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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

TUBARÕES SOBRE CABEÇAS

no aquário de shinagawa
tubarões nadavam sobre minha cabeça

aproveitava o pouco de um dia
quando tinha um dia para respirar um pouco

e o que fazia além de respirar?

somente um morto teria melhores histórias
caminhando por tóquio em shinagawa

onde scorts fingiam gueijas
 homens de negócios douravam rolex

onde tailandesas eram estrangeiras dentro do oriente
adoravam o desenho de meus olhos

me serviram pratos desenhados do sião
seus corpos minguados

a tarde em shinagawa minguava de ausências
 os tubarões passeavam sobre minha cabeça



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Henri Berssenbrugge, 1925



O gramofone, o colar de pérolas
e o frasco com água benta


Cada um de nós terá tido dessas noites insones, quando se escuta apenas a chuva.
         Penso durante a chuva e na minha decisão de amanhã ir ver, vinte anos depois, se ela ainda vive no sobrado rente ao mar.
         Tudo o que eu tenho na vida cabe numa caixa de sabonete, por isso preciso saber se ela ainda pisa as tábuas da varanda do sobrado onde costumávamos, deitados em redes de embira nova, passar os verões de nossa mocidade.   
Aqueles dias agora parecem frios, como se tivessem sido cavados na pedra. Acordado, mas de pálpebras fechadas, escuto passos sobre as carcomidas tábuas da varanda que estalam. Na verdade, não há tábuas da varanda, porque eu imagino o ruído, e o ruído desenha as tábuas da varanda do sobrado, desenha igualmente cada recanto do sobrado de velha madeira, circundado por ventos apressados.
         Eu não sou nada ou sou um jarro vazio sem aquela que, talvez, ainda viva no sobrado rente ao mar. Eu, sem ela, sou apenas uma dor que desemboca nos ossos. Ela que, há vinte anos, possuía voz tão de gaze como essas mulheres que, no bosque anoitecido, anunciam que os deuses devoram a cabeça dos que se recusam a sonhar. Suas palavras de algodão se dissolviam nos meus tímpanos à maneira de fios de rebuçado na concha da língua. Ela era muito pálida, com certo quebranto nos olhos machucados, um ar de romance e de languidez em toda sua pessoa, e a sua maior beleza estava nos cabelos negros, muito pesados, que deixava cair soltos sobre as costas num desalinho de nudez.   
         Dizia-se que tinha literatura e fazia frases.
         Não suporto mais o excesso de solidão e de silêncio que vincam os meus dias de amargura, por esse motivo é que amanhã irei ver se, vinte anos depois, ela ainda respira no sobrado rente ao mar.
         Um hálito perfumado de capinzal me invade quando chego perto das janelas escancaradas do sobrado enorme, com jardim, com piscina, com a escultura de mármore na entrada.
         A mulher que está no banco de pedra ante o mar, com os cotovelos pousados na mesa de madeira, essa mulher, cansada pela salsugem marinha, morreu ontem, mas como se morreu ainda pode estar com os cotovelos na mesa de madeira? É que estou imaginando que a mulher que morreu ontem está ali com os cotovelos na mesa de madeira e espia o mar, flagra a canoa levando embora a sua respiração.
         Se a canoa retornasse, mas a canoa não retornou.
         Recebo dos homens da agência funerária uma espécie de caixa onde enfiaram as cinzas que foram dela. Remexo as cinzas com o garfo, mas nas cinzas nada de nada: nenhum sopro de voz, nenhum osso, nenhum resquício de memória, nenhuma presença contínua.
          Vou até o mar deitar as cinzas e respiro entre as árvores, porque é só o que posso fazer agora. Ainda não sei porque permiti que queimassem, além de seu corpo, também o gramofone, o colar de pérolas e o frasco com água benta.



Fernando José Karl

segunda-feira, 24 de setembro de 2012


não lembra das coisas
do tiro no ombro
o dia de reis

não lembra da compra do uno
do primeiro filho
da morte do único filho

de tudo que passa no olho
as vezes uma palavra

a única coisa que se lembra
é que te amava



Antonio Carlos Floriano
DE TEATRO EM TEATRO

POR MARCO VASQUES
Publicado no jornal Notícias do Dia [24/09/2012]

