...

terça-feira, 14 de maio de 2013

Mar Power, 1983

 
No "Romance grego ainda sem nome", do escritor Cavaal Saféris, que sabe um capítulo de outro capítulo? Nada, mas Cavaal, que já leu todos os capítulos, liga-os e conclue que, se neles há páginas melancólicas e grotescas, há outras de candura e fecundadas pelo acaso. 
Enquanto remexe as brasas com o caco da ânfora, e arruma entre as pedras achas de sicômoro seco, Cavaal tem sérias dúvidas se, depois que for enterrado na tumba escura, encontrará algum dia a criatura da sua solidão.
Logo no primeiro capítulo de "Romance grego ainda sem nome", ele escreve: “Li em algum lugar que apenas o mundo espiritual existe. O que chamamos de mundo físico é o mal do mundo espiritual. O fato de que existe apenas o mundo espiritual priva-nos da esperança e nos propicia a certeza. E mais: é uma lei do espírito só encontrar o que não procurou”. 
Se não esquecemos, não nos tornamos humanos.
A esse Cavaal Saféris não é a chuva, mas o rumor da chuva que o lava. A língua dele, ao se comover com a extinção dos ossos e das árvores, abana-se com o vazio da boca.
Para entoar o Cântico dos Cânticos, Cavaal Saféris faz ablução com areia debaixo do baobá africano, depois anota no capítulo primeiro do seu “Romance grego ainda sem nome”: “Olho o mar através das fissuras da parede e vejo as barcas e os peixes, os ventos e o sal nos velames, as crianças à sombra das árvores no verão, e não posso deixar de me comover com a única deusa que respira nessa praia – deusa ou música – música que detém as palavras e as impele, até que elas acordem o cristal de rocha”.
No último capítulo de seu livro "Romance grego ainda sem nome", Cavaal escreve: “O que quero dizer é que procuro um lugar no qual eu esteja deitado, sem risco de inundações e, se for possível, à sombra das árvores no verão. Não consigo desviar meu pensamento do fato de que toda a história do mundo não é mais que um livro de imagens refletindo o mais violento e mais cego dos desejos humanos: o desejo de esquecer”. 
 
Fernando José Karl 

segunda-feira, 11 de março de 2013

vento morno da meia hora
soprando no meu almoço
enquanto ouço de longe
marcos sacramento e zé paulo becker
tocando um samba antigo e moderno

apesar de ter olhos de led
meu coração é valvulado
esquenta

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


SEQUÍSSIMA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [04/02/2013]

Após a divulgação da Lei Sequíssima, Dona Lindomar tem tomado para si a tarefa de vigiar os sobrinhos, netos e bisnetos. Ela mesma batizou o “aperto” feito na Lei Seca com o superlativo sequíssimo. A recomendação dela é simples e beneficia todos os bares do Córrego Grande. Ela propôs aos parentes que fossem as suas casas, deixassem os carros e escolhessem qualquer bar do bairro em que moram para tomar aquela cervejinha tranquilamente. Depois é só voltar, tomar um café, comer, dormir e pegar o volante são e sem bafo de álcool.
Sim, sem bafo. Porque daqui a pouco um bombom de licor poderá colocar qualquer cidadão numa situação terrível: multa, apreensão do carro, cadeia, fiança. É claro que Dona Lindomar condena peremptoriamente os malucos que bebem feito porcos e saem por aí colocando em risco não só a sua vida, mas a vida dos outros. No entanto, não sejamos hipócritas. Quem nunca bebeu aquele vinho, aquela cerveja ou caipirinha e depois foi, lentamente, para casa.
O que Dona Lindomar contesta na Lei Sequíssima não é propriamente a lei, mas a vulnerabilidade em que ela coloca o condutor. Vejamos, explica a velhinha à sua prole. Sem ar professoral, ela argumenta que Aristóteles, no livro A Ética a Nicômaco, já trata do assunto com alguma prudência. Ao criar o conceito de mediania, o filósofo grego esclarece que cada pessoa possui um meio diferenciado. Vamos à prática, diz, e aponta para o neto Bernardino e depois para sobrinho Roneslildo.
Ambos são homens, fortes e bonitos; no entanto, se Bernardino tomar uma taça de vinho ficará completamente embriagado. Já o Roneslildo começa a tontear somente após uma garrafa. Isto é, uma taça de vinho pode matar mais que uma garrafa, argumenta a pensadora. E nisso cria argumento para os que defendem o “aperto” da dita lei, a Sequíssima. 
            Não nos precipitemos, segue ela. O problema não é exatamente este. A questão é que uma lei, por suposição, tem que ser, no mínimo, isonômica e justa. Embora a Lei Seca, em seu princípio, pareça ter essas características, agora, com a alteração, está bastante vulnerável, pois coloca nas mãos da polícia, via de regra intolerante e despreparada, a decisão de prender e punir, no mesmo grau de severidade bêbados incapazes de dirigir e o cidadão que tomou uma taça de vinho no almoço e foi levar a mulher ao trabalho. Em Bundópolis, as leis são criadas sem meios fiscalizadores e o próprio governante vive as descumprindo. Para evitar a desobediência generalizada da família, colocou, no maior quarto da casa, uma placa com a inscrição: repouso dos bêbados. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013


