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sexta-feira, 29 de julho de 2011


Escutar Maria Callas

(1923-1977)

cantar “La Mamma Morta”,

no filme Philadelphia

http://www.youtube.com/watch?v=LtCljwaCXfc


Escutar o mantra angelical

de Maria Callas

(1923-1977)

http://www.youtube.com/watch?v=MBW5a77wINQ

E. O. Hoppé, 1926


Quando eu tinha dez anos, ficava a tarde inteira no cubículo escuro da sapataria do senhor Antonio, que batia sola ao lado de sua mulher cega, nós três envoltos no cheiro de cabedal e miséria, que é o único odor de santidade que conheço.

A dona Dorotéia, sempre de luto, ora porque havia morrido o canário, ora porque o gato foi trucidado pelo cão, ora porque seu marido se atirou sob as rodas do trem, ora porque anoitecesse no mar, sempre de luto, ela transportava com o máximo cuidado, dentro de uma caixa de vidro, uma figura tosca de São Francisco de Assis.

O santo Francisco ficava em sua redoma na sala de dona Dorotéia, sem beber água nem comer frutas. O que aliviava um pouco seu tédio era a luz que emanava do pavio de azeite.

Cresci entre o aviário do ex-lutador de box Franz – que consertava com talas de caniço as asas dos papagaios –, e o bar do Bolacha, muquifo muito suspeito, que vendia maços de cigarro sem filtro, ovos azulados imersos num vidro embaciado e garrafas de um líquido estranhamente chamado de “Cachaça de ver calcinha”.

Minha tia Teresa da Mauritânia lia búzios na praia dos Paulas, embuçada de negro como a viúva de um marujo, embora nunca tivesse casado e preferisse, no fundo, deitar com mulheres. O navio do tal marujo fictício nunca deu à costa, mas um dia aconteceu o que ninguém esperava: tia Teresa da Mauritânia grudou barba postiça em sua cara, colocou roupa e quepe de marujo, sentou num bar, sorveu cascos e cascos de cerveja Eisenbahn, pediu um lápis e rabiscou no papel em branco um navio – o convés era vasto, e os mastros altíssimos –, pegou o papel, foi até o poço do quintal, ergueu a tampa, atirou-se lá dentro a pensar, talvez, que as águas do poço eram águas do mar.

Quando o pólen da acácia chovia nas minhas pálpebras de menino, eu me excitava e, para me acalmar, fingia ser um unicórnio e me trancava no banheiro de casa a folhear revista de mulher nua: eu ainda não sabia que o chifre daquele meu unicórnio poderia, no futuro, fecundar o ventre de uma fêmea.

O barbeiro Astolfo cortava meus cabelos ao som da música de Brahms. Um dia cansou de tudo e quebrou a asa da xícara, atirou os gatinhos dentro da privada e puxou a descarga, verteu água fervente na cabeça de sua mulher que dormia. Um dia, porque estava triste, cortou suas orelhas, seu nariz, seu pênis e comeu tudo com folhas de alface. Foi considerado louco e internado para sempre na Colônia Santana. Eu ia visitá-lo e punha na vitrola, para que ele se alegrasse, um vinil de Brahms.

A esposa do proprietário da Farmácia Alves era uma grega sumptuosa de nádegas de ânfora e pupilas que ardiam no escuro. O Alves nunca soube, mas sua mulher foi minha primeira namorada. Durante horas ficávamos dentro da igreja e, quando não havia ninguém, entrávamos no confessionário e meus dedos inocentes molhavam a pia de água nada benta que ela trazia entre as coxas e sob a saia.

Hoje, adulto, retorno à Vila Raso da Catarina e não encontro a Vila Raso da Catarina. As acácias ainda continuam por aqui, e me pergunto onde poderei encontrar o senhor Antonio e sua mulher cega, que sentava num banquinho baixo na sua sapataria?

Onde a dona Dorotéia, sempre de luto?

O aviário do ex-lutador de box Franz, me disseram, não existe mais. Franz morreu de solidão, dentro de seu quarto escuro. Os papagaios que ele curou foram empalhados e vendidos como souvenirs na feira dominical. Tia Teresa da Mauritânia foi vista, segundo as más línguas, voando numa vassoura na rua da Caixa d'água. O barbeiro Astolfo engasgou com um vinil de Brahms e levou três dias e três noites pra que enfim o ar cessasse em suas narinas.