A coisa é simples e mais ou menos assim: chega em casa, toma banho, veste a primeira camisa que estiver à frente, coloca a primeira calça limpa que achar. Procura meias e sapados, também sem muita frescura na escolha. Depois se olha no espelho para ver se o corpo e a cabeça estão intactos diante do exercício de 15 minutos. A rotina é semanal. Tem semanas que chega a ir ao teatro mais vezes que os próprios dias da semana. Em resumo, para ele a atividade de frequentar o teatro é vital, necessária e tão natural, que não consegue entender o comportamento de algumas pessoas quando vão a um e outro espetáculo.
Pelo menos duas vezes a cada sete dias se dirige ao Teatro Armação, ao Teatro da Ubro, ao Teatro do SESC-Prainha, ao Teatro da Igrejinha da UFSC, ao Teatro Álvaro de Carvalho, à Casa das Máquinas, à sala do Centro de Artes da UDESC, às ruas da cidade, ao Teatro Pedro Ivo, à Célula Cultural, ao centro de eventos da UFSC ou ao Teatro Ademir Rosa; enfim, onde a cena acontece, costuma se fazer presente. Não tem preconceito algum. Vai da comédia ao drama com a expectativa do gozo estético ou a perspectiva de encontrar alguma poesia que dialogue com a carne e a mente.
No entanto, o teatro, para ele, começa muito antes do teatro, sobretudo nos espaços ditos mais nobres, menos alternativos. Onde, normalmente, as “grandes estrelas” se apresentam. Nestes espetáculos, em que se paga a peso de ouro ou se disputa uma cortesia com o fervor de cães famintos à frente de um bife acebolado, a cena externa, em muitos casos, supera o que se vê no tablado, pois existe um tipo de gente que não vai ao teatro para assistir aos outros, mas para ser assistida.
Então a coisa é assim também: muito laquê no cabelo – daqueles que nem o vento sul consegue abalar -, muita base, batom, brinco de ouro, óculos Dior, bolsa Louis Vuitton e Prada. Ou seja, um mundo de gente que acha bonito se pavonear sem se dar conta do limite entre a beleza e o senso do ridículo. Nestas noites, os teatros são tomados pelo estilo Barbie – com silicone e botox - maquiada por criança. Soma-se aí muita empáfia e burrice; temos o tipo de personagem que brilha mais que qualquer peça global. Teatro não é evento de madame, que compra roupa nova e tudo achando que está indo pro casamento da sobrinha. Fiquei tão puto. Aproveitei o anonimato, claro, duas madames daquelas jamais conheceriam um crítico de teatro. Como um crítico de teatro se nem temos teatro em Florianópolis? Quanto mais dois críticos? Fui pra cima: a senhora conhece o nome de uma ator da cidade? De um diretor? Qual o último espetáculo feito aqui que as senhoras assistiram? O silêncio permaneceu. Estava tudo dito.
Dia deste ele aproveitou o anonimato e se imiscui na conversa de duas madames que difamavam o teatro local. Como? Teatro em Florianópolis? Existe? Só porcaria! Cruzes! Nesse momento ele foi para cima delas – não o julguem um tarado, por favor: qual o último espetáculo feito aqui a que assistiram? Conhecem o nome de algum ator? De um diretor? Conhecem... O silêncio permaneceu. Estava tudo, nada, dito.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

preciso de um momento para descansar
depois eu levanto
e ando

talvez quatro goles de ar
um momento
depois eu ando

vai indo

ÁRIAS PÚBLICAS

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [10/09/2012]

O grupo de teatro O Dromedário Loquaz possui uma trajetória de mais de trinta anos e é liderado pela atriz e diretora Sulanger Bavaresco. Foi criado pelo ator Isnard Azevedo e, ao lado do grupo Teatro Armação, é uma das referências históricas obrigatórias para se pensar o atual momento do teatro feito em Santa Catarina. Da trupe, assistimos, nos últimos dez anos, às montagens Quinnipack – Mundos de Vidro (2002) e Jardim das Delícias (2008), ambas dirigidas por Bavaresco. A estética inicial do grupo, a de buscar espaços não convencionais para a cena, em ambos os casos, foram mantidas pela diretora.
Isnard Azevedo, quando criou o grupo, tinha por objetivo montar a peça Os Fuzis da Senhora Carrar, algo que não aconteceu. No entanto, não abandonaram Bertold Brecht, porque a primeira peça que executaram, em 1981, foi A Importância de Estar de Acordo, do dramaturgo alemão. Tanto o grupo Teatro Armação quanto O Dromedário Loquaz nasceram sob a égide de um teatro político e social; influenciados pela estética do Teatro de Arena e pela necessidade que a época exigia. Os grupos ainda sobrevivem e, vez por outra, aparecem com novo trabalho.
Quem esteve na última segunda-feira, pelo final da tarde, nas esquinas das ruas Felipe Schmidt e Trajano pôde acompanhar mais uma intervenção do grupo O Dromedário Loquaz. Mantendo firme as preocupações de seu fundador, a diretora Sulanger Bavaresco, em que pese todos os contratempos técnicos de sonorização, presenteou a cidade com o espetáculo Árias Públicas, um híbrido que conjuga ópera, performance, arquitetura e dança. O resultado dessa mistura foi surpreendente e provocou forte impacto na plateia.
Com Árias Públicas, Bavaresco colocou Lucio Dalla, Puccini, Verdi, Mozart e Bizet ao aprecio do populacho. E o povo, tão heterogêneo quanto o espetáculo, aplaudiu, gostou, chorou e silenciou para ouvir as vozes de Ricardo de Castro, Claudia Todorov, Javier Venegas, Claudia Ondrusek, Masami Ganev, Kalinka Damiani, Carla Domingues, Alicia Cupani, Rute Gebler e Douglas Hahn.
Um piano, conduzido por Eugênio Menegaz, um grupo seleto de cantores-atores e a dança cigana invadiram o espectador desavisado. Se o objetivo da diretora Sulanger Bavaresco foi o de presentear a cidade, os amigos e a arte, tal intento foi atingido em sua plenitude. E se “todo artista deve ir aonde o povo está”, deveríamos pensar em expandir ações como essa pelo centro da cidade e acabar de vez com os preconceitos, geralmente vindos das elites, de que o erudito e o popular estão distantes e de que o sabor e saber da arte lhes pertencem.  

