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sexta-feira, 30 de março de 2012

Imagens da Holanda

Terceira

antes da segunda grande guerra

guilherme nagel apareceu em Amsterdam

para seu último jantar em família

ao redor da mesa posta

todos eram louros arrumados

uma sala plena de irmãs e primos

todos eruditos formais e ricos

perguntavam do brasil

gilherme não viu ali nada mais que lhe pertencia

quinta-feira, 29 de março de 2012

Dez imagens da Holanda

Segunda: Maratonista belga na estrada de Oegstgeest

sua melhor qualidade

era olhar azul

seu número de sorte

Duzentos e dois

passsou correndo a pequena maratonista belga

Agnes Van de Castella

a moça que ofertava o copo d`água

aos maratonistas na estrada de Oegstgeest

tinha o nome de Theodora Nagel

não imaginava estar grávida de meu avô

terça-feira, 27 de março de 2012

Dez imagens da Holanda

Primeira:

Leonardo Nagel anda com livros

Nos arrabaldes de Amsterdam

Ao olhar para o céu

Vê o barco de madeira no alto do dique

Para ele

O oco do barco flutua no ar

domingo, 25 de março de 2012

Toda noite me desfaço em mim

Ponho meu corpo num cabide.
Enxáguo a alma de gafanhoto.
Distancio-me na madrugada.
Assisto os pesadelos do monarca.
Outro dia acordo com as costelas desarrumadas.
Sempre tenho vontade doída de mijar pregos.
Cesso com os beijos nutritivos dos anjos do Senhor.
Ponho as pernas.
Caminho para a inércia.
Diante dos olhos uma cidade constrói homens de cera.

Valdemir Klamt

segunda-feira, 19 de março de 2012

TRIBUTO A SEVERO CRUZ

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [19/03/2012]

Orfeu, depois de ser totalmente despedaçado, renasce para entoar sua lira, para cantar o mundo e para o mundo. Zagreu ressurge como Dioniso após Zeus salvar seu coração destroçado pelos inimigos. A mortal Sêmele engole o coração de Zagreu e dá luz a Dioniso. Fênix também renasce das cinzas, na sua eterna autocombustão. Sísifo está condenado ao movimento circular do infinito sacrifício. Prometeu é devorado por abutres, pois ele ousou ser incendiário, morder a língua do saber.

As metáforas dos desaparecimentos e dos ressurgimentos míticos serão incorporadas, no dia 31 de março, no Teatro Pedro Ivo. Nessa data acontecerá o espetáculo “Tributo a Severo Cruz – Renascer das Cinzas”. O ator e músico, nosso misto de Orfeu e Téspis, receberá inúmeros músicos para um espetáculo solidário, pois sua casa, móveis, instrumentos e figurinos-cenários foram, feito Fênix, incinerados no início de fevereiro. Pelo caos do acaso, sua moradia esvaiu-se em chamas, deixando o artista, que tem no nome o adjetivo severo e o substantivo cruz, sem um local para abrigar seu sono e seus sonhos.

Como a matéria do sonho pode ser compartilhada em todo e qualquer espaço, artistas e amigos aceitaram o desafio de sonhar uma nova casa para Severo Cruz. Na data prevista, ele será recepcionado por Denise de Castro, Cláudia Barbosa, Raquel Barreto, Marcoliva, Tatiana Cobbett, Verônica Kimura, Sueli Ramos, Joana Cabral, Jeisson Dias, Álvaro Carioca, Júlia Coelho, Neco, Fidel Piñero, Net Platt, Marco Aurélio, Juan, Reizinho, Zeca Catarina, Jorge Lacerda, Luiz Sebastião, Chico Pinheiro, Marcelinho Vieira, Leandro, Jandira, Júlio Coelho, Mario Marçal, Luiz Gustavo Zago, entre outros amigos e músicos, que estão engajados no renascimento de uma nova morada para o artista.

Vale rememorar que foi igualmente nesse dia que se instaurou uma fase cinzenta da história brasileira, a Ditadura Militar. Aliás, até hoje esperamos por acesso às documentações, procuramos por notícias de desaparecidos, esperamos por punição aos inúmeros assassinatos, torturas e toda sorte de crueldade.

Entretanto, nessa data, nossa cidade poderá abrir a voz e cantar aquela letra do Martinho da Vila: “Vamos renascer das cinzas/Plantar de novo o arvoredo/Bom calor nas mãos unidas/Na cabeça de um grande enredo/Ala de compositores/Mandando o samba no terreiro/Cabrocha sambando/Cuíca roncando/Viola e pandeiro...”.