Quanto à grega sumptuosa, logo após a morte de seu marido Alves, levou as nádegas de ânfora e as pupilas que ardiam no escuro ao Convento das Carmelitas, onde se entregou, com toda devoção, à leitura de encíclicas e ao ofício de ser noiva de Jesus.

São Francisco de Assis, este continua na sala de dona Dorotéia, que foi empalhada pelos filhos e pode ser vista, ao lado da figura tosca do santo na redoma, ambos iluminados pelo pavio de azeite. Ambos, igualmente, sem beber água nem comer frutas.

Vou ao mictório público e é com satisfação que abro o zíper e verifico que o unicórnio continua ali, sedento pelas ancas de Eulália, pelas coxas de Gabriela, pelo ventre de Cecília.

Algumas casas da Vila Raso da Catarina viraram ruínas, mas o mar resiste: nem o vento destroça suas ondas.


Fernando José Karl

Les Krims, sem data



Na brancura de uma folha de papel (que é um território de sedução), planta-se a frase: “O sicômoro está iracundo, assaltado por legiões de carunchos”.

Aqui, do meu sobrado, contemplo uma noite de casas adormecidas, na ribanceira que dá para a restinga onde, entre juncos, há os gritos estagnados de coriáceas iguanas que, como se sabe, costumam devorar os que não sonham e os que pensam demais. Lembro-me do estabelecimento de banho turco, com um lavatório de torneiras barrocas a imitar peixes, torneiras que deixam escapar soluços de água.

Os navios de Le Corbusier: os ímãs de Gauss: as lentes de Espinosa: nada disso sacia minha dúvida. A música, sim, me sacia: música que reverencia aquilo que, em nós, não é nem a sombra de um menino.

Também me recordo que, numa daquelas casas na ribanceira, ainda há o ar nos pulmões da coribante Salomé – a que eu, mesmo vendo, nunca vi – Salomé selvagem, mas tão clara e alba.

Eu olho, durante horas, o estuário deserto de pesqueiros, e penso o que a devastação do corpo, a loucura, podem fazer a um homem como eu. Eu aceito tudo menos ser uma água tão tranquila como o pó das bibliotecas: lapidem esse aquam fontis vivi: a pedra é uma fonte de água viva.

Em meu sobrado, o tanque de lavar com chuva dentro.

Sob a árvore daquele pensamento descanso meu corpo noturno, logo acordo abraçado a uma âncora oxidada, a soprar com força no escuro. O homem se esquece de que é um morto que conversa com os mortos. Entro mais silencioso no casarão onde me aguarda a sombra de Salomé. É um casarão com as portas apodrecidas, reduzido às janelas ou às argolas, com telhado enegrecido por agáricos: resta no casarão a colunata de um átrio e uma cornija partida pelas raízes de uma figueira: os ladrilhos rachados e os ouros velhos dos oromos: nos cantos escuros, cactos, e algumas correntes de ar.

Para refrescar a memória, num dos jardins do casarão o tanque limoso e as carpas: algo soa próximo e longínquo: diante de mim, Salomé clama um diapasão de coéfora, e solta sua cabeleira extensa como véus negros. E, no entanto, sinto-me envolvido por ela, como se estar nesse casarão ao lado dela, tudo isso despertasse em mim obscuros ritos marinhos.

A solidão conosco mesmos não tem fim: ela apenas começou. Quem brinca esconde a morte interior. Quem brinca é criança. Deus é velho e morre. É impressionante que o jardim de Salomé fique tão perto do salão respeitável e misterioso das ideias: devido a sua proximidade com o paraíso, esvoçam no jardim de Salomé as folhas do limoeiro.

Quando abraço a essência, parece que o mundo fica frio e vazio. A alma tem seu mundo que lhe é próprio: nele só entra a essência, que não está nas coisas, nas pessoas, nos pensamentos.

Se eu saciar minha sede de água viva em Deus, me tornarei uma fonte. Devo ser salvo para a solidão em mim. Quem vive sente o passar para o outro lado, que é imortal. Minha alma me conduz ao deserto, ao deserto de minha própria essência. Não pensava que a essência em mim era um deserto seco, quente, poeirento e sem um grão de chuva.