MÁRIO FUGITIVO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [21/01/2013]

Sempre carregou na memória a frase que encerra o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Usava a frase a cada relacionamento que iniciava. Já se vê que nosso personagem é afeito à vida moderna. Vai da frase sofisticada, retirada das leituras colegiais, ao mais reles clichê televisivo. Dia desses, ao ser interpelado por uma ex-namorada se ainda continuava com a Luiza, foi logo dizendo que a Luizinha era coisa do passado e que figura repetida não completa albinho.
Assim mesmo leitores, bem à moda do nosso tempo, ou seja, tudo é descartável e fugaz. E quando Luiza indagou se com Amária o relacionamento tinha ultrapassado os três meses, foi logo dizendo que a fila anda. Que o mundo está muito veloz. Que faz pouco tempo era Natal e já estamos terminando janeiro. Que quem dorme no ponto perde o ônibus. Que perdão não se pede ao prazer e coisa e tal. Despediu-se de Luiza, sem afeto algum, e torceu para não dar de cara com mais uma de suas conquistas.
Mais instável que trepada de coelho, Mário Fugitivo seguiu pensando se a frase do romance era realmente do personagem ou do próprio Machado de Assis. Parece ter lido em algum lugar que o autor da obra citada não teria tido filhos também; no entanto, como é de sua característica, resolveu não afirmar nem a si mesmo, já que a certeza é coisa de homens de ações contínuas e ideias fixas. Fugitivo, o habitante mais despreocupado de Bundópolis, jamais se deteria em tais elucubrações.   
Como coelho, de precocidade em precocidade, Fugitivo não cria raízes e detesta tudo que é gênero de arte. Dia desses disse à Diana, sua nova conquista, que não gostava de arte e nem de artista porque vê muita empáfia nesse mundo, porque não entende as obras que vê, porque não acha necessário nada disso para a sua vida e, sobretudo, porque hoje qualquer coisa é arte. E se tudo é arte, o melhor é se despreocupar dos conceitos e olhar o mundo, as pessoas, a vida, a morte e cada ato como um processo artístico. Foi até aí e não deu mais conta do raciocínio. 
Ele até já foi afeito à literatura, mas quando descobriu que tinha talento incomum para o namoro, tornou o ato da conquista sua única arte. E para ele a coisa era simples, sem complicação: não importa a idade, o tamanho, o peso, a cor dos olhos, o tamanho dos cabelos ou a classe social. O que não admite é ver mulher alguma desabrigada de abraços e carinhos. Dizem até que a frase “copo de água e beijo na boca não se nega a ninguém”, atribuída a um alto intelectual de Bundópolis, é de sua autoria. 

