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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Uma crônica de Rubens da Cunha

COPA, JOGO, SUPERFATURAMENTO

Talvez a solução para o trânsito das cidades seja os jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Pelo menos para mim e mais meia dúzia de “anormais antipatriotas” que resolvem se movimentar pelas ruas justamente quando a grande maioria é puro recolhimento para assistir o jogo. Futebol é algo que ataca frontalmente minha paciência, e quando ele vem concentrado em Copa do Mundo, o ataque é consideravelmente maior. Na verdade eu gosto mais do entorno. Nesta Copa tá muito divertido os “cala bocas” promovidos pela internet; os “mimimis” do técnico brasileiro com a imprensa; o ódio generalizado com a tal vuvuzela; a volta por cima, por enquanto, do Maradona; a incapacidade da organização desse esporte em utilizar a tecnologia para averiguação de gols e lances duvidosos em nome da paixão, da imprevisibilidade que diferencia o futebol dos outros esportes. Também gosto muito daqueles dois ou três minutos que resumem o jogo. Acho que falta ao futebol é concisão e os editores dos melhores momentos provam sempre isso após cada jogo. E o jogo em si é algo que me enfastia. Quer dizer, nem tanto o jogo que, igual a novela, pode ser assistido enquanto se faz outra coisa mais interessante, como jogar cartas, cozinhar, fazer arquivos pessoais, limpar a casa, navegar na internet, mas aguentar o tal do torcedor convulsivo é complicado. No primeiro jogo do Brasil, um dos meus vizinhos extravasou de tal forma quando aconteceram os gols que, muito mais do que comemoração, me pareceu algo como uma parturiente com o filho atravessado no útero a 500 km do hospital. Era um tal desespero que chegou a dar medo. Se ele se comportou assim no primeiro jogo contra a Coreia do Norte, imagina como não deve ter sido nos jogos mais importantes para o Brasil. Tive a sorte de me ocupar longe de casa nos outros jogos, portanto não vi mais os urros desesperantes da criatura. E a brasilidade? As bandeiras nos carros? O patriotismo bissexto? Nem vou entrar no mérito da questão, da nossa capacidade de se articular e se comprometer com algo que não altera em nada a nossa vida, diante da contundente alienação brasileira frente a questões realmente importantes. Vai entender essa falta de foco. Também não quero parecer moralista ou dono da verdade, até por que eu não sou nenhum exemplo de comprometimento com causas sociais e políticas, mas é difícil negar a força de uma frase irônica como a de Danilo Gentili, quando afirma: “patriotismo de brasileiro é igual poodle de madame: só é solto de quatro em quatro anos e quando sai na rua se porta como débil-mental.” Tá quase acabando. Logo tudo volta ao normal e as duas horas de trânsito vazio serão apenas uma lembrança. Em 2014 será por aqui. Já estou fazendo um repositório extra de paciência, pois eu vou precisar. Tudo pode se repetir: a união e a força do brasileiro diante dos jogos, a desunião e a alienação diante das prováveis falcatruas que a promoção dessa Copa trará ao País. Tudo está se transformando em piada sem graça, como por exemplo: o Brasil deve faturar a Copa de 2010 e com certeza irá superfaturar a Copa de 2014.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Fotos lançamento

Aos amigos e leitores deixo uma série de fotos do lançamento dos livros Diálogos com a Literatura Brasileira - volume III e Flauta sem Boca. Ambos serão lançados, em breve, em Joinville, Porto Alegre e Curitiba. A festa foi bonita. Muitos amigos: astral bom e muitos livros distribuídos. Obrigado a todos os entrevistados, obrigado a todos que lá estiveram e obrigado a todos os amigos que contribuíram para o sucesso do evento.

Fotos lançamento











Fotos lançamento











Fotos lançamento







domingo, 27 de junho de 2010

Mais poesia no FITA

Por Marco Vasques


LIFE.STORIES – PULSAÇÃO POÉTICA

A companhia Marc Schnittger Figuren Theatre, da Alemanha, apresenta o espetáculo LIFE.STORIES no Teatro Álvaro de Carvalho neste final de semana. Utilizando-se da técnica de bonecos de luva, o grupo de manipuladores mostra ao público que é possível criar uma partitura poética a partir de histórias cotidianas e simples. Sim. Porque os conflitos de LIFE.STORIES perpassam a vida de qualquer mortal: religião, sexo, amor, vícios, poder e morte. Uma sucessão de pequenas histórias que se cruzam. [O homem cai no mundo. Assim começa o espetáculo: um homem perdido no espaço chegando ao mundo. Metáfora do nascimento/desespero, do nascimento/esperança. A partir deste momento as histórias que compõem o espetáculo se entrecruzam. Um cineasta pretensioso que quer, moderníssimo, fazer um filme pornô para desbancar Bergman e Fassbinder. Um taxista que ouvi e convive com seus passageiros. Um barman. Um bêbado. Mãe e filha que vão ao cemitério visitar o morto. A morte que se apaixona e poupa a vida de uns condenados. Um padre que se masturba ao ouvir (em ato de confissão) as peripécias sexuais de uma mulher. Um cão alcoólatra...] Enfim, em LIFE.STORIES tudo é encontro e desencontro. Ironia e reflexão. Uma história dentro da outra que está dentro da outra. A história da humanidade: uma civilização dentro da outro que está dentro da outra que destruiu uma outra. Bonecos, objetos, luz e som ganham um tratamento plástico minimalistas, contidos. Só há excesso na beleza em LIFE.STORIES. A assinatura da direção é de Martin Maria Blau que conseguiu a energia vital do teatro: a pulsão poética. Contudo não poderíamos deixar de ressaltar o tom trágico do trabalho, mas se trata do trágico diário, dos pequenos tsunamis humanos. A leveza que há no espetáculo só é possível porque há uma voz que diz: cessem a eternidade que nascemos para a morte. Diz mais: somos pulsão de vida e pulsão de morte: Eros e Tânatos. A morte vem para o plano da vida. Ela é pensada a partir de sua condição terrestre e natural. LIFE.STORIES fala das nossas histórias, das nossas fraturas diárias. Faz isso com leveza, ironia, sutileza e muita técnica teatral. Um espetáculo para ser visto de joelhos. Estamos diante de uma obra que nos provoca: se temos uma vida e vamos vivê-la por uma única vez, como uma vela que ao emanar luz se consome, façamos da vida um poema com toda pulsão poética possível. Então, neste domingo, vá ao Teatro Álvaro de Carvalho preparado para vivenciar um raro momento estético.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Espetáculo Naviazgo en el Cemiterio


Por Marco Vasques
MAIS MÍNIMAS IMENSIDÕES NO FITA

O teatro tem dessas coisas: você abre duas portinhas. Coloca seu olhar dentro de uma caixa de Lambe-Lambe e nunca mais é o mesmo. O teatro é um rio, diria Heráclito. São inúmeras as surpresas que se pode ter em poucos minutos. São inúmeros os signos e as metáforas que carregam uma aparente pequena história de amor não concretizado. O espetáculo Noviazgo en el Cemiterio comprova minha fala acerca da companhia OANI: estamos diante de artistas construtores de mínimas imensidões. Impressiona o poder que o grupo chileno tem de fazer coisas tão diversas, tão simples e tão belas. Baseado na balada romântica do poeta português António Augusto Soares de Passos (1826-1860) o espetáculo tem uma narrativa bastante simples: o encontro de um homem com a amada num cemitério. Ambos estão mortos e saem de suas sepulturas para a consumação do afeto/amor. Após o ato de ternura eles se unem num só jazigo. Os esqueletos têm uma espécie de amor póstumo bem característico da escola romântica, onde um mundo paralelo resolve as impossibilidades terrenas. É o escapismo! Dizem os doutos. Luciano Bugmann levou um ano para montar o espetáculo, isto é, montar a caixa, o cenário, o figurino, os personagens, a luz, o som e a direção. Doze meses para harmonizar tudo em cinco minutos! Equilibrar o gótico, o tétrico até alcançar o lirismo, uma ternura que nos leva ao universo ultra-romântico criado pelo poeta. Escandir cada objeto, cada mínimo. O resultado? Lembro do Julio Cortázar tentando definir o que é um conto. Ele diz que um conto é perfeito quando alcançar a exatidão de uma esfera. Porque a esfera é uma sucessão de esferas, um intenso devir indevassável. Noviazgo en el Cemiterio devassa nossa ossatura; é esfera, mas acima de tudo pérola-poro. Quando, um dia, me restar uns poucos minutos: quererei guardar meus olhos dentro de uma caixa [Lambe-Lambe] cheia de poesia.