Escuto as palavras de Jesus: “Eu vos dei o poder de pisar em cobras e escorpiões, e sobre toda força do inimigo. Nada vos poderá fazer mal”.

Escuto as palavras de Rumi: “Passado e futuro ocultam Deus de nossa vista: ponha fogo em ambos”.

Escuto as palavras de João Cabral de Melo Neto: “Acordar não é de dentro. Acordar é ter saída”.

Devo abrir, agora, o jardim encantado do deserto. Os deuses invejam a perfeição do ser humano, pois o perfeito não precisa dos deuses. O inferno é quando sei que o sério é ridículo, que todo delicado é bruto, que todo bom é mau, que todo alto é baixo. Deus nasce de uma ambiguidade escura e sobe para uma ambiguidade luminosa. Que o pensador receba seu prazer. Que o sentimental receba seu próprio pensar. Se ainda quisermos vencer a morte, então temos de avivá-la.

A profundeza é mais forte que nós.

Por isso, levo em minha travessia taças de ouro que transbordam a dulcíssima água da vida. Olho para a profundeza, rezo para a minha profundeza, desperto os mortos. Aprendi que o caminho para a verdade só está aberto para os que não guardam em si sequer o resquício de uma intenção.

Quando colocamos um Deus fora de nós, ele nos arranca deste fora, pois o Deus é mais forte do que nós. Meu medo repleto de saber. Cavo profundas covas e atiro nelas oferendas, a fim de que cheguem ao morto. Penso com o coração bondoso no mal: este é o caminho da subida.

Onde, em mim, o casarão de Salomé mora? Onde eu moro no casarão de Salomé que mora em mim? A viagem conduz através da areia quente, vadeando lentamente, sem objetivo visível de esperança. Por isso evito o lugar da minha alma.

Escuto mais uma vez as palavras de Jesus: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba quem crê em mim” – conforme diz a Escritura: “Do seu interior correrão rios de água viva. Se podes? Tudo é possível para quem crê”.

Entrei num matagal de dúvida: sou como a palavra: minha grandeza é onde nunca toquei: hinübergehen (ir para o além): a alma diz: “Espera”.

O tântrico zero âmago: breu do breu: um tango seráfico: a lesma enfia-se na ânfora pra clarear seu visgo: o céu no futuro: um galeão que doura desliza silencioso: a mata pedregosa: que a chuva nos benza: perfumo a cabeça e lavo o rosto: sou pó de mirra e ao pó de mirra voltarei: então por que devo perder noites de sono?: antes que o pó de mirra me alcance, finjo que sou as linhas de fumaça do incenso em fuga por cima dos objetos desta sala: compreendo que o Deus, que procuro no absoluto, não há de ser encontrado no belo, bom, sério, elevado, humano, nem mesmo no divino absoluto.

A sala da biblioteca do casarão, que recebe uma luz coada pelas frestas das venezianas, é peça vasta e escura, separada do saguão central e do pequeno corredor que deságua no quarto de Salomé cega e nua e também as paredes do quarto são cegas.

Onde existe a força criadora do desejo, ali brota do chão a semente que lhe é própria. Ao deserto pertence a dor. Desde que em alguma outra parte é que vivemos e aqui é só uma nossa experiência de sonho. Se minha força criadora retornar para o lugar da alma, verei como a alma vai reverdcer e como o deserto produzirá frutos maravilhosos.

Tem dias, aqui no casarão, que, para espantar o zumbo das moscas, teço na língua algumas frases com balda de cancioneiro. O futuro já existia nas primeiras imagens. Nunca cheguei a aprender grego, no entanto até hoje gosto de lê-lo, sem entender patavina da letra – mas escutando sua música peremptória e profunda.

Devo ser capaz de perseverar além das coisas, pessoas e pensamentos: ser amigo, não ser escravo. O curioso é como a cega Salomé possui convicções inabaláveis sobre certas situações e indivíduos. Fisicamente ela é uma bela sombra. Levanta duas vezes de noite, agoniada e convulsa, para arrancar da garganta o anzol – tão tonta, tão branca – e pensa: “Vou morrer” – enquanto anda pelo quarto, de um lado para o outro porque a luz, os ruídos da aflição de sua garganta alagam o sono do único peixe no aquário: o sono do peixe, sabe-se, é um descuido da água.