INTERROGATÓRIO
Quem o senhor pensa que é para postar poesia no facebook?
Eu não postei nada
Como assim nada? O senhor tem um perfil la dez anos e não posta nada?
Às vezes?
Como às vezes.
Teve um aniversário há oito anos
Oito anos?
Mas o senhor escreveu uns livros de poesia no século passado  ? Encontramos no seu perfil
Foi um equívoco?
Se  foi um equívoco, porque colocou na sua time-line?
Um momento de fraqueza. Um arroubo nostálgico
(Escrivão,  faça uma busca rápida pela palavra nostalgia)
O senhor um velho,  não tem vergonha de contrariar o credo do facebook,
os mandamentos de postar todas as coisas importantes e sua vida, de compartilhar, curtir
com  seus face-semelhantes  suas pequenas conquistas diárias?(dando um  tapa na cabeça)
Se a gente te pegar novamente postando poesia a gente te mata.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012


Poética 1 - Claudio Willer

então é isso
quando achamos que vivemos estranhas experiências
a vida como um filme passando
ou faíscas saltando de um núcleo
não propriamente a experiência amorosa
porém aquilo que a precede
e que é ar
concretude carregada de tudo:
a cidade refletindo para sua hora noturna e todos indo para casa ou então
marcando encontros improváveis e absurdos, burburinho da multidão circulando
pelo centro e pelos bairros enquanto as lojas fecham mas ainda estão iluminadas,
os loucos discursando pelas esquinas, a umidade da chuva que ainda não passou,
até mesmo a lembrança da noite anterior no quarto revolvendo-nos em carícias e
expondo as sucessivas camadas do que tem a ver – onde a proximidade dos
corpos confunde tudo, palavra e beijo, gesto e carícia
TUDO GRAVADO NO AR
e não o fazemos por vontade própria
mas por atavismo

DE VIRGINDADES E ESTUPROS

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [12/11/2012]


Quando alguém se preocupa em demasia com a vida sexual alheia é batata! Leitor, não tenha dúvida. Algo de errado sombreia a atividade hormonal daquele que aponta os dez dedos para condenar ou afirmar esta ou aquela atitude sexual do vizinho. Convenhamos que se fala mesmo é  da vizinha, pois a vida sexual de um homem heterossexual nunca está em questão. Sua privacidade é ouro. 
O que fica estranho é querer comentar o que não se pode afirmar. É como uma categoria de intelectual muito vigente em Bundópolis, que costuma falar inflamada de livros que nunca leu, de autores que sequer sabe escrever o nome.  Porque existem coisas que não mudam. Homem virgem falando de sexo e intelectual analfabeto são coisas comuns até em departamento de universidade. E abundam em Bundópolis.
Enquanto isso: crianças morrem de fome todos os dias; mulheres são espancadas a cada minuto e outras tantas assassinadas; a educação não é prioridade; nos corredores de hospitais públicos morrem crianças, jovens, adultos e velhinhos; está mais fácil ganhar na loteria que comprar a casa própria; a polícia, como bem afirma Foucault, está a serviço do judiciário, não da população; a corrupção está generalizada; os quatrocentos anos de escravatura declarada se foram, mas aqui estamos em uma escravidão cruelmente velada; enfim, estupros e mais estupros são praticados todos os dias contra toda a espécie de direito humano.
E a mídia, a chamada grande mídia, passa todos os anos por estes assuntos, sempre de maneira superficial e aterradoramente hipócrita. Então, uma moça, que é dona de seu corpo e deve fazer dele o que bem quiser e entender, resolve vender a virgindade, antes que alguém o faça por uma ninharia, e vira assunto nacional, aliás, internacional. Como se vender a virgindade fosse coisa nova. Nem faz muito tempo, quem vendia o hímen da moçada eram os próprios pais. Alguns, inclusive, resolviam o caso em casa mesmo. Outros doavam em troca de favores. Brancas, escravas, indígenas, enfim, essa gente sem vontade, passou um cortado.  
É esta grande mídia hipócrita, que vive vendendo a mulher como produto em suas propagandas, que faz do caso desta moça uma questão de Estado. A cada dez propagandas, sejam elas de cerveja, creme dental ou carro, nove tem uma “gostosa” praticamente nua. As mulheres não precisam mais dos homens para ter prazer; têm o direito irrevogável de seu corpo e, agora, finalmente, podem, elas próprias, vender aquilo que sempre lhes foi roubado, doado, vendido. E a Igreja, colecionadora de estupros, deveria, também, desvirginar seus moralismos.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ninguém meu amor 
ninguém como nós conhece o sol 
Podem utilizá-lo nos espelhos 
apagar com ele 
os barcos de papel dos nossos lagos 
podem obrigá-lo a parar 
à entrada das casas mais baixas 
podem ainda fazer 
com que a noite gravite 
hoje do mesmo lado 
Mas ninguém meu amor 
ninguém como nós conhece o sol 
Até que o sol degole 
o horizonte em que um a um 
nos deitam 
vendando-nos os olhos.