Um poema de Antonio Carlos Floriano

Não tenho percepção dessa existência
respiro por aparelhos as cinzas sem acenos
engulo a groselha
de tua gelatina
escrevo como escravo para que nunca me ouçam
sou ateu
e rezo todos os dias
para que pareça
coisa desenhada em tatuagens de hena
vídeo de internet

Eu prefiro a morte que os xaropes
esses arrumados com roupas roubadas
usando facas em aparelhos dentários
detesto os otários
mesmo os imaginários

Na verdade prefiro sentar na beira do mar
com a cadeira da promoção
almoçar e deitar e acordar
com extrema ausência de percepção

Tomo doses de vinho de uma outra promoção
e goles gigantes de desinfetante
é o bastante para os livros das gestantes

Preciso de uma cláusula etérea
e que surja de quase todo infortúnio
essa luz no fim do túnel

Não há menor condição de aceitar essas condições
melhor calar do que falar de premonições
nesses setembros desolados
desses setembros abertos de camadas de ozônios
putinhas de calça leg
e mendigos de lápis crion

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Uma crônica de Rubens da Cunha

RUGAS: RUSGAS

A pele do rosto está seca. No canto dos olhos, rugas. Rusgas com a idade. Nada demais, lhe diz a razão. Cinquenta, o que são cinquenta anos para uma pessoa nos dias de hoje? Tratamentos, cirurgias, receitas, a juventude vem em cápsulas. Cinquenta anos não é nada. O futuro está todo pela frente, dizem as propagandas, as revistas, a TV. O mundo lhe diz isso diariamente, porém pela boca de gente cada vez mais jovem. Olha ao redor: as peles esticadas de algumas conhecidas, os implantes capilares de alguns conhecidos, o botox, o silicone, a academia, a dureza falsa das carnes, a felicidade comprada e exposta em cremes redutores de rugas e celulites. As tentações são muitas, a vida exige um lustre na casca, na aparência. Dinheiro pouco. Trabalhou demais, mas não dá para uma semana num spa. Como conseguiria um amor trinta anos mais jovem? Igual vê todo dia nas revistas. E não são apenas os artistas que estão fazendo essa viagem de retorno à juventude pelo corpo do outro. Quase todos os seus conhecidos estão fazendo isso: homens e mulheres rejuvenescendo-se nas carnes duras de ex-adolescentes. É uma experiência, se tivesse coragem, se tivesse menos culpa e menos pensamento. Se tivesse mais dinheiro, arrumava-se. Só a andadinha no final de semana não está adiantando, pois, além disso, tem que enfrentar a gula. Seu pecado maior. Não tivesse mãe que lhe desse tanto torresmo, tanta carne gorda, na infância, não teria agora tantos problemas para se livrar disso. Tem que comer saladas, verduras, legumes, o prato tem que ser colorido, dizem os aconselhadores na TV. Com que tristeza come mato e comida fria. Mas olha os corpos das modelos nas capas. Olha o corpo da atriz que tem a sua idade, olha o corpo da vizinha que é cinco anos mais velha, olha a saúde dos outros e mastiga com força e vontade o alface e a rúcula sem qualquer tipo de molho. Saudade da mãe e sua bacia de torresmo. Tenta esquecer um pouco a ditadura do belo. Trabalho ainda tem. Os filhos crescidos, mas não tanto. O marido alheio a tudo. Tanta coisa pra resolver. Se fosse à igreja? Se convertesse a uma religião qualquer? Lembra-se de quando fez isso e percebeu que mesmo na igreja o vestido mais bonito chegava mais perto do altar, o cabelo mais arrumado é que ganhava as benesses de Deus. Desistiu.“A vida segue para frente”, novamente a mãe lhe falando, “a gente tem que se contentar com o que tem”. Mas como? Se tudo ao redor insiste em fazer as pessoas descontentes. Se a roupa que se compra ontem é tão pior do que aquela que a loja colocou hoje na vitrine? Se tudo é magreza e juventude, conseguida naturalmente ou mandada fabricar numa mesa de cirurgia ou num laboratório qualquer? Está se irritando consigo mesma. Sabe disse quando começa a pensar demais e não encontra respostas. Também não consegue se aceitar. Aceitar seus cinquenta, aceitar as pequenas vitórias, felicidades, que esse corpo cansado carrega e carregará nos próximos cinquenta anos, que apesar da ditadura da juventude, não é pessoa de morrer antes dos cem.

terça-feira, 22 de junho de 2010

FITA - FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO DE ANIMAÇÃO



Por Marco Vasques

FITA: NOITE DE INTERNACIONAIS

Tenho reiterado que teatro é reverberação. E cada vez mais a arte cênica vem demonstrando que é luz. Que é o exercício de acender-se e apagar-se. Fênix é mesmo a dimensão poética da arte dramática. Uma peça teatral é um poema que se reinventa, porque neste poema é possível o ajuste do ritmo, da luz, da carne, da voz, do som, do silêncio, da cor e da carnação. Tudo para tocar o outro. Iluminar o outro. Tal qual Octavio Paz suspeitava da poesia, o teatro é máquina de transformação. A arte é a máquina de transformação necessária para nos purgar do mundo reto, pasteurizado, mecanizado e cheio de apascentadores de plantão. Na primeira noite do FITA (Festival Internacional de Formas Animadas), que acontece até o dia 27 de junho em Santa Catarina, tivemos um noite de luminescência. A noite foi dos espetáculos internacionais. Chile, Bélgica e Espanha foram os países que mostraram seus trabalhos na primeiríssima noite do FITA. Vamos a eles.

Construtores de mínimas imensidões

Do Chile, a companhia OANI, criada em 1998, com o objetivo de trabalhar com atores, bonecos e explorar distintas linguagens cênicas apresentou três pequenas narrativas-poemas via Teatro LAMBE-LAMBE. O Teatro de LAMBE-LAMBE também é conhecido como Teatro de Miniaturas. E não podemos esquecer das bonequeiras Ismine Lima e Denise di Santos que criaram o gênero Lambe-Lambe aqui no Brasil em 1989. O gênero é, seguramente, uma derivação dos fotógrafos lambe-lambe. As narrativas-poemas apresentadas pela companhia OANI, dirigidas pelo catarinense Luciano Bugmann, foram Amores de Puerto, Dia de Volantín e El perro Babarito. Os dois últimos espetáculos nos tocaram em especial. Dia de Volantín (dia de imaginar, voar) já que a tradução da palavra volantín, em português, é pipa. O espetáculo apresenta uma moça imersa no mundo da imagem repetida pela televisão. Após passar por inúmeros canais ela resolve abrir a janela da sala. Ao virar seu olhar para outra direção a moça viaja por imagens poéticas insuspeitadas, e, a nós, reféns da beleza, só resta viver o mundo feérico imaginado pela encastelada menina. A técnica usada para este espetáculo-miniatura foi a de sombras. Um espetáculo de 4 minutos capaz de ficar uma eternidade na pele. Já El perro Babarito apresenta uma cena cotidiana de uma senhora que limpa as sujeiras de seu cão. Irritada, ela dá ao cão uma poção para acalmar o bichinho. Após beber o líquido o cachorro também dorme e navega (literalmente) entre a fantasia e o pesadelo. A técnica utilizada na execução deste espetáculo é a de luz negra. A companhia OANI é construtora de mínimas imensidões algo incomum no mundo megalomaníaco em que nos encontramos. O grupo domina várias técnicas do LAMBE-LAMBE. E Matsuó Bashô revive: “Nesta noite/ninguém pode deitar-se:/ lua cheia.”


A filosofia do riso

O ator belga Stéphane Georis e uma cômoda. Este é o cenário do espetáculo Le Polichineur de Tiroirs. Nada mais se faz necessário para que o riso e indagação aconteçam. Nas gavetas da cômoda: todos os filósofos: Platão, Sócrates, Aristóteles, Tomás de Aquino, Kierkergaard etc. Nas gavetas da cômoda: uma infinidade de objetos que ganharão sua fabulação. Georis encara uma espécie de professor de filosofia e aposta na filosofia do riso. Transita entre os cínicos e os céticos. Inverte a pergunta de Diógenes e nos mostra exatamente onde está homem. Da filosofia do amor à metafísica ele vai dando vida e provocando riso a partir de alegorias e metáforas da nossa condição. Em um dos quadros criados por ele uma banana representa a lua, uma luva amarela (cheia de ar) o sol e uma laranja a terra ironicamente embrulhada em um papel azul que ficciona o ozônio. Neste quadro somos meros alfinetes espetados na laranja. Alfinete que será o responsável pela explosão/destruição do sol. Tudo em Le Polichineur de Tiroirs é exato, pensado. Toda a ação, mesmo as inúmeras improvisações, tem uma coerência interna e rítmica pouco vista em espetáculos desta natureza. Somos mínimos, mas cada homem é um sol. Somos rios libertos, mas nos encaixotamos. Outro quadro extremamente irreverente e profundo é o da criação do mundo. Eva, Adão e a Serpente são representados por uma banana, um pepino e pimentão respectivamente. A alegria deste mestre do riso e sua capacidade de manipular objetos é um ato puro de poesia, de encantamento. Le Polichineur de Tiroirs é um espetáculo universal e tudo nele acontece. Não há barreiras para que o jogo teatral se torne pleno e para que plateia e ator se comuniquem. O segundo espetáculo da noite de abertura do FITA lembra muito o que Brecht dizia “Nem sequer se deverá exigir ao teatro que ensine, ou que possua utilidade maior do que a de uma emoção de prazer, quer orgânica, quer psicológica”. Le Polichineur de Tiroirs nos apresenta prazer orgânico, psicológico e, ainda, nos revela o mundo tal qual ele é, como queria Barthes. Sim ao palhaço das gavetas e sua arte. Sim!


