongue. leite materno. cocada. pano de louça. mármore. vela. galinha. poodle. túmulo. anemia. suspiro. filhote de foca. clara em neve. papel fotográfico antes de ser velado. queijo derretido. dente. pomada para assadura. vinho branco. vapor d’ água. ricota. lâmpada fluorescente. rato branco. leucócitos. ruído. bocejo. gêiser. ovos de tarântula. nata. marfim. camisa-de-força. filhote de fragata. álbum branco dos beatles. bolo de queijo. surdez. rabanete descascado. ser o primeiro da fila do banco. esparadrapo. goiaba branca. filhote de águia. fralda descartável. pausa em gravação. ficar de cama. pipoca. gueroba. veneno para pulga. igualdade. flor de cicuta. fita virgem. xícara de porcelana. ovelhas. coisa nova. coisa usada. pedaços da bola de futebol. falta de cálcio. cegonha. vulto. eco. bicarbonato de sódio. vela de barco. absorvente feminino interno e externo. ovos de codorna cozidos. camiseta branca. espuma do mar. doce de polvilho. linho. fim. cavalo. corretivo. camisa de garçom. placa de pvc. fita virgem. champignon. micose. respiração congelada. fundilho de calcinha. ouro branco. alcatraz. flor do café. susto. galinha-da-neve no inverno. etiqueta de roupa. lulu da pomerânia. crânio no encefalograma. ficar sozinha em casa. peça de dominó sem pontos. relâmpago. possibilidade. unicórnio. broto de feijão. ambulância. minha lixeira da cozinha. pétala de margarida. fim de madrugada. cartilagem. rendas. cálcio. tule. zero. coador de café. couro cabeludo. adoçante. cola branca. passagem para outro mundo. filhote de atobá. miolo do coco. múmia. vitiligo. fundo do relógio. raposa-do-ártico. falsidade. gordura de mortadela. casulo de bicho-da-seda. saliva seca. peruca de juiz. amnésia alcoólica. fio de luz. impossibilidade. paina. buraco branco. burburinho. fralda de tecido. palha de milho seca. tudo. nada. raiz de fio de cabelo. filtro de cigarro. faixa branca. teia de aranha. via láctea. filtro de café. passe-partout. começo. fio dental. tubarão branco. cambraia. cola em bastão. alpes. tampa de canetinha. cisne. creme hidratante. fita veda-rosca. vácuo. carta branca. desbotado. casca do ovo de jacaré. bola de vôlei. barriga de arminho. espirro. fundo dos buracos negros. toalha de banho. arroz doce. roupa de pai-de-santo. pétalas de narciso. espuma da cerveja. teclas brancas do piano. listras do uniforme escolar. casulo de borboleta. pedra calcedônia. roupa para ano-novo. bactéria schizophyta. dentro da concha. glândula submandibular. vaso sanitário. seiva da planta pau pelado. espinha de peixe. pó de arroz. velocidade. relógio parado. kimono. saquinho de chá. lírio. espuma de raiva. mosca branca. penugem na roupa. erro de encadernador. jasmim. avalanche. toalha de mesa. samoieda. anã branca. lebre-do-ártico. aspirina adulta. flor copo-de-leite. dia frio com sol. cana-de-açúcar. avental. barata branca. canjica. antúrio indiano. carneiro das montanhas. roll-on do desodorante. veneno para pulga. flor de nenúfar branco. soluço. céu com chuva. massa corrida. etiquetas. silêncio. sono. reflexo. cebola crua. medo. gelo. giz. comida mofada. bandeira branca.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Poema de Cristiano Moreira

Para fernado karl em seu aniversário

quando o sol passa sobre a cabeça
e a deixa mais branca ou mais calva
é pra mostrar-nos que ter calma
ajuda a azeitar o eixo e a lança

assim o sol sobre as águas de aquário
faz brilhar a luz solitária do peixe mudo
aquele que contou a netuno as gafes
de mnemosine, o mesmo que disse
a osíris que o mangue não era tão fundo.

ao passar o sol sobre a cabeça
e o vidro trincar do aquário, veja no fundo
já menos solitário e mudo, o peixe. e as alças do vento
como asas, no peixe voador antes lento
à popa carreando vento e nas escamas,
a desfiada coreografia da dança.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011


Conhecer o blog

da incrível poeta Francine Canto.

http://poemasdefrancinecanto.blogspot.com/





Escutar Summertime,

a obra-prima

de Janis Joplin (1943-1970).

http://www.youtube.com/watch?v=mzNEgcqWDG4