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terça-feira, 31 de julho de 2012

as cousas dentro da mó dos sentimentos das cousas que nunca mais dissemos e ficaram presas numa normalidade de felicidade pintada nas páginas do face tenho pena dos nossos seguidores e suas face dores

David Moore, 1969


A INSCRIÇÃO NO VASO DIPYLON
& O PAPIRO BACCHYLIDES
(Breve ensaio sobre a origem da linguagem)
sinais de repouso
,     .     ;     ...
a vírgula foi inventada no século VIII
o ponto e vírgula no século IX
o ponto sobre o i data do século XI
antes do século XVIII não se usavam reticências
na inscrição do vaso Dipylon se lê:
as lavas catequizam as larvas
no papiro Bacchylides se lê:
da garganta cortada fogem cervos em bando
# em suma: o escriba,
que desfruta do melhor cálamo para grafar
seu texto no pergaminho,
não o grafa para as pedras, plantas, animais,
mas no lugar das pedras, plantas, animais
 
 
Fernando José Karl

Les Krims, 1969


POEMA ESCRITO EM VÁRIAS L[INGUAS

Brantome pensa: na loja de flores άργομουνιατικόν
tributum quod pendunt viduae apud Chios Insulanos.
Corpus Fabularum Aesopicarum.
The phrase (εν) μια των ήμερω:
yauman min al ayyam syr o moço bhad menyaumin.
Greek version μια των viu ήμερων.
The words bram dla gdash viu  lak aik
dg das h lyauna had.
Si aggiunga a moça ancora allare
corporis et mentis generositate prefulgide utpote
auguste liberalitatis e incomparabiliter laudabili
abbatisse venerabilis nunquam illum in aliquo nostrum
monasterii dicti papoula Quitiliggaburc.
 
 
Fernando José Karl

Ver a exposição Nautikkon,
de Fernando José Karl

http://www.germinaliteratura.com.br/2010/artes_fernando_jose_karl_1_jun10.htm

segunda-feira, 30 de julho de 2012

naquela manhã em tóquio na fila do macdonald as bruxinhas do harajuku falavam alto gírias japonesas e todos eram japonesas e enquanto eu chegava para ser atendido somente a confusão da insônia e o alvoroço dos meninas enfeitadas e minha mente tentando gravar o número do pedido e a neve suja do sábado e a atendente falando agudo e programado e eu estendendo uma nota de dez mil ienes
para não precisar me enganar e o guarda apitando fora na neve sob um viaduto e eu me sentia sozinho a insônia o sanduíche plastificado o frio da rua na cara molhada do guarda no olhar verde no vermelho do cabelo
no delírio dos meninos e das meninas seus olhos rasgados como gatos só sei que era frio só sei que isso nunca foi de fato um sonho
Responda: o que fazer com os poetas? A: Reciclá-los B:Esquecê-los C:Apagá-los

domingo, 29 de julho de 2012

BETUME DA JUDÉIA

a minha origem mineral, feixe de palha, embebida em óleos leves, inflama-se - Osíris, por quem as tochas na cidade egípcia: acesa: na entranha a figura de óleo e de água, transmigra nas formas da virgem Maria: a romaria na rua abrasa-me a íris ainda em Santa Catarina, Petrolândia: Sexta Santa: um Vice-prefeito viu pedras que esfumam ou nublam-se em chapas de ferro e em brasa, em círios, névoa, nimbo: tremor no interior dos tímpanos: o aroma úmido de bússolas e uns helicópteros na costeira, em buscas de corpos e origens: ou almas, sísmicas, onde as histórias geológicas se misturam no refino do fóssil de todos os dias. diz-me um da Economia: milênios se consomem, de Uruk ao Iraque, e ele, consumidor se consumindo, consome-se na leitura dos astros: Varuna, por exemplo, é recente no Sistema de lucros e desastres: bálsamo da terra: betume: bréia: alcatrão: azeite: asfalto: óleo mineral: óleo de rocha: óleo da terra: resina: lama: pissasfalto: óleo de São Quirino: de Sêneca: de Medéia: piche de Trinidad: pez de Barbados: múmia: nafta: malta: óleo de Rangum: nafta da Pérsia: betume da Judéia. a minha origem, animal, afunda em poços além do nado ou das sondas mais hidrogênio que algas, ondas de rádio nas ondas - homem de vento, extraio sol de onde não tenho Dennis Radunz
dunz