Um certo Don Juan


Há várias versões para as incursões amorosas do mítico Don Juan. Uma coisa é certa e muitos historiadores estão de acordo: seu primeiro relato se deu no princípio do século XVII. Há o Don Juan que estupra uma donzela e mata o pai; o que é um mulherengo inveterado e que se disfarça para ludibriar suas presas; o Don Juan envelhecido e sem forças. Este último é o do espetáculo Don Juan, Memória Amarga de Mi. O mito do galanteador já virou ópera, filmes, novelas, peças teatrais etc. Sua figura vive no imaginário popular e mesmo quem nunca tenha lido algo sobre ele sabe o que moveu sua vida: conquistar e amar as mulheres, todas que puder. O Don Juan que a Companyia Pelmànec, da Espanha, apresentou na abertura oficial do FITA é o velho sem forças e que tem que conviver com os seus demônios, suas conquistas e suas promessas nunca cumpridas. O espetáculo, diga-se já de saída, é impecavelmente bem feito. A iluminação e o cenário criam uma atmosfera de tristeza, de sofrimento e favorecem a entrada na psique de Don Juan. O espetáculo explora a solidão do velho Don Juan, que agora é visitado por todas as mulheres que amou/enganou. O ator/manipulador é de uma capacidade técnica pouco vista em atores/manipuladores e a direção do espetáculo, assinada por Maria Castilho, nos remete aos bons tempos em que o teatro era feito do encenador para o ator, do ator para o encenador. Contudo, parafraseando um espetáculo aqui da terrinha: nem tudo são flores se tu fores. O fato é que espetáculo Don Juan, Memória Amarga de Mi exige muito da fala, da língua. O público se mostrou impaciente em vários momentos por não compreender o que o ator/manipulador nos dizia. Neste caso, vai aqui uma sugestão para a organização: ou se coloca uma legenda ou se passa a selecionar espetáculos mais universais, em que a língua não seja um fator determinante para a compreensão do todo do espetáculo. Não podemos esquecer que o espectador não tem obrigação de saber outra língua. E neste caso, podemos assegurar, mesmo que o ouvinte tenha estudado a língua espanhola perde parte do que é dito, dada a velocidade com que o texto foi à cena. Porém, cabe reafirmar que o problema é apenas de decodificação da língua. A decodificação dos elementos primordiais e universais do teatro, postos em cena pelo grupo com extremada sofisticação, foi possível. Memória e sentido. Desejo e impotência. Prisão e liberdade são os temas desse Don Juan que vive num mosteiro com um padre glutão e seu acólito com propensão a doublé de Don Juan. A primeira noite do FITA foi de poesia e partituras poéticas perfeitas. Fomos do haicai ao épico. Então fica aí a sugestão para a semana toda: vá ao FITA.

domingo, 20 de junho de 2010

Uma crônica de Rubens da Cunha

A CORAGEM DOS FINAIS

Assisti nos últimos meses uma sequência de filmes que me chamou a atenção pelos seus pontos em comum: eram norte-americanos e tinham finais corajosos. Os Estados Unidos, como se sabe, imperam quando o assunto é cinema, sobretudo, esse cinema mais comercial. Sempre foram mestres nesse aspecto. Talvez por isso as transformações ocorridas em seu cinema sejam o melhor retrato da nossa sociedade contemporânea. Penso que o cinema norte-americano ficou, em sua imensa maioria, absurdamente superficial como uma resposta à superficialidade do nosso tempo. Superficialidade, aqui entendida como uma espécie de preguiça, de costume em receber tudo devidamente digerido, como se fôssemos eternos filhotes de passarinho recebendo a comida na boca. É visível que “mastigar”, “digerir”, muitas vezes “ruminar” uma informação, uma cena, um final de filme trata-se de um esforço demasiado para a maioria das gentes. Dos filmes que eu vi, dois jamais seriam filmados hoje com o mesmo roteiro (não falo aqui de atualizações normais como o tempo, o espaço ou a técnica cinematográfica, mas simplesmente da manutenção da coragem dos finais). O primeiro é “Black Christmas” um terror mediano, que foi lançado 1974, dirigido pelo homem que deu ao mundo o primeiro e o segundo “Porky’s”. A coragem desse filme está em enganar os personagens e, consequentemente, o público, deixando inúmeras possibilidades em aberto na cena final. Eis algo que não é mais permitido pelo público médio: um final aberto, que não resuma, que não entregue e finalize bem finalizada a questão. Talvez o último grande final de um filme norte-americano tenha sido “Seven”, e lá se vão 15 anos, quando naquele saudoso 1995 David Fincher nos mostrou o que era coragem. “Black Christmas” teve uma refilmagem em 2007, pelo trailer e pela sequência final que está no Youtube, o assassino é devidamente revelado e assassinado pela mocinha sobrevivente, enfim, mais do mesmo. Outro que seria impossível de ser filmado nos dias de hoje é o clássico “Os Pássaros” de Alfred Hitchcock. O filme não apresenta motivos para o ataque dos pássaros e também não apresenta nenhuma solução humana para a situação. Pensando na possibilidade de “Os Pássaros” ser um filme inédito, só essa falta de motivo e essa falta de explicação no final o lançaria no inferno do prejuízo. O público de hoje se recusa a não receber os motivos e as explicações devidamente prontinhas para a viagem. Não falo de que o cinema tenha que levantar sempre questões filosóficas inacessíveis, mas também não precisaria ser tão raso, tão fácil de se adivinhar tudo o que vai acontecer, com meia hora de antecedência, algo que está acontecendo em pelo menos 90% dos filmes norte-americanos, sejam de que gênero for. Assim, para quem não quer ser alimentado na boca com ideias mastigadas, resta apenas ir para o outro lado do mundo, lá no Japão e na Coreia, que é de onde estão vindo os cineastas com colhões para impor ao mundo o que é cinema feito com coragem e criatividade. Só que o sistema é cruel, pois muitos desses filmes já estão sendo refilmados pelos EUA, adaptando-os, claro, para a superficialidade dos nossos tempos.

José Saramago

Mais um dos grandes se vai, mas fica sua obra definitiva e alargadora da Língua Portuguesa. Em 2005 escrevi essa crônica:

Eu traí José Saramago

Sou um leitor apaixonado. Saramago sempre figurou entre os meus escritores preferidos. O estilo denso, a prosa meteórica, plena de discursos indiretos, suas histórias fincadas no absurdo, e de lá, da irrealidade, daquele mundo onde uma cidade fica cega, onde a Península Ibérica se torna uma jangada, ele expõe nossa sociedade conturbada, injusta, desagregadora. Tudo com personagens delicadamente fortes e poéticos. Por isso, eu sempre amei Saramago. Há um mês, quando comecei a ler ‘Memorial do Convento’, deu-se início a minha traição. Este é o primeiro livro dele que não chegou em mim, que não me envolveu, não me arrebatou, não me convenceu. O primeiro livro de Saramago que eu não gostei. Protelei a leitura, esqueci o livro pelos cantos, abri outros. Fiquei com vontade de desistir de Saramago. Não podia fazer isso com quem amo. Tentei reler os capítulos, conhecer melhor Blimunda, Baltazar, o padre Bartolomeu e seu sonho de voar em plena inquisição. Pouco adiantou. Aconteceu o que jamais imaginei possível: tornou-se penoso ler Saramago. Se a matéria-prima que ele normalmente usa está no livro: a linguagem, os personagens, a temática, um narrador cheio de opiniões, então o que aconteceu comigo, entre ‘A Jangada de Pedra’, o último romance de Saramago que li, e este ‘Memorial do Convento’? Não sei. O que sei é que todo traidor tenta encontrar explicações para amenizar sua culpa. Quando tomei consciência, lá pela décima página, de que “Memorial” não seria prazeroso, eu já maquinava explicações para me salvar. Primeiro num auto-engano leve, dizendo-me: “calma, segue mais adiante, logo você e ele retornarão àquele diálogo esfuziante dos outros livros. Logo o Saramago vai te levar em alturas nunca antevistas, nunca falhou nisso, por que falharia agora?” Depois, quanto mais me aprofundava no livro, e paradoxalmente, mais minha alma se afastava dele, outras desculpas vieram: seria uma expectativa exacerbada em mim, surgida do fascínio com que a poeta e amiga Dúnia de Freitas me falava dos poderes sobrenaturais de Blimunda; ou o fato de que eu ainda não estava psicologicamente recuperado da recente leitura do “O Fiel e a Pedra” de Osman Lins. Tudo desculpas falhas: Blimunda é uma das grandes mulheres da literatura mundial e eu não sou um leitor frágil, que se exaure quando termina um livro, por mais atordoante que este possa ser. Já abandonei muitos outros romances pelo caminho e nunca tive a sensação de que estava traindo o autor, desprezando a obra. Por amar demais a literatura de Saramago, por saber que a beleza de “Memorial do Convento” está lá, inteira, apta para os meus sentidos, é que me redimo de meus pensamentos traidores não exercendo o direito de não gostar de um livro. Culpado e sem entender o real motivo de não conseguir me envolver com a história, seguirei lendo até a última página. Por teimosia. Por amor.