Este é um convite para “plantar de novo o arvoredo” e viver a celebração da arte e da amizade. Todos os caminhos, no dia 31, levam ao Teatro Pedro Ivo.

terça-feira, 13 de março de 2012

Inicia o Projeto Contém Cultura



Nesta quinta feira dia 15 às 15 horas em frente à Portonave, inicia o projeto Contém Cultura. Um equipamento volante que levará Biblioteca, cinema, palestras sobre saúde integral e oficinas de leitura e escrita para o bairros de Navegantes. Até dia 30 de março estaremos em frente à Portonave e depois participarems do dia 04 ao dia 22 de abril da Volvo Ocean Race em Itajaí. Visitem-nos.
para saber mais visite
http://www.institutocaracol.org.br/

ou http://www.institutocaracol.org.br/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=62&Itemid=177

aquarela

para todos que alimentaram esta baleia

aquarelar-se na cidade

exige saber os dias incolores

em que um uma baleia chega à costa

quando resta apenas vestígios de pessoas

em largo lençól deixando pernas da praia à mostra.

aquarelar-se nesta cidade é ver

outro rio , pessoas, barcos e navios

ver passar à janela outra baleia

a baleia branca em navegantes

não é Moby Dick, não aquela que fez de Jonas sua ceia.

uma baleia encouraçada que preferiu engolir livros

e muitas vozes. anda poraí entre navegantes cujos

olhos não cansam em ver o mar. e verão, virão

os ruídos da baleia encouraçada e alguns arriscarão

a dizer simples e branco e somente: é um contêiner.

Cristiano Moreira

sexta-feira, 9 de março de 2012

Irving Penn, 1993




Realmente, meu caro amigo, devo contar que Godot acaba de morrer atrás da igreja luterana, e, no seu corpo magro, caem flocos de uma neve de romance russo.

Godot, que não mais respira, meio decomposto dentro desse caixão, é um resto de desespero, sem história e sem nome, que o frio da noite extinguiu.

Lembra do Godot de óculos com aros de prata, a dirigir seu Buick 49 entre as árvores, e que andava com chapéu de palha no areal da praia Brava a fumar um havana? Não o reconhecerias, meu amigo, se o visses inerte nesse caixão que seguimos pela rua apinhada com a neve. Talvez ainda sejamos surpreendidos por uma névoa, dessas que costumam cometer aparições nos enterros, uma névoa que é o próprio véu da melancolia.

Dentro do Café Atlântico, a mulher de vestido branco, que vê o caixão de Godot passar, é Isadora. Que circunstâncias atam seu destino ao de Godot? Não sei. Toda a atenção dela se concentra nos guarda-chuvas das pessoas que seguem o funeral de Godot, seguem com a mesma persistência de uns peixes velhos que mesmo durante a derrocada da última respiração ainda se revestem de recifes coralinos e de sal, para se acercarem com mais dignidade da inevitável dissolução no mar.

Isadora, que abomina esses peixes velhos que acompanham o caixão de Godot, detesta igualmente o discurso embalsamado do viscoso sentimentalismo pequeno-burguês e tenta opor, dia após dia, a beleza rombóide das igaçabas à ânfora grega, e, quando escreve, procura reduzir a complicação do vestuário retórico a uma folha simples de parreira.

Isadora, por outro lado, adora a nudez da luz (cujo exterior é o interior), adora a nudez do vento (que a si próprio se rodeia), e quer porque quer destruir o hálito sombrio do minotauro.