Sebastião Alba

domingo, 28 de outubro de 2012



Milton faz 70 anos. Por causa de Milton Nascimento eu sou uma outra pessoa. Quando eu tinha 16 anos eu descobri sua música. Depois disso. Bem depois disso, só sobrou o que sou. Fiz um show com ele em Itajaí. Em Itajaí, quando eu ouvia Milton, meus irmãos não entendiam. Coisa estranha. Aquilo ainda hoje está perdido dentro de mim. Se eu fechar os olhos até ilumina. canção do sal é uma dessas músicas que nos fazem mais parecidos com Deus. Se Deus existisse, teria a voz de Milton Nascimento.

sábado, 13 de outubro de 2012

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

De Na Vertigem do Dia (1975-1980)
Ferreira Gullar

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Bia Góes pra quem não conhece


VALENTINO, O INCLEMENTE

POR MARCO VASQUES

Publicada no jornal Notícias do Dia [01/10/2012]

Valentino é negro, carioca, torce para o Flamengo e tem no olhar aquele jeito malandro de sambista que sabe quando o pandeiro está para batucada e, sobretudo, quando o berimbau desafina. É preciso dizer, antes de tudo, que Valentino não é chegado em ostra, ou seja, ele não come mesmo o crustáceo que abunda pelas bandas do Ribeirão da Ilha e Santo Antônio de Lisboa. Mais sortudo que urubu em dia de festa no matadouro, costuma se dar bem com as mulheres. É alto, inteligente e bonito. Não poderia dar em outra coisa. É colocar a camisa do Flamengo, uma roupinha mais ou menos e sentar sob o sol de Santo Antônio de Lisboa, que é batata. Sempre aparece uma marisqueira com desejos suspeitos.
Suspeitíssimo foi o desinteresse dele por Maria dos Prazeres. Ele fotografava o horizonte quando ela apareceu, verticalíssima. Chegou exuberante, perfumada e pediu ao Valentino uma opinião sobre suas medidas: a cor do cabelo, enfim, queria era mostrar o quanto o desconcertado homem, que já olhava para os amigos com aquela cara de parafuso sem furadeira, estava perdendo. Resumindo, ela estava mostrando o material e disparou artilharia pesada sobre os olhos do negão. Meio sem jeito e sem saber o que dizer, voltou para mesa. Ao ser indagado sobre o motivo da moleza e do desinteresse por tanta fartura, ficou em silêncio.
Em seu íntimo, sabia que o berimbau desafinara. Quando instrumento de apenas duas notas desanda, a coisa sobe ou desce. O negócio agora era suportar as piadas dos amigos, que não perdoaram sua inclemência com a moça. Não satisfeita com a recusa (mulher quando coloca algo na cabeça, não tem jeito), comeu uma dúzia de ostras ao bafo, empinou os já agudos seios, balançou a cabeleira longa e negra, pegou uma garrafa de água, meio que avisando que sua especialidade era apagar incêndio, fogo, fogueira e toda sorte de centelha masculina e se dirigiu à mesa do inclemente Valentino.
Na primeira palavra já colocou todos no riso. Constantino, pode abrir a garrafa de água para mim? Olha a minha mão, está toda vermelha de tanto fazer força! Ele, vendo os amigos na maior gozação, tratou de abrir logo a água e mergulhar o olhar no decote da morena. Mais algumas palavras e, de súbito, a deusa dos prazeres se esvai com o vento Sul. Valentino (agora Constantino, o inclemente) largou logo a frase: meu santo não erra, mas me coloca em cada situação. A moça, ignorada mais uma vez, tratou logo de tirar o time de campo para jogar, titularíssima, em outra área. Com Valentino a bola bateu na trave; com o novo ataque, agarrou bola, trave e... chuva na rede.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