sábado, 8 de setembro de 2012

VIVIANE MOSE


quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?

o tempo andou riscando meu rosto

com uma navalha fina


sem raiva nem rancor

o tempo riscou meu rosto

com calma


(eu parei de lutar contra o tempo

ando exercendo instantes

acho que ganhei presença) 


acho que a vida anda passando a mão em mim.

a vida anda passando a mão em mim.

acho que a vida anda passando.

a vida anda passando.

acho que a vida anda.

a vida anda em mim.

acho que há vida em mim.

a vida em mim anda passando.

acho que a vida anda passando a mão em mim


e por falar em sexo quem anda me comendo

é o tempo

na verdade faz tempo mas eu escondia

porque ele me pegava à força e por trás


um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo

se você tem que me comer

que seja com o meu consentimento

e me olhando nos olhos


acho que ganhei o tempo

de lá pra cá ele tem sido bom comigo

dizem que ando até remoçando

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Canto de Ossanha com Fabiana Coza

AS CARPIDEIRAS CÊNICAS


POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [03/09/2012]

A mente e o corpo são mesmo uns punhados de mistérios. Parece que sempre serão. Quase nunca saberemos ao certo o motivo desta ou daquela reação. Dia destes, por exemplo, estávamos numa das piores peças de teatro já vista nos palcos brasileiros. Tudo acontecia daquele jeito enfadonho quando, mais que de repente, uma frase dita por um dos atores, ao que parece, fez com que uma senhora, que estava ao nosso lado, se esvaísse em lágrimas.
Que gatilho, imagem, lembrança, enfim, parte do corpo aquela frase teria atingido para que aquela mulher vivesse ou revivesse um fato, uma ideia, um pingo de memória que levasse o seu corpo a reagir da forma mais inesperada possível, já que o espetáculo se posiciona numa zona inclassificável? As perguntas nos perseguem. O que teria acontecido naquele pequeno e minúsculo pedaço de tempo? Como o encontro sonoro provindo de um ator que mal sabe as entonações das palavras se aconchegou nos ouvidos daquela estranha?
A coisa foi tão intensa que a emoção, o choro e inquietude da desconhecida desviaram a atenção e passaram a dominar a cena. A plateia, quase toda em absoluto constrangimento, já havia percebido que algo de estranho estava acontecendo. Aliás, já tinha notado que alguma coisa de esquisito se desenrolava no palco. No entanto, ficou mais intrigada ainda quando o teatro foi tomado por soluços desesperados.
Já no centro das atenções ela se recupera. Os atores, que continuaram servindo ao público um prato insosso e estranho, engoliam as palavras na velocidade da luz sem se preocupar com os espectadores. O ramerrão se estabelece novamente. O trabalho se prolonga ao ponto de tirar a paciência de Jó da rota. Os barulhos das cadeiras, sinal inequívoco de insatisfação, começam a se intensificar. Um e outro suspiro de impaciência. Público e atores já não se comunicam.
Antes do término, o choro recomeça. Lágrimas que destoam completamente da energia que circula pelo ambiente, ou melhor, da falta de energia e sintonia entre o que acontece na cena e com o público. Quando, finalmente, a coisa - porque aquilo não era mesmo uma peça teatral - finda-se, o mistério se desfaz. A tal da senhora, aquela que tinha mais águas nos olhos que dinheiro nas contas do Cachoeira, era uma carpideira cênica profissional.
Tal categoria é formada por amigos, tios, primos, mães, pais, irmãos e namorados. Emocionam-se com cenas estapafúrdias. Costumam, junto a uma plateia domesticada pela televisão, aplaudir tudo de pé e chorar diante da pieguice. As carpideiras cênicas são a parte teatral do não-teatro.

domingo, 2 de setembro de 2012

Poetas em Itajaí

                                                   Encontro de Poesia em Itajaí
Na foto: Floriano, Rubens da Cunha, Péricles Prade,Rogério Lenzi, Rodrigo de Haro, Celso de Alencar,Cristiano Moreira, Ryana Gabech e Marco Vasques. Grande noite.