p.s. - apesar do texto dizer que eu seguiria na leitura, a traição aconteceu: eu desisti de Memorial do Convento, um dia eu volto a ele.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Quem vem Palavrário



Salim Miguel

Dia 16 de junho às 18:30 na praça Vidal Ramos

Nascido no Líbano, em 1924, Salim Miguel aportou no Brasil em 1927, indo morar com os pais libaneses em Santa Catarina. Passou a infância e a adolescência em Biguaçu, município da Grande Florianópolis. Seu casamento com a escritora Eglê Malheiros deu-se antes da estréia literária (Velhice e outros contos, 1951). “Ela sempre foi participante em minha obra: primeira leitora e mais exigente crítica, papel que agora se acentuou”, comenta Salim. Entre 1947 e 1957, Salim Miguel participou do Grupo Sul, de Florianópolis; de 1976 a 1979, foi um dos editores da revista carioca Ficção; entre 1983 e 1991 foi diretor da Editora da UFSC; e de 1993 a 1996 dirigiu a Fundação Cultural Franklin Cascaes. Renomado jornalista, tem 25 livros publicados, entre contos, romances, crônicas e depoimentos


Dennis Radünz
Dias 16 e 18 de junho na praça Vidal Ramos

Dennis Radünz nasceu em Blumenau (SC), no vale do rio Itajaí-Açu, em 9 de abril de 1971, e hoje vive em Florianópolis.Coordena a editora Lábias e co-traduziu, com Lia Carmen Puff, o livro de poemas infantis do naturalista alemão Fritz Müller (1822-1897), História Natural de Sonhos/Naturgeschichte der Träume (Florianópolis: Nauemblu, 2004), considerado “altamente recomendável/categoria tradução” pela Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil (FNLIJ).É autor dos livros: Exeus, 1996 - (Florianópolis: UFSC / Letras Contemporâneas) Livro de Mercúrio 2001 - (Joinville: Letradágua), Extraviário 2006 (Joinville: Letradágua) e Cidades Marinhas, Solidões Moradas, 2009 (Ed. Lábias).



Flauta sem Boca por Ronaldo Augusto


Lançamento dia 17 de junho

Fundação Cultural Badesc

Editora Letras Contemporâneas, 70 páginas, R$25,00

Prefácio: Péricles Prade

Posfácio: Luis Serguilha


UMA LUZ POSSÍVEL
Por Ronald Augusto

Marco Vasques volta mais feérico neste Flauta sem boca, seu pathos imagético se instala desta vez — à diferença de Elegias Urbanas, livro de 2005 —, por assim dizer, numa “nervura teimosa” de versos, ou versículos, mais extensos. As questões que obsedam o espírito do poeta retornam à cena. Observamos um artista que afivela personae trágicas, e enquanto põe a nu seu coração defunto por meio de “uma língua que não come hóstias” se vê implicado nos horrores que mais registra e recria do que denuncia. Neste pequeno conjunto de longos poemas, Marco Vasques nos coloca diante dos destroços do tempo e da anomia presente que soçobram à tona da linguagem. E mais uma vez, aqui e ali, enfiamos pelas formas do manicômio, do hospital, do hospício, da necrópole, etc, imagens especulares dos nossos territórios urbanos.
Flauta sem boca é música calada. Mas o oximoro do poeta e místico San Juan de la Cruz, pode ser tomado tão só como um ponto de partida. Noutra direção, dir-se-ia que Marco Vasques busca em seu livro a figura de uma música falhada, fraturada. Amputações de sentidos, de anseios. Pois essa música de que se ouve apenas o seu silêncio, símile da voz dos afogados se resolve, ao fim e ao cabo, na exasperação da própria incongruência: aqui é um violoncelo tocado a dentes, ali um violino ao som da saliva, mais além “a última nota [que] jaz na corda...”, etc. Como os mundos ínferos da Commedia de Dante, o mundo que nos é ofertado pela poesia de Marco Vasques é um mundo mudo de luz. Mas talvez em Flauta sem boca ainda reste uma luz, aquela de que falam os versos de João Cabral de Melo Neto no narrarem as últimas horas de Frei Caneca no Auto do frade (1984); a gente nas calçadas, aguardando o momento da execução, diz que ele “Veio do século das luzes,/ para uma luz de branco de osso”. A luz silenciosa, muda; a luz possível de ser desentranhada de Flauta sem boca: o enquadramento metonímico do esqueleto na lâmina escura de uma radiografia. Sem esperança, sem temor.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

Uma crônica de Rubens da Cunha

DA SÉRIE: CASAMENTOS E SUAS METÁFORAS

– Vai ser bom, caminhada, ar puro, nós estamos muito sedentários, e eu estou um pouco acima do peso.
Eu disse que sim para não ter que explicar a ela por que tinha rido, além disso, ela não saberia o que é auto-engano. Agora, estamos aqui caminhando, tentando voltar à estrada principal onde deixamos o carro. Perdidos, claro, estamos perdidos. Engraçado é que ela não reclama. Eu me excito ante um pensamento vil: matasse ela aqui, quem saberia? Matava e pronto. Olho o imenso corpo dessa mulher e me excito mais frente a outro pensamento vil: eu é que vou me matar, afinal, como esconder essa coisa gigante, olha isso? Não que eu seja a magreza modelo, mas tenho noção do que sou. E quer andar de mão dada. E não me desgruda nunca.
– Vamos por ali, a estrada é do outro lado daquele morro.
E seguimos, ela pisa sobre os arbustos, eu tenho pena dum pé de mata-pasto. Pobre planta, aleijada para sempre. Ao nosso redor apenas uma capoeira sem fim. Mas eu podia matar. Podia sim. Mas com o quê? Só se a gente retornar noutro dia, daí venho antes, trago as ferramentas, quando passar por aqui, pego a pá, meto na cabeça dela, já abro o buraco e pronto, me livro da elefanta. É um bom plano, pena que depois de hoje, dessa andada toda, ela não vai querer voltar aqui. Nem bonito esse lugar é. Eu podia voltar aqui pra me matar. Mas esse lugar nem árvore tem pra pendurar uma corda, só esses pés de Silva, esses Paus de Chuva. Eu queria saber como a gente se perdeu aqui?
– A estrada não deve estar longe.
De novo isso? Eu sei que a estrada deve estar em algum lugar perto daqui, gorda miserável?
– O que você disse?
Eta! Que ela ouviu, nada amor, tava xingando um espinho que me espetou a canela. Um espinho gordo. Está anoitecendo, coisa estranha, a gente não andou tanto pra dentro do mato assim pra se perder. Entramos naquela estradinha, seguimos até o alto do morro, depois descemos, demos uma caminhada na beira do rio e voltamos. Você não acha estranho a gente se perder aqui, num lugar tão sem graça? Ela me olha, tem um sorriso fixo na cara.
– Não, não acho estranho. A estrada deve estar ali perto. Vamos andar mais um pouco.
Por que ela está rindo? Eu já passei por aqui. Esse é o mata-pasto aleijado. A gente está andando em círculos.
– Não, a gente não está. A gente está indo em direção à estrada.
Escurece, a estrada não chega, tento insistir para que a gente pare, descanse, entenda o que está acontecendo. Por que não saímos do lugar, deste lugar? Não me ouve mais, nem desgruda mais da minha mão.
– Vem, é por aqui, ali do outro lado fica a estrada. Não dorme não, não senta não, caminha, caminha, porque não devemos estar longe da estrada...