TUBARÕES SOBRE CABEÇAS

no aquário de shinagawa
tubarões nadavam sobre minha cabeça

aproveitava o pouco de um dia
quando tinha um dia para respirar um pouco

e o que fazia além de respirar?

somente um morto teria melhores histórias
caminhando por tóquio em shinagawa

onde scorts fingiam gueijas
 homens de negócios douravam rolex

onde tailandesas eram estrangeiras dentro do oriente
adoravam o desenho de meus olhos

me serviram pratos desenhados do sião
seus corpos minguados

a tarde em shinagawa minguava de ausências
 os tubarões passeavam sobre minha cabeça



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Henri Berssenbrugge, 1925



O gramofone, o colar de pérolas
e o frasco com água benta


Cada um de nós terá tido dessas noites insones, quando se escuta apenas a chuva.
         Penso durante a chuva e na minha decisão de amanhã ir ver, vinte anos depois, se ela ainda vive no sobrado rente ao mar.
         Tudo o que eu tenho na vida cabe numa caixa de sabonete, por isso preciso saber se ela ainda pisa as tábuas da varanda do sobrado onde costumávamos, deitados em redes de embira nova, passar os verões de nossa mocidade.   
Aqueles dias agora parecem frios, como se tivessem sido cavados na pedra. Acordado, mas de pálpebras fechadas, escuto passos sobre as carcomidas tábuas da varanda que estalam. Na verdade, não há tábuas da varanda, porque eu imagino o ruído, e o ruído desenha as tábuas da varanda do sobrado, desenha igualmente cada recanto do sobrado de velha madeira, circundado por ventos apressados.
         Eu não sou nada ou sou um jarro vazio sem aquela que, talvez, ainda viva no sobrado rente ao mar. Eu, sem ela, sou apenas uma dor que desemboca nos ossos. Ela que, há vinte anos, possuía voz tão de gaze como essas mulheres que, no bosque anoitecido, anunciam que os deuses devoram a cabeça dos que se recusam a sonhar. Suas palavras de algodão se dissolviam nos meus tímpanos à maneira de fios de rebuçado na concha da língua. Ela era muito pálida, com certo quebranto nos olhos machucados, um ar de romance e de languidez em toda sua pessoa, e a sua maior beleza estava nos cabelos negros, muito pesados, que deixava cair soltos sobre as costas num desalinho de nudez.   
         Dizia-se que tinha literatura e fazia frases.
         Não suporto mais o excesso de solidão e de silêncio que vincam os meus dias de amargura, por esse motivo é que amanhã irei ver se, vinte anos depois, ela ainda respira no sobrado rente ao mar.
         Um hálito perfumado de capinzal me invade quando chego perto das janelas escancaradas do sobrado enorme, com jardim, com piscina, com a escultura de mármore na entrada.
         A mulher que está no banco de pedra ante o mar, com os cotovelos pousados na mesa de madeira, essa mulher, cansada pela salsugem marinha, morreu ontem, mas como se morreu ainda pode estar com os cotovelos na mesa de madeira? É que estou imaginando que a mulher que morreu ontem está ali com os cotovelos na mesa de madeira e espia o mar, flagra a canoa levando embora a sua respiração.
         Se a canoa retornasse, mas a canoa não retornou.
         Recebo dos homens da agência funerária uma espécie de caixa onde enfiaram as cinzas que foram dela. Remexo as cinzas com o garfo, mas nas cinzas nada de nada: nenhum sopro de voz, nenhum osso, nenhum resquício de memória, nenhuma presença contínua.
          Vou até o mar deitar as cinzas e respiro entre as árvores, porque é só o que posso fazer agora. Ainda não sei porque permiti que queimassem, além de seu corpo, também o gramofone, o colar de pérolas e o frasco com água benta.