Tu és Salomé, um tigre, o sangue do santo está grudado em tuas mãos. Uma pessoa que passa teme Salomé, pois ela quer sua cabeça, sobretudo quando ele é um santo. Salomé não quer a cabeça que pensa. Uma pessoa que pensa não deve ser um santo, senão cai sua cabeça.

Escuto as palavras de Mia Couto: “As pedras não pediram filhos. É por isso que pedras não morrem”.

Eu lavo a escrita em águas encardidas: se tivermos subido perto da altura do bem e do belo, nosso ruim e feio jazem em tormento extremo: o tormento é tão grande, que a pessoa mal pode respirar.

A blusa da cega Salomé pendurada na cadeira parece oscilar ao ritmo de uma respiração misteriosa: as paredes cegas dilatam devagar: o espelho da cômoda surge da sombra e reflete um ângulo de armário, a pia do banheiro, uma faixa do teto, um gato e a sombra do gato.

Devemos deixar as coisas acontecerem psiquicamente: ação na não-ação: wu wei: triste é viver num lugar onde dormir não difere de morrer.

Se dizes que o lugar da alma não existe, então ele não existe: se dizes que ele existe, ele existe.

Pronuncio ao sabor do acaso algumas palavras estranhas: faces talhadas em granito: turinos: marchetadas com polinésias bizarras: zebruras inscritas na voz e o fundo verdacento do maralto.

Não vou a lugar nenhum e, ai de mim, todo dia acabo chegando lá: tristeza é ver a jarra com gencianas no quarto da cega Salomé: sim, o alegre búzio da surdez marulhando no meu ouvido: observo o que diziam os antigos: “A palavra é ato criador: no princípio era a palavra”.

Quando o deserto começa a dar frutos, vai produzir uma vegetação estranha: tu te julgarás louco e, em certo sentido, serás louco: as palavras que oscilam entre a tolice e o sentido supremo são as mais antigas e as mais verdadeiras: a vida não vem das coisas, mas de nós: tudo o que acontece fora já passou.


Fernando José Karl

quarta-feira, 27 de julho de 2011

William Mortensen, 1932



Fritz Henle, 1945




Se ali o céu, acúmulo de ar, ourografia nebulosa, água corrente o céu: via régia: linguaviagem em direção ao sabre lúcido, à prosa da piscina vista do belvedere. Ouçamos, pois, como soa o céu: sem anular o sonho, antes o vivifica. Se o céu parece comum, é porque não o vimos ainda. Despojar a palavra da palavra, confessá-la em música. O céu passou, mas o rastro do céu, fixo nesta matéria fina de toda certeza: a palavra: permanece ao alcance do sopro que a língua da tempestade cura.


Fernando José Karl

domingo, 24 de julho de 2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

O kataná

a espada era a única coisa que kiguchi-san guardara de sua herança de família. nunca mais voltou à yokohama e os viu depois de seu desterro. lembrou que com essa espada fez três vezes o mesmo ritual: encostou a lâmina contra a carne de seu peito e a puxou contra si uns dez centímetros. depois sentou-se na banheira de ofurô e sangrou por duas horas até tornar a água morna água turva de um sangue dissolvido. abriu o quimono e me mostrou as três cicatrizes paralelas em alto relevo cada uma com a largura de um dedo. confessou que  trocou a dor de sua alma pelo rasgo fino feito pela lâmina do kataná. Foram três as dores trocadas: o suicídio de sua mãe: a falência de sua empresa: e a mais tenebrosa de todas: o amor carnal que sentia por sua irmã.


Antonio Carlos Floriano

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Poema de Vicente Cechelero

Miragens na areia

No deserto
na aragen da miragem
era

meu Deus


No deserto
na aragem da miragem
era

meu pai


No deserto
na aragem da miragem
era

você


No deserto
na aragem da miragem
era

solos
S. Paulo, 70

poema de cristiano moreira

Das maneiras de (r)ir-se ao outro lado.

A vida é costura de moveres, cujo colear beira a ossatura

destemperada da terra. A vida é sempre mais de um lado,

a vida costurada e acostumada a tantas travessias.