domingo, 15 de julho de 2012

Flor do mar - Cruz e Sousa És da origem do mar, vens do secreto, do estranho mar espumaroso e frio que põe rede de sonhos ao navio, e o deixa balouçar, na vaga, inquieto. Possuis do mar o deslumbrante afeto, as dormências nervosas e o sombrio e torvo aspecto aterrador, bravio das ondas no atro e proceloso aspecto. Num fundo ideal de púrpuras e rosas
surges das águas mucilaginosas como a lua entre a névoa dos espaços… Trazes na carne o eflorescer das vinhas, auroras, virgens musicas marinhas, acres aromas de algas e sargaços…

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Cinema Paradiso

Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos. Seremos padeiros e teremos padarias. 
Muitos filhos à nossa volta. 
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel, 
a árvore de Ruth, a árvore de Roseta. Seremos alegres e estaremos sempre a cantar. 
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras. Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros. 
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente 
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar. E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou 
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei... 
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados 
minha oferta póstuma às formigas 
que têm suas casinhas subterrân
eas aos pássaros cantores
 que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes. Eu voltarei... CORA CORALINA

O BAR DO FIFA

POR MARCO VASQUES Os bares são os lugares mais literários do mundo. Neles temos de tudo. Solteiros, casados, separados, viúvos, ricos, amargurados, gastadores, traídos, pobres, jogadores compulsivos e, claro, toda sorte de bêbados. Chatos, alegres, tristes, brigões, machões, transformistas, artistas, poetas, intelectuais, sabichões, teimosos, dorminhocos, efeminados e todo gênero de maluco que o alto consumo de etílicos pode produzir. Existem inúmeras teorias sobre a ingestão do álcool. Há os que defendem que a verdadeira personalidade aparece após alguns tragos. De todos os tipos de bêbados, os mais chatos são os intelectuais, porque após alguns tragos ninguém mais vê o mundo a não ser via seu umbigo universal. E pior, os intelectuais têm um dom supremo de acumular vários tipos em um só, segundo eles porque são múltiplos. Então eles são intelectuais, chatos, valentões, sabichões tudo junto na mesma hora. Já dá até pra imaginar uma figura dessas. O negócio é identificar logo a figura com tal pluralidade e passar longe da mesa do indivíduo. O resto se atura com alguma tranquilidade e paciência. Existe até uma tese da confiabilidade via bebida. O negócio é bem empírico. Convida-se uma pessoa para beber e se toma o suficiente para que ambos saiam da órbita da razão. Se ao final da noite e da bebedeira a amizade resistir, pode acreditar, eis uma pessoa em que se pode confiar. Então, por princípio, já se sabe a qual pensamento a tese no leva: é impossível acreditar e confiar em pessoas que não bebam, pois nunca saberemos qual a sua suposta verdadeira personalidade. O Bar do Fifa, por sorte, não possuía nenhum intelectual desse gênero, embora por ali, todos os dias figurassem pensadores das mais diversas áreas. No Bar do Fifa encontrávamos a gente simples do Córrego Grande bebendo ao lado de executivos de grandes empresas, todos vivendo numa harmônica embriaguez. No domingo, muito comum todos se reunirem para comprar bilhetes de rifas, cujo prêmio era um pedaço generoso de churrasco, que comíamos ali mesmo, com se fôssemos uma família. A cerveja e a cachaça eram compartilhadas. Nas quartas-feiras tínhamos uma galinhada com polenta, feijoada ou umas sopas de legumes. Tudo anunciado num pequeno quadro. Ao entrar no boteco as duas primeiras coisas que se fazia era olhar a rapaziada da canastra e o quatro para conferir a programação da semana. Tudo isso somado ao jeito bonachão do Fifa, que nos atendia com uma piada, um sorriso e a cerveja não mão. Fechado há três meses aquele ambiente testemunhou muitos porres e inúmeras histórias vividas e inventadas.