Fernando José Karl

quarta-feira, 7 de março de 2012

EPíLOGO

dediquei momentos a reanimar véus, penduricar artigos de visita pela casa, saber coisas estranhas de gente mais esquisita, colibri dias, querendo que fossem férteis, para correr sem espanadores nas pernas. consegui práticas duvidosas. será que estaria louca? a lembrança de um estresse positivo perpassou minha consciência, as aparências daquele dia trouxeram paz a esta vida estapafúrdia. sabendo que não posso reter ninharias, divago para o presente, buscando que este seja mais do que àquilo que me limito, trajando saias escovadas, discos bem-elaborados, tochas nas mãos. estou confundindo os tempos, desleal comigo mesma, esquivando-me das escolhas mais urgentes. quem sabe resenhe uns dias novos, quantas alegrias eu me quiser, com algoritmos bem decifráveis, pra não me atravancar o caminho outra vez. preciso pôr paz nos bolsos, incensar mesmo quando há alérgicos na sala, desapinhar minha vida, destruir agendas para pagar menos, falar menos, ter exatidão. ofertam-se santos, sintomas, pra quem quiser, tá tudo lá, em promoção. eu li Fátima, pensado ser Salete e fui destinando minhas promessas tanto erradas quanto discretas. prorrogaram minha salvação, porque pareço desleal, não desafiam me ter por perto, já que falo de ambos os sexos, ambas as rixas, todas as tragédias anunciadas, fazendo meu juízo de valor. creditam que quero atiçar, como num estado de contenda, mas estou em meu natural, no epílogo, a parte de viver as minhas verdades mais sisudas e não abrir mão delas. querem que eu abra. então me vem o limite, a pressão, derrubam meus feitiços, tornam meu delírio inabitável, marreteiam minhas historinhas infantis, desviando o olhar dos outros do que ali havia de quimérico, das bonecas, fogõezinhos, listinhas de compras. aquele fumo de limão me emerge, e das regras desse impasse de fumar e não fumar, uma nova alteridade esplende. estou tão alta que domino as cordas lá em cima, trapézio de de diamantes beirando-se no chão.

Ramone Abreu Amado

segunda-feira, 5 de março de 2012

AS CISMAS DE DONA LINDOMAR


POR MARCO VASQUES


Que há muito os homens vêm tratando as mulheres como objeto é fato, um fato lamentável e evidente. Os tempos mudaram e as mulheres também tratam os homens como objeto, o que não é tão lamentável assim, dizem alguns estudiosos. Aliás, existem pesquisas que apontam que os homens nunca deixaram e nem deixarão de ser objeto nas mãos das incautas. E aquela história de que o feitiço virou contra o feiticeiro, nesse caso, é absolutamente verdadeiro. E coloca feitiço nisso. Tem feitiço que vale um batalhão de feiticeiros. E a coisa vai andando assim. Vamos rolando de corpo em corpo adentrando a carne, mas nunca os silêncios intumescidos de grito. Mas como diz Dona Lindomar, esse negócio de “adentrar silêncios” não é coisa de macho.

E a velhinha, no auge dos seus setenta anos, perguntou para Flavinha, uma de suas netas, residente de Bundópolis, a capital de Bruzundangas: por que as mulheres vivem mostrando os seus seios e as suas bundas em tudo o que é propaganda? Não existe lugar em que os olhos não se deparem com uma bunda, um seio. A pergunta, segundo relato da própria Dona Lindomar, não tem nenhum tom moralista. Muito pelo contrário, o que abunda não prejudica!

O que intriga Dona Lindomar é a não distinção entre as bundas e os seios filmados e fotografados. Porque, para ela, de um jeito ou de outro, as mulheres acabam expondo tudo. Não tem jeito. Agora, essa coisa de os produtos e os cenários mudarem e o corpo de Eva ser sempre o mesmo, isso é coisa para algum doutorando de Bruzundangas. A estética é muito repetitiva, afirma Dona Lindomar, pois é sempre a mesma coisa: seios fartos, mulher branca, jovem e bem fornida. Só no carnaval as mulatas brilham, mas passada uma semana, tudo volta ao de antes.

E Dona Lindomar, indômita, continua a instigar a neta. Flavinha, será que o negócio não estava invertido? Como se estipulou que o produto nacional é a mulher, mas propriamente a bunda da mulher, todo mundo usa o refrigerante, a cerveja, a moto, o carro, a bicicleta, o creme de cabelo, o detergente, as bolachas e os chocolates como figurantes para o corpo feminino? Nós estamos à venda, Flavinha? E ainda ganhamos dinheiro no anúncio de nossa própria beleza? É isso ou eu estou sonhando? Na verdade o produto somos nós? Toda a indústria está voltada para nós, Flavinha. Nós estamos em evidência, somos a bola da vez minha neta!

Nesse exato instante Dona Lindomar olha para si, rumina sua decrepitude de setenta primaveras, olha para o porte esquálido da neta Flavinha e arremata: não Flavinha, o produto são elas. Nem produto somos.

sexta-feira, 2 de março de 2012

improviso

tanto nos esperamos
e nos perdemos
grande era tarde e o movimento
era verão e a estação em Ueno

quando nos encontramos
percebemos
grande era a paixão que vivemos
era verão e a estação em Ueno

no campo aberto
percorremos
os caminhos do templo
no parque de Ueno o sol deserto
a luz da noite
a vida viva de teu sorriso
e o cheiro do cabelo negro