Seu alinhavado não respeita traços retos,

tampouco pontos fixos. Apenas rir-se, ou seja,

atirar-se no rio como folha de seringueira

para brincar com a guaivira. Balé no meio do rio,

escultura de minúsculos toques, relances

de cristais sob meu olho. Olhamos. Claro que olhamos!

Rir-se é atravessar o Açu esse Itajaí corrente

que prende a gente nas idéias navegantes.

Rir-se é saber habitar dois mundos: vários aliás, aqui dentro.

Bem cedo a lua cheia, deixa a maré torrada

e a rampa da balsa inclinada. Pra cima, só o mestre lá no alto,

o “capitão”, o “arrais”. Cada lua e horário novo ensaio, novo turno.

A água do rio bailarina talentosa e voluptuosa seduz e gira

veloz depois da chuva e do rebojo. Dança no meio do rio

com muitas pernas ao mesmo tempo. Águas que choram

sob o sol e dançam com a chuva. Água de lágrimas escondidas

sob essa chuva que deixa a travessia mais cinza talvez, não menos bela.

A água veloz só perde pra pressa das gentes

quando chegam, aqui ou lá. Passam rápido os passarinhos

como um livro folheado ao vento.

Mas de qual lado estamos lendo este poema?

De qual lado estamos lendo essa travessia, esta navegação?

Com qual lado escrevo, em qual dos dois lados vivo?

Margem esquerda ou direita? Se na travessia temos lado ainda não,

vivemos alguns momentos em suspensão, flutuando nesta cidade dentro.

Dentro do ferry boat estamos no meio, atravessando

o rio Itajaí-açu, atravessando o dia, uma saudade, uma pressa

atravessando o tempo, o olhar olhando os barcos.

Atravessar o rio é como ler, é sempre o meio.

Atravessar o rio também possui fantasmas, imagens, lembranças.

Aqui, dentro desse meio, leio. Leio rostos como devo ser lido

Também por outros olhos. Leio as cores em movimento no andar

das pessoas e principalmente, leio e ouço as duas cidades.

Navios atravessam minha janela todos os dias. Nomes de mulheres

de todos os lugares do mundo passam por essa janela:

Ingrid, Oreanda, Harriet e Astrid. Outros tantos nomes, mas não importa.

O rio é esta imensa porta, uma soleira ondulante

levando histórias de chegadas e partidas. Aumento o volume da memória

e ouço há mais de trinta anos o som deste barco de lado a outro do rio.

Quantas idas e vindas sobre a balsa de aço. A mudança do poente

a cada estação, o rio de ouro, caminho amarelo do sonho.

Quando criança fazia várias travessias para ver o desenho na água, nada mais.

No alto do ferry boat eu e o dia resistindo contra a noite, contra a chegada.

A memória é onda que o pescador conhece. Memória navega

em cabotagem ao redor do tempo, do corpo.

Memória é como atravessar no ferry boat, de margem à margem do rio,

é criança vagando por entre as imagens do rio.

Cristiano Moreira

terça-feira, 12 de julho de 2011

UM POEMA DE MÁRIO FAUSTINO

MENSAGEM

Em marcha, heroico, alado pé de verso,
busca-me o gral onde sangrei meus deuses:
conta às suas relíquias, ontem de ouro,
hoje de obscura cinza, pó de tempo,
que ele os venera ainda, o jogral verde
que outrora celebrou seus milagres fecundos.

Dize a eles que vinham
tecer silentes minha eternidade
que a lava antiga é pura cal agora
e queima-lhes incenso, e rouba-me farrapos
de seus mantos desertos de oferendas
onde possa chorar meu disfarce ferido.

Dize a eles que roubam
como chuvas de sêmen sobre campos de sal
sem mancha, mas terríveis
que desçam sobre a urna deste olvido
e engendrem rosas rubras
de estrume em que tornei seus dons de trigo e vinho.
Segue, elegia, busca-me nos portos
e nas praias de Antanho, e nas rochas de Algures
os deuses que afoguei no mar absurdo
de um casto sacrifício.
Apanha estas palavras do chão túmido
onde as deixo cair, findo o dilúvio:
forma delas um palco, um absoluto
onde possa dançar de novo, nu
contra o peso do mundo e a pureza dos anjos,
até que a lucidez venha construir
um templo justo, exato, onde cantemos.