terça-feira, 8 de junho de 2010

Um poema de Antonio Carlos Floriano

POEMA RECRIANDO ARY NAGEL

sopro de um cuspe em jejum
lava minha ferida
passo um pano e ateio fogo no braço
língua de aço na dor

palavra torcida no ferro da bigorna
na veia saltada do braço
do ferrador de cavalos
de rudeza cruel e olhos de sangue

esses eram eu
da mesma comida comíamos
dividíamos um quarto alugado
homens duros e devotos

eu me pergunto
qual dos dias tenho lembranças
qual estivador ou calafate eram realmente eu?

sempre que o outono desembarca nesse medrado de cais
surge a palavra impertinente
na boca das primeiras prostitutas a bordo


seria imperfeito trazê-las
presas nas tatuagens
dos marujosembarcados
famintos de saliva quente

essas memórias salvam os suicidas
os alcólatras irrecuperáveis
os maconheiros os putos os cheiradores

plantados no vento do cais do porto
longe da política pública de cargos e verbas
longe da infâmia e do conforto
erguem levantes a porrada

cuido de mim quando posso
a surdez parcial me assombra
tenho medo de ver o que realmente fui
cantor embarcado estivador calafate

Poema de Dennis Radünz do livro inédito OSSAMA

LIQUIDAÇÃO


1/ [a mercadoria]

se nos anunciassem
o rim¦o rosto¦a ossamenta¦
o ser intérmino¦o ser cesso¦
o sol¦o soro¦as serotoninas
como se sêmens e os insumos
no de mercar invalidassem
o repovoo dos produtos
mas nos cruzasse a Mercancia

e nos lucrassem-liquidassem
(uns apresados pelo preço
sob o rastreio das rotinas)
nos refugados das cidades
onde os sedados subsolam
em beberagens¦rebentinas
ou insonoros se desossam
entre os dormidos da ermida


2/ [consumação]

acalmaríamos as marcas
e as modas-domas na acalmia
(entre as ilhas de calor
e as áreas de anomalia)
ou conteríamos o impulso
de revelarmo-nos no fogo
dos esqueletos repentinos
das estações desorbitadas

nos trocaríamos os corpos
(os saqueados pelo custo
e expostos fora da feição)
no emoliente das medulas
e compraríamos silêncio
e o uso exato do respiro
e escutaríamos nas torres
os sinais do Intransmissível

como se não comerciassem a queima¦o estoque¦os rebentos
e a rede não irradiasse o rendimento das placentas

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Um poema de Marco Vasques

MANHÃ
Para Wilson Bueno

um pássaro mudo
nasce na minha mão esquerda
um pássaro mudo

o canto tatuado na garganta
é o voo andarilho
que para na manhã

olho morto
no andaime da esquina
:cadafalso para pássaros:

na manhã nasce
tatuado na minha mão esquerda
um pássaro mudo
um pássaro mudo

domingo, 6 de junho de 2010

Um poema de Peter Poulsen

SE EU FOSSE HAMLET


Se eu fosse Hamlet
comprava flores para Ofélia, goma de mascar inglesa,
transístor com fones de ouvido,
champanhe, palitos –
e a convidava para viajar
a Florença ou Roma.

Se eu fosse Hamlet
dava de presente a ela uma gaiola cheia de pipilantes tentilhões
um par de patins de estrela do gelo
uma permanente para os aerobarcos suecos.

Se eu fosse Hamlet
me concentrava na minha vida amorosa
em vez de ficar a remoê-la por aí;
loteava Kronborg
em apartamentos de condomínio,
e ia morar numa casa em Fiolgade
- talvez comprasse até um colchão de água -

Se eu fosse Hamlet,
mandava às favas todas as especulações sombrias
e seria mais do que sou agora,
em vez de ficar só pensando a respeito
e fazendo longas preleções sobre.

Não me intrometeria mais na vida sexual de mamãe,
se eu fosse Hamlet.
Admitiria logo que o velho está morto
e não ia mais perambular pelas noites escuras atrás de um fantasma
que no coração só tem vingança.

Se eu fosse Hamlet,
deixaria Polônio ficar atrás das cortinas
tanto quanto lhe desse na telha:
afinal de contas, é só um velho gagá –
e me recusava a andar, fosse onde fosse,
com tipos tão ridículos quanto Gildensfúncio e Rosentonto
ou como quer que se chamem –


Se eu fosse Hamlet,
ia farrear com Horácio
beber chope com Frank Jaeger,
jogar dados com marujos nalgum boteco de porto,
andar com donas suecas,
mandar tatuar no braço:
Ophelia, I Love You,

logo abaixo de um
coração em chamas –

isso se eu fosse Hamlet.

(Peter Poulsen: tradução de José Paulo Paes)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Poema de Cristiano Moreira

olho de loiça



escrever na chuva sem tempo

é depositar na água impressão dum beijo

e esperar na janela aberta o estio

no punho seco do toureiro à beira rio


um poema no escuro do escritório

segue o cortejo das vozes vivas

que não estão na casa, não nesta

solta no mesmo vento palavrário


dançado na chuva, o poema,

ainda não escrito, sem que se ouça

na chuva em silêncio sem o corpo

inscrito no olhar boiado, olho de loiça.


quarta-feira, 2 de junho de 2010

Homenagem a Wilson Bueno



Por Marco Vasques




Amigos: pensei em escrever um texto sobre o amigo Wilson Bueno, sobre alguns de nossos encontros literários, as conversas sobre parar de fumar. Essas coisas: os inúmeros e-mails trocados, a estupidez de sua morte, a estupidez da morte, a violência gratuita, enfim, sobre o absurdo de existirmos do modo como existimos. Contudo procurei nos meus arquivos e resolvi partilhar com vocês a última entrevista que fiz com Bueno. Presto esta honemagem com uma orquestra fúnebre no coração.


Bolero’s Bar, seu primeiro livro, causou impacto em vários escritores. João Antônio, por exemplo, ficou tão impressionado que escreveu um ensaio de duas páginas no jornal O Estado de S. Paulo assim que o livro saiu. Já nesse livro inicial, você une poesia, conto e crônica. Como você classificaria essa obra? Qual a importância dela na sua trajetória?
O velho Bolero’s..., como eu costumo chamar – que terá, agora, no início do ano, sua primeira reedição, revista e ampliada, pela Travessa dos Editores, do meu amigo Fábio Campana –, se constituiu em minha tardia estréia literária, com quase 38 anos. A nova edição, por sugestão de Jamil Snege, foi desdobrada em dois volumes – o Bolero’s Bar propriamente dito e Diário Vagau – abrigando, ambos, textos inéditos mas, se assim podemos dizer, da mesma família. É um livro inaugural em vários sentidos – primeiro porque atende à insistência com que Paulo Leminski desejava que eu estreasse em livro, ele que me acompanhava as escriturações obsessivas desde o começo e, até ali, com um fervor raro nele diante de qualquer autor que ensaiasse os primeiros vôos. Para me convencer a publicar o livro, que acabou saindo em dezembro de 1986, pela Criar Edições, de Roberto Gomes, me prometeu até mesmo um prefácio, outra coisa bem desusada na carreira dele. Contam-se nos dedos de uma só mão, e se tanto, os prefácios que o velho Pablo assinou. Gosto demais do que ele acabou criando para o Bolero’s... Um texto que a vaidade me diz ser definitivo e consagrador – “Bueno’s Blues Band & seus boleros ambíguos”. Trata-se da reunião de textos de diversos tempos e modos, o que acabou resultando num livro importantíssimo, para mim ao menos, porque, antes de tudo, me desvirginou, digamos assim, para a literatura. Perdi o medo do objeto livro e me joguei na vida da escritura como quem se atira do 13o andar. Sim, você tem razão: ali já estão o germe, as sementes de um hibridismo prosa/poesia que haveria de ser a marca de todos os meus demais livros. Classificar Bolero’s...? Acho que Bolero’s Bar é inclassificável – no amplo sentido da palavra. João Antônio, no texto a que você se refere, publicado em O Estado de S. Paulo, lembra justamente esta questão. Diz, entre outras coisas que muito me honram e que à época muito me ajudaram a prosseguir, que a crítica jamais poderia chegar ao Bolero’s... com as armas, o arsenal de que dispunha. Que o Bolero’s... era um livro absolutamente inclassificável. E, não tendo como defini-lo, cravou para ele uma classificação dele, particular, intransferível, e que as pessoas estão sempre lembrando: chamou-o de “autonomias” e vivia alardeando que eu criara um novo gênero literário – “as autonomias de WB”... Veja, você, como são as coisas...