Fernando José Karl

segunda-feira, 24 de setembro de 2012


não lembra das coisas
do tiro no ombro
o dia de reis

não lembra da compra do uno
do primeiro filho
da morte do único filho

de tudo que passa no olho
as vezes uma palavra

a única coisa que se lembra
é que te amava



Antonio Carlos Floriano
DE TEATRO EM TEATRO

POR MARCO VASQUES
Publicado no jornal Notícias do Dia [24/09/2012]

A coisa é simples e mais ou menos assim: chega em casa, toma banho, veste a primeira camisa que estiver à frente, coloca a primeira calça limpa que achar. Procura meias e sapados, também sem muita frescura na escolha. Depois se olha no espelho para ver se o corpo e a cabeça estão intactos diante do exercício de 15 minutos. A rotina é semanal. Tem semanas que chega a ir ao teatro mais vezes que os próprios dias da semana. Em resumo, para ele a atividade de frequentar o teatro é vital, necessária e tão natural, que não consegue entender o comportamento de algumas pessoas quando vão a um e outro espetáculo.
Pelo menos duas vezes a cada sete dias se dirige ao Teatro Armação, ao Teatro da Ubro, ao Teatro do SESC-Prainha, ao Teatro da Igrejinha da UFSC, ao Teatro Álvaro de Carvalho, à Casa das Máquinas, à sala do Centro de Artes da UDESC, às ruas da cidade, ao Teatro Pedro Ivo, à Célula Cultural, ao centro de eventos da UFSC ou ao Teatro Ademir Rosa; enfim, onde a cena acontece, costuma se fazer presente. Não tem preconceito algum. Vai da comédia ao drama com a expectativa do gozo estético ou a perspectiva de encontrar alguma poesia que dialogue com a carne e a mente.
No entanto, o teatro, para ele, começa muito antes do teatro, sobretudo nos espaços ditos mais nobres, menos alternativos. Onde, normalmente, as “grandes estrelas” se apresentam. Nestes espetáculos, em que se paga a peso de ouro ou se disputa uma cortesia com o fervor de cães famintos à frente de um bife acebolado, a cena externa, em muitos casos, supera o que se vê no tablado, pois existe um tipo de gente que não vai ao teatro para assistir aos outros, mas para ser assistida.
Então a coisa é assim também: muito laquê no cabelo – daqueles que nem o vento sul consegue abalar -, muita base, batom, brinco de ouro, óculos Dior, bolsa Louis Vuitton e Prada. Ou seja, um mundo de gente que acha bonito se pavonear sem se dar conta do limite entre a beleza e o senso do ridículo. Nestas noites, os teatros são tomados pelo estilo Barbie – com silicone e botox - maquiada por criança. Soma-se aí muita empáfia e burrice; temos o tipo de personagem que brilha mais que qualquer peça global. Teatro não é evento de madame, que compra roupa nova e tudo achando que está indo pro casamento da sobrinha. Fiquei tão puto. Aproveitei o anonimato, claro, duas madames daquelas jamais conheceriam um crítico de teatro. Como um crítico de teatro se nem temos teatro em Florianópolis? Quanto mais dois críticos? Fui pra cima: a senhora conhece o nome de uma ator da cidade? De um diretor? Qual o último espetáculo feito aqui que as senhoras assistiram? O silêncio permaneceu. Estava tudo dito.
Dia deste ele aproveitou o anonimato e se imiscui na conversa de duas madames que difamavam o teatro local. Como? Teatro em Florianópolis? Existe? Só porcaria! Cruzes! Nesse momento ele foi para cima delas – não o julguem um tarado, por favor: qual o último espetáculo feito aqui a que assistiram? Conhecem o nome de algum ator? De um diretor? Conhecem... O silêncio permaneceu. Estava tudo, nada, dito.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