Quino

Suzanne Opton, 1999



Inclinado de leve para a deusa de água, eu sonho que sou um skinhead com roupas de Popeye, que traz mãos que abandonam no abismo todo um ritual de argúcias. Murmuro cáustico para mim mesmo:

“Os de minha rua trazem-me aqui para ser julgado por esse Fariseu ressoando como tambor! Que fiz eu? Onde é o meu reino?”

O Fariseu, desatento ao esgoto que lhe suja a alma, perfila-se junto ao sólio de mármore e repete uns versículos na antiga língua dos livros apodrecidos. Como eu, o skinhead, permaneço silencioso, o Fariseu vocifera no meu tímpano uma brasa do inferno. Então Jesus, o sereno, que está perto do poço, se aproxima, estaca severo diante do Fariseu e, para que ele ouça, diz:

“Se os bichos pudessem falar, ficariam calados”.

A voz de Jesus é clara, segura, quando pronuncia a sagrada verdade:

“O reino do skinhead com roupas de Popeye não é daqui!”

Todos recuam, deixando o Fariseu e Jesus, a sós, no limiar do átrio. Não anda sobre água o Jesus nem multiplica pedras em peixes nem água em vinho, mas, para pasmo da multidão, ele ordena ao Fariseu que este seja transformado numa chuva fina sobre o rio Amazonas. O Fariseu não aceita que o transfigurem em chuva:

“Por que não me transmutas na conta de orvalho que estremece na ponta de uma folha?”

Com os cabelos sobre os ombros, Jesus desiste de transformar o Fariseu em chuva. Opta por algo mais leve.

A multidão amontoada ao canto do átrio aguarda o veredito.

E Jesus confirma a sentença:

“A partir de agora tu não és mais um Fariseu, mas um peixe com sede. E para esta sede não há água que chegue”.



Fernando José Karl

segunda-feira, 11 de julho de 2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011

memória

Roger Camp, 1990



Você sabia que Jesus (Ie-su), em grego, quer dizer Deus-cavalo, espécie de Pégaso? Todo Deus-cavalo ou Pégaso é um Jesus, só que ainda não Khristós, ainda não Ungido. E olha que não falta ar para ungir o Deus-cavalo.

Pégaso (em grego Πήγασος) é um cavalo alado símbolo da imortalidade. Sua figura é originária da mitologia grega, presente no mito de Perseu e Medusa. Pégaso nasceu do sangue de Medusa, quando essa foi decapitada pelo poeta Perseu.

Por uma fenomenal patada do lendário Pégaso que feriu uma pedra, a Fonte Hipocrene foi criada. As águas dessa fonte possuíam a propriedade de fornecer a inspiração a quem dela sorvesse. Foi lá que Orfeu (o Deus da Música) recebeu sua instrução artística. Em torno da Fonte Hipocrene as Musas ainda hoje executam, com seus pés leves e incansáveis, graciosos movimentos de dança, e desfiam aos quatro ventos a harmonia de suas cristalinas vozes.

O poeta Perseu (que, às vezes, também se transformava numa Chuva de Ouro) decapitou a Medusa (o excesso da culpa que costuma petrificar a alma) e do sangue da Medusa nasceu Jesus (Ie-su): Pégaso ou Deus-cavalo.

Resumo: Assim, só posso concluir que, para tornar fluido o que nos petrifica, devemos decapitar o excesso de culpa, de tristeza e rir mais. O riso dispensa Deus e esterca as nuvens. O poeta Perseu (também conhecido como Chuva de Ouro), ao decapitar a Medusa ou Morte da Alegria, fez com que surgisse do sangue da monstruosa Medusa uma possibilidade divina ou Deus-cavalo ou Pégaso (em grego Ie-su), que só será Khristós (Ungido) quando esse Pégaso, com um de seus cascos, bater na pedra (naquilo que é duro, travado, taciturno), para que da fenda dessa pedra jorre a água cristalina da poesia, da dança e da alegria dos homens e das mulheres. Não custa nada parodiar aqui um verso de Helena Kolody: E do longo sono da terra, do longo sono da Medusa sombria, o carvão acorda diamante.


Fernando José Karl