Em alguns textos de Bolero’s Bar, há referência a uma adolescência tumultuada, errante e sempre muito próxima da literatura. Você pode falar um pouco sobre esse período?
Olha, eu comecei a publicar, acredite quem quiser, aos 12 anos de idade. Fui uma espécie de adolescente-prodígio de Curitiba. A minha adolescência foi uma adolescência literária por excelência, ainda que eu não haja descuidado nunca da vadiagem das ruas, do futebol dos campinhos baldios, no tempo em que existiam campinhos baldios em Curitiba... Havia uma professora de francês do colégio Rio Branco que, apesar das excelentes notas nas provas, diante dos meus proverbiais “desregramentos”, costumava dizer: “Wilson, tu sais un ange en forme de diable”... Aos 15 anos, eu já era contratado do mais importante jornal do Paraná, a Gazeta do Povo, publicando os meus textos todo domingo, na página literária do jornal, ao lado, entre outros, de Dalton Trevisan, já então um nome nacional e de alto coturno. E, pasme, numa atividade rigorosamente remunerada. Eu, que era office-boy e ganhava meio salário mínimo (naquele tempo os menores ganhavam meio salário mínimo) para trabalhar das 8 às 18, me vi, de repente, ganhando aí uns dois salários mínimos integrais só para escrever um texto de trinta a quarenta linhas por semana. Nunca mais quis saber de outra atividade... Poucas vezes revelei (e, nas vezes em que revelei, não sei por que não publicaram, até mesmo na Gazeta do Povo): olhe, eu devo a minha estréia em jornal, aos 15 anos como já lhe disse, ao Dr. Francisco da Cunha Pereira Filho, o diretor da Rede Paranaense de Comunicação, a RPC, que leu meus textos infanto-adolescis e, os aprovando vivamente, abrigou-os em seu belo jornal. De lá até aqui, a esta altura do campeonato, dobrando já o cabo da Boa Esperança, aos 55 anos, espero não tê-lo decepcionado...

E a infância?
Uma coisa absolutamente mágica. Até os 6 anos, eu vivi em Jaguapitã (que quer dizer cachorro vermelho, em guarani), cidade do norte do Paraná, a uns cinqüenta quilômetros de Londrina, me espojando nas areias das ruas, subindo em árvore, correndo de cachorro, assaltando o pomar dos vizinhos, me aventurando nos pequenos rios, pescando lambari com meu pai e meus tios. Mesmo com essa idade, minha mãe, dona Cida, me levava quase todos os dias ao circo. Não preciso dizer o que aquilo tudo me fascinava – os palhaços, os dramalhões encenados pelos artistas circenses, os malabaristas, os mágicos... E o sempre terror dos ciganos – salteadores e ladrões de crianças que se aventuravam nas ruas... Uma coisa hilária que nunca me saiu da cabeça: no drama A escrava Isaura, que vi, aos 6 anos, umas oito vezes, os escravos eram atores loiros, acho que de Curitiba, com o corpo inteiramente pintado a carvão... Essas e outras – e digo outras porque depois tem o cinema, já em Curitiba, onde chegamos em 1955, eu com quase 7 anos de idade – influíram e continuam influindo muito em minha literatura...

Seria acertado afirmar que você, como muitos outros autores, é fruto do fervor literário curitibano dos anos 60 e 70?
Deixei Curitiba em 1968 e só retornei em 1980. Foram doze anos no Rio. Todos os anos 70, em bloco e em peso, todo o Maio de 68 e a ditadura e a junta militar e o AI-5. Todo o make love not war, as dunas da Gal, sex, drugs and rock’n’roll. Estive muito próximo dos Dzi Croquetes. Fui preso pelos militares. Assinei, em intervalos os mais despirocados, uma coluna no emblemático jornal Tribuna da Imprensa dos anos de chumbo. Tinha a vaidade de os meus vinte e poucos anos (e como somos vaidosos nessa idade, né?) assistirem ao meu nome estampado em letras enormes no generoso espaço que eu possuía no aguerrido diário de Hélio Fernandes. Sob censura prévia, claro. Driblando os milicos-censores, driblando o Estado policial, fugindo de blitz e dormindo na praia ou declamando poemas dúbios aos brancos luares das pedras do Arpoador... O fervor literário a que você se refere, o fervor curitibano, eu o peguei, sim, baixo as caldeiras ferventes do meu saudoso e nunca esquecido compadre Jamil Snege (não batizei até hoje o Daniel Snege, que está com mais de 35 anos, mas é como se eu o tivesse batizado), e até debitaria, não propriamente ao “fervor” mas à madura amizade com Snege, o começo de tudo. A leitura de livros essenciais, as primeiras inquietações, os primeiros ensaios para valer com a literatura, eu os devo, em muito, à interlocução com Jamil Snege, embora o Paulo tenha sido uma pessoa importantíssima em minha vida, mas de um outro modo e de um outro jeito. Só tive coragem de dar uma banana à então pérfida província (Curitiba há menos de trinta anos era uma aldeia, cidade cartorial e retrógrada) sob o impulso, o estímulo e o incentivo de Jamil Snege. Foi duro, quase terrível, eu diria, deixar tudo aqui, mas eu fiz isso porque tinha certeza de que, se eu aqui ficasse, provavelmente não teria sobrevivido – morto exclusivamente de perplexidade e susto.

Em Cristal, a personagem Velha, carregada de angústia e solidão, vê o mundo se esvaindo através de uma janela, e certamente reside aí uma metáfora do olhar. De um modo ou de outro, todos nós somos personagens desse roteiro findo que é a vida. Você pode falar um pouco sobre a construção dessa obra?
De todos os meus livros, eu diria que Cristal foi aquele em que mais obsessivamente apliquei o meu método de reescritura de textos... Trabalhei arduamente, flaubertianamente, em cada frase, em cada parágrafo. Tudo ali é pensado, até mesmo o mais inocente travessão. Eu pretendi, em Cristal, não só esgotar as possibilidades, as minhas, evidentemente, dos recursos “clássicos” da língua, digamos assim, como também propor, quem sabe, uma metáfora da ditadura militar brasileira... Alguma coisa que ocorresse/corroesse por dentro, desde a visada de uma velha em sua janela. Todas as coisas – não sei se você observou – estão imersas numa atmosfera sombria, funérea, aziaga, ao mesmo tempo que a cor é um elemento muito presente ao longo de toda a novela. Muita cor, muito tecido, uma carnavalização estertorada e estertorante de tudo e de todas as coisas, subsistindo, por baixo, a dor, o desconsolo, a ausência de perspectivas... Roberto Echavarren, o grande crítico e poeta uruguaio, costuma dizer que Cristal seria um título que William Faulkner assinaria embaixo, sem a menor hesitação... Será? Realmente, quando escrevi Cristal, eu estava absolutamente impactado pela obra de Faulkner – de Santuário a esta inenarrável obra-prima que é As I lay dying (Enquanto agonizo). Todo o livro é vazado nessa ambiência ditatorial, autoritária, provinciana. A Velha é dura e rija; rija e dura é a sua cama; dura e rija é a sua vida que olha.

Sim, percebi a aspereza, a dureza e também a crítica à ditadura. Há um agonismo constante em Cristal...
Sem dúvida. Há até quem o chame de um martirológio estético... Mas foi o efeito que eu pretendi mesmo, desde o início, desde a primeira concepção do romance... Há uma certa solenidade ali, também proposital. Não confundir com ausência de humor, mas um dado, uma pegada que quase obscurece o humor e amplia essa solenidade, esse trato sofisticado de “uma” linguagem... E o que foi o “discurso” da nazi-fascista ditadura brasileira senão todo ele em torno do solene, do retórico, do paranóico e do desesperador? Há uma “nóia”, linha a linha, ali... Ou, ao menos, eu pretendi que houvesse... E, como você sabe, o inferno está cheio de (boas) intenções... A Velha como uma resistência armada e belicosa, Ananias como a inocência e Ique como um anjo caído, caído pela existência, se é que posso me expressar desse jeito... A Sirigaita é o melancólico contraponto de uma alegria que poderia ter sido mas não foi... O personagem principal de Cristal talvez não seja a Velha, mas o alemão de mil nomes estrebuchado a morrer, a morrer sempre, de boca em boca, de pronúncia em pronúncia; como em música, baixo contínuas (baixo(s)-contínuo(s)) variações sobre o mesmo tema...