preciso de um momento para descansar
depois eu levanto
e ando

talvez quatro goles de ar
um momento
depois eu ando

vai indo

ÁRIAS PÚBLICAS

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [10/09/2012]

O grupo de teatro O Dromedário Loquaz possui uma trajetória de mais de trinta anos e é liderado pela atriz e diretora Sulanger Bavaresco. Foi criado pelo ator Isnard Azevedo e, ao lado do grupo Teatro Armação, é uma das referências históricas obrigatórias para se pensar o atual momento do teatro feito em Santa Catarina. Da trupe, assistimos, nos últimos dez anos, às montagens Quinnipack – Mundos de Vidro (2002) e Jardim das Delícias (2008), ambas dirigidas por Bavaresco. A estética inicial do grupo, a de buscar espaços não convencionais para a cena, em ambos os casos, foram mantidas pela diretora.
Isnard Azevedo, quando criou o grupo, tinha por objetivo montar a peça Os Fuzis da Senhora Carrar, algo que não aconteceu. No entanto, não abandonaram Bertold Brecht, porque a primeira peça que executaram, em 1981, foi A Importância de Estar de Acordo, do dramaturgo alemão. Tanto o grupo Teatro Armação quanto O Dromedário Loquaz nasceram sob a égide de um teatro político e social; influenciados pela estética do Teatro de Arena e pela necessidade que a época exigia. Os grupos ainda sobrevivem e, vez por outra, aparecem com novo trabalho.
Quem esteve na última segunda-feira, pelo final da tarde, nas esquinas das ruas Felipe Schmidt e Trajano pôde acompanhar mais uma intervenção do grupo O Dromedário Loquaz. Mantendo firme as preocupações de seu fundador, a diretora Sulanger Bavaresco, em que pese todos os contratempos técnicos de sonorização, presenteou a cidade com o espetáculo Árias Públicas, um híbrido que conjuga ópera, performance, arquitetura e dança. O resultado dessa mistura foi surpreendente e provocou forte impacto na plateia.
Com Árias Públicas, Bavaresco colocou Lucio Dalla, Puccini, Verdi, Mozart e Bizet ao aprecio do populacho. E o povo, tão heterogêneo quanto o espetáculo, aplaudiu, gostou, chorou e silenciou para ouvir as vozes de Ricardo de Castro, Claudia Todorov, Javier Venegas, Claudia Ondrusek, Masami Ganev, Kalinka Damiani, Carla Domingues, Alicia Cupani, Rute Gebler e Douglas Hahn.
Um piano, conduzido por Eugênio Menegaz, um grupo seleto de cantores-atores e a dança cigana invadiram o espectador desavisado. Se o objetivo da diretora Sulanger Bavaresco foi o de presentear a cidade, os amigos e a arte, tal intento foi atingido em sua plenitude. E se “todo artista deve ir aonde o povo está”, deveríamos pensar em expandir ações como essa pelo centro da cidade e acabar de vez com os preconceitos, geralmente vindos das elites, de que o erudito e o popular estão distantes e de que o sabor e saber da arte lhes pertencem.