Em Cristal, você usa um recurso que se repete em Meu tio Roseno, a cavalo: a (des)construção constante do nome do personagem. A impressão que fica é que você multiplica o personagem até chegar ao leitor como próprio personagem. Meu tio Roseno, a cavalo consiste em uma intertextualidade com a obra de Guimarães Rosa. Você não acha esse recurso muito “perigoso”?
“Perigoso” por quê? O diálogo com autores do quilate de Rosa, Machado de Assis, Clarice Lispector será sempre um diálogo frutuoso, você não acha? Bernardo Carvalho, num texto muito oportuno sobre nosso tio humilde, lembrou que uma das grandes qualidades do livro era justamente essa interlocução. E que ela passava um dado essencial que vem se perdendo em literatura, em qualquer literatura – a alegria de criar, a epifania do texto, o gosto e o gozo da arte que sabe dizer o seu nome e que sabe dizer a que veio... Claro, hay que tener algum talento para que essa conversa não caia num vazio medonho ou mesmo não frutifique... Talvez nesse sentido seja perigoso, conforme você denuncia – quanto melhor e mais importante o escritor, maior e melhor terá que ser o diálogo, a interlocução (ou a intertextualidade, para usar essa palavrinha enjoada e meio pedante) com o autor que eventualmente viermos a escolher, você não acha? Quem se habilita, por exemplo, a interagir com Shakespeare?

O perigo de que falo refere-se justamente à possibilidade de se cair num mero pastiche, o que não acontece no seu caso. Mas muitos autores que seguiram por essa vereda não atingiram sucesso. Basta ver, em Curitiba, e em outros estados também, o efeito Leminski?
Mas o efeito Leminski, como você coloca com muita propriedade, é diluição. Diluição é esgotamento de sentidos, é repeteco obsessivo, é até, por força da imitação, do empastichamento, uma ausência do sujeito da influência... Uma anulação, até mesmo, da referência, o que sugere um contra-senso, mas não o é... Tanto em nosso tio humilde (Meu tio Roseno, a cavalo) quanto em Amar-te a ti nem sei se com carícias, o que há é um ensaio crítico da linguagem através da apropriação dessa mesma linguagem... Uma coisa muito distante, mas muito distante mesmo, da diluição leminskiana que se observa hoje em quase todo o país. Leminski virou um ícone, uma lenda... E, como toda lenda, em vez de suscitar “pensamento crítico”, no bom sentido da palavra, desperta paixões... E a paixão, a paixão deste ângulo e modo, é uma coisa tanática, estéril e escandalosamente narcisista; infantil, eu diria... Não eleva nem constrói...

Você conseguiu, em Cristal, tratar da ditadura sem cair no planfetarismo. Por falar nisso, o que você tem a dizer sobre a literatura engajada? Toda literatura é engajada, como acentuou Sartre? E a ditadura não se manifesta hoje sob falsos lençóis brancos?
Tenho, e sempre tive, um sagrado horror do realismo socialista, aqueles tijolaços stalinistas mediocrões e insuportáveis, esquemáticos, burros... Lembro que li, por influência de amigos, aos 16 anos, um livro horrendo, chamado, veja só, Cimento, de Gladkov... Não precisa dizer mais nada, né? Atravessei aquilo, umas quatrocentas páginas, vencendo o tédio e a suprema irritação ante aquela autêntica antiliteratura... Posso lhe afiançar que começou ali a minha verdadeira alergia a todo naturalismo, a todo neonaturalismo, a toda arte-reportagem... Ora, ou a arte é arte ou é reportagem! Literatura para mim é sedução, exuberância, magia, feitiço, bruxedo, trato com a linguagem, fraude, arapuca, armadilha, em busca, de novo, de um rendimento máximo do expressivo. Não, jamais essa coisa “congelada”, conservadora – dêem a ela o nome de “arte engajada” (à esquerda ou à direita, não importa, no tempo em que ainda existiam esquerdas e direitas) ou o nome que melhor convier a essa gelatinosa artimanha... Sim, Sartre está certo. O meu engajamento é, por exemplo, o da busca de um máximo de tensão naquilo que eu quero dizer. Toda experiência é inevitavelmente uma experiência empenhada em defender a sua natureza essencial, e escrever não é diferente disso... Agora a minha escolha, a minha opção, o meu “engajamento”, são um partidarismo, sim, um partidarismo a favor da Literatura... Cada qual se avenha com o engajamento que lhe falar melhor à alma. Literatura pede muita sinceridade, sinceridade de propósitos e sinceridade de intenções... Não vejo ditadura em lugar nenhum, à exceção do velho discurso autoritário que sempre foi o discurso de nossas elites... Mas não podemos chamar esse discurso de ditatorial... É autoritário, não passa disso... Mas, contra as regras, eu professo a adesão a todos os desregramentos...

Tenho lido muitas críticas favoráveis às suas obras nos mais variados jornais e revistas do país. Não dá um certo temor esta unanimidade da crítica?
Sei, ou penso que sei, rigorosamente, o que estou fazendo. Falar bem ou falar mal não é comigo. A minha função, a minha obrigação ética perante a vida é fazer o meu trabalho. O meu projeto literário não é uma coisa de agora; vem de muito longe, uma coisa maturada e sofrida, e muitas vezes de uma solidão que dá nojo... Está claro que obter a boa recepção crítica, que invariavelmente ocorre com o meu trabalho, é muito estimulante. Mas, creio, não sou só eu a merecer esta espécie de unanimidade crítica hoje, no Brasil – há o Hatoum, o Bernardo Carvalho, para só ficar em dois grandes nomes da moderna prosa brasileira. Há mais, bem mais...

Já que estamos falando sobre crítica, qual a sua função?
Eu considero a crítica, a reflexão sobre o que escrevemos, uma coisa muito, mas muito nobre. Mas será sempre uma leitura particular, com uma recepção toda própria e particular. O livro que escrevi jamais será o livro que você leu, por exemplo. O livro de minha autoria que você leu (e me rejubilo com isso e aí estão centrados todos os meus esforços) terá que ser o seu livro, a sua reinvenção de minha viagem, senão já não será mais literatura – a mais fabulosa das fabulosas ampliações da imaginação humana.

O narrador do livro Amar-te a ti nem sei se com carícias, em um determinado momento, diz: “[...] o destino que eu deseje a estas folhas manuscritas: do fogo às cinzas do nada, compostas, as folhas, só para encher as horas, muitas delas soturnas, de um homem devotado a encontrar-se a si próprio, mais que na existência mesma, detrás do espelho da escrita – esta a única verdade do ser, como aumentava o Motta, sobretudo o Motta, quando bêbedo”. Leocádio, mesmo querendo dar cabo de seu manuscrito, crê na redenção pela escrita. Você tem essa mesma sensação? Qual é o poder da escrita, isto é, da arte, num mundo onde a fome mata uma pessoa a cada cinco segundos?
Vamos começar do começo... Você percebeu bem essa questão com a vacilação dentro do panorama geral de extrema ambigüidade do romance... Há o desejo obsessivo, uma conspiração contra si mesmo até, eu diria, de Leocádio Prata, no sentido da destruição, ao fim e ao cabo, das confissões que vai deitando ao papel... Eu introduzi aí uma vacilação, uma hesitação que, para mim, tem muito a ver também com o século XIX. O Oitocentos brasileiro não foi somente ambíguo (uma no ferro, outra na ferradura) mas também pleno de hesitação. Você quer uma coisa mais vacilante (e até hoje ambígua) do que a abolição da escravatura? Foi mais lenta e gradual do que a abertura que os militares, para citar um exemplo recente, promoveram para desatarraxar a hedionda ditadura que eles próprios inventaram e da qual não sabiam mais como se safar, não é verdade? Também a abolição foi uma batata quente para dom Pedro II... E depois tem que eu precisava fazer falar um enrustido, dar voz a uma figura conservadora e cerimoniosa, e nada melhor do que este expediente – o de que tudo o que se diz se diz só para é dito –, já que há a certeza de que ninguém lerá aquelas anotações obsessivas de um bacharel aposentado... E mais: será que Leocádio Prata não morreu antes de fazer o que se propunha, isto é, queimar os papéis, e o canalha do Licurgo Pontes, aproveitando a deixa, se decidiu por publicar o pecado? Não podemos perder a orientação de que Amar-te a ti... é também um livro noir. Há ali um cadáver (suicida?), enormes suspeitas e suspeições, e um véu parece obscurecer os acontecimentos relativos a essa morte. Quem foi que matou Lavínia? Ou ela própria deu cabo de sua vida? Esse é outro elemento de extrema ambigüidade e ainda o de maior vacilação de todo o livro... Quanto ao mundo faminto e cruel em que vivemos, assaltados que somos a cada minuto por uma hórrida imagem dentro de nossa sala ou de nosso quarto ou de nosso escritório, via tevê ou internet, este é o mundo que encontrei ao nascer, em 1949. Já estava tudo aí... E, se existe alguma coisa que nos ajuda a atravessar as banheiras ferventes destes horrores, é a arte... Sem a mediação da arte, seríamos todos doidos varridos, psicóticos de carteirinha. A arte nos salva de nós mesmos – seja como agentes ativos ou passivos de sua fantástica e sublime ação.

Você permitiria a leitura de que Leocádio, Licurgo e Lavínia, a tríade de Amar-te a ti nem sei se com carícias, sejam apenas uma pessoa? O ciclo de um único ser, que passa pela beleza, pela força vital junvenil e, naturalmente, pela velhice? E que representem a dor e a alegria da existência e o silêncio da morte?
É, se você quiser ler o meu livro deste modo, você ou qualquer outra pessoa, está inteiramente à vontade para fazê-lo. A sua leitura será sempre sua, ainda que o livro seja meu, né? A rigor, quem escreve, em todos os meus livros, eu pretendo que seja o leitor.

Essa narrativa dialoga com a obra de Machado de Assis de várias maneiras: Capistrano está atrás do Bromelius Citricus e Dom Casmurro, do emplastro; temos igualmente uma tríade amorosa... Mas é, enfim, na linguagem, que o diálogo se harmoniza. Que tipo de pesquisa você faz para atingir tal grau da escritura?
Para escrever Amar-te a ti..., eu li o que pude da grande prosa do Oitocentos em língua portuguesa... Não só a brasileira – Joaquim Manuel de Macedo, Taunay, Alencar, Machado – mas também a lusitana – Alexandre Herculano, Fialho de Almeida, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão –, todas estas gentes d’antanho... Fiz como Saramago ao escrever o Memorial do convento – ele leu tudo o que havia de Barroco, e aí então fechou todos os livros e dedicou-se ao barroquismo pessoal e intransferível de seu livro.

Quando e como você descobriu a obra de Machado de Assis?
Aos 13 anos eu já estava lendo Machado de Assis. Aliás, não passa uma semana sem que eu leia um pedaço de crônica, um conto, um trecho dos romances já repetitivamente lidos, uma carta, um bilhete ou, até mesmo, os seus execrados poemas sentimentais... Machado está presente em minha existência desde que me conheço por gente. Ele faz parte da trilha sonora de minha vida.

Como você vê a colocação da crítica de que há, em Amar-te a ti nem sei se com carícias, uma sugestão homossexual entre Leocádio e Licurgo? Quando Leocádio narra Licurgo tomando banho, de certo modo ele cultua o corpo de Leocádio, certo? Mas seria um desejo homossexual ou a comparação com sua, digamos, decrepitude?
Foi muito bom você tocar nesse tema. Leocádio José de Azeredo Prata Filho, não podemos ignorar: ele é o século XIX. E, se assim se funda no romance, teria que ser erigido também com esta ambigüidade que faz, principalmente de sua sexualidade, mas não só dela, uma matéria móvel, igualmente hesitante e ambígua. Mas o que vale ali, para mim ao menos, é a feroz oposição, que permeia todo o livro, entre senectude e juventude, o tempo ido e o tempo indo, o tempo indo e o tempo sendo. É como, guardadas as proporções, of course, Morte em Veneza, uma de minhas devoções literárias. Thomas Mann não fez de Aschenbach um homossexual, mas um ser pateticamente em luta pelo que na vida é morte desde o primeiro vagido, o primeiro suspiro e a primeira dor... O que entre Aschenbach e Tadzio é vida versus morte, vigor versus fragilidade, começo versus fim, com Leocádio Prata não é diferente – Licurgo arde de sol, Licurgo é a juventude que esta (aquela) brisa canta (cantava)... Ah, o Tempo! Este deus que não dorme...

Em entrevista a Rogério Pereira e Guida Bittencourt, publicada no jornal Rascunho, você diz que um país que tem Machado, Lispector e Guimarães Rosa não pode se queixar. Além do Hatoum e do Bernardo Carvalho, já citados, como você avalia o atual momento da literatura brasileira?


Eu acho que a literatura brasileira vai muito bem, obrigado. Vejo uma imensa quantidade de vozes e dicções despontando na cena criativa tupiniquim. Impossível que deste quadro, ao menos quantitativamente generoso neste primeiro momento, não venham a frutificar novos grandes nomes com a disposição de prosseguir mantendo acesa a chama de uma literatura maiúscula, como sempre foi a nossa. Estamos formando ainda, no meu entender, uma tradição literária. Veja, você, que A Moreninha, do grande Joaquim Manuel de Macedo, considerado por muitos como o primeiro romance brasileiro, é de 1844... De lá até aqui, só fizemos ampliar caminhos e campos na busca de uma “poética” brasileira. Muitas vezes aos trancos e barrancos, como tudo na vida, aliás... Veja, você, que o surgimento de um prosador como Machado de Assis é coisa recente. Machado morreu em 1908, justamente o ano em que nasce, em Cordisburgo, Minas Gerais, o Rosa... Eu me lembro nitidamente do dia, do ano e da hora em que Rosa morreu... Deu no noticiário do rádio. O Brasil ainda não digeriu inteiramente o Machado, no meu entender... Lima Barreto, um escritor importante, vital mesmo para o desenvolvimento das letras pátrias, morreu um ano antes de meu pai nascer, meu pai que está aí vivo e forte... E Clarice, então? Clarice, que partiu a meu ver muito precocemente, poderia, tranqüilamente, estar viva, da mesma geração que é da Lygia, da Hilda... Revistas, encontros, poetas e novos poetas... As universidades parecem ter acordado, levando autores a leituras; acabando, de vez, com esta chatice inominável que é palestra de escritor... Faço lá as minhas, admito, mas acho muitíssimo mais interessante, e vejo nítida a resposta do público, quando sou convidado para leituras. Com minha frustrada vocação de ator, acho que me saio bem nessas empreitadas... Eu continuo a apostar na literatura brasileira, mesmo porque, se fosse o contrário, eu deveria mudar de ofício, não é mesmo?

Jardim zoológico e Manual de zoofilia são duas partituras ímpares em sua obra. Esta é uma avaliação minha, portanto muito pessoal. Esses dois livros me causam dor e encantamento, desespero e alegria, choro e riso. Eles retomam a tradição do bestiário, tão usada na Idade Média e em outras idades. Fale um pouco sobre essas obras.
Enche-me sempre de sincero júbilo a reação da maioria dos leitores com relação às duas obras citadas por você. Tanto o Jardim... quanto o Manual... – ainda que próximos são livros absolutamente diversos um do outro, nos entendamos bem – costumam provocar este tipo de recepção. Uma recepção quase sempre entusiasmada e quase sempre, o que é melhor, lucidamente entusiasmada... Eu as compus a ambas no silêncio povoado de cães das noites do arrabalde... Em esforçados e concentrados exercícios... Eu os escrevi, sobretudo o Manual de zoofilia, sobretudo este, para não empreender um mergulho – naquele tempo sem volta – nas tramas da solidão... O Manual... deverá ser reeditado com mais treze bichos que até há alguns meses permaneciam absolutamente inéditos... Mas, no afã de atender a um site aqui, uma revista acolá, acho que até estes já foram todos publicados. A primeira edição desse livro ainda hoje me enche de orgulho. Foi feita, numa tiragem de 350 exemplares, um a um, pelo tipógrafo-inventor Cleber Teixeira, autor também da capa, pela Noa Noa, um selo que honra qualquer escriba. A edição da UFPG, supercuidadosa, mantendo a já histórica capa do Cleber, também é muito bela e correta. Os bestiários integram este lúdico-maravilhoso de que só as grandes literaturas são capazes... Como desconsiderar bichos, bestas, monstros num país como o Brasil, onde a exuberância de fauna e flora é uma coisa acachapante... Os novos escritores deveriam prestar mais atenção neste tema. É um tema fascinante e muito afim com a nossa zôo-alma, plena de sacis e lobisomens, mulas-sem-cabeça e boitatás ardendo, fogos-fátuos, na linha do horizonte...

Junto com toda a bicharada do Manual de zoofilia, aparece um texto com o título “Crianças”. Qual a intenção desse recurso?
A intenção acho que é bem clara – primeiro a de provocar uma estranheza para quem está às voltas com todos aqueles bichos... Na terceira edição revista e sensivelmente ampliada, com inúmeros bichos inéditos até aqui, de Manual de zoofilia, programada para sair pela Editora Planeta, acrescentei ainda outro elemento de estranhamento: as Chuvas... Uma busca obsessiva deste “animismo” que busca emprestar vida, ainda que vida apenas poética, aos mais surpreendentes elementos da natureza... O “Crianças”, do Manual..., em face do panorama geral do livro, fica sendo também uma espécie de intrigante catacrese, você não acha?

Você criou e esteve à frente do jornal Nicolau por oito anos. O que dizer sobre a imprensa cultural hoje?
O “momento histórico” em que Nicolau foi criado e todos os anos em que refletiu o melhor da intelligentsia nacional e internacional – de 1987 a 1994 – foram anos muito fecundos, sobretudo no Brasil. Praticamente sozinho no país, naquele tempo, Nicolau fez história. Mas o impressionante é esta “permanência” do tablóide nos corações e mentes dos leitores. Sem exagero, posso lhe informar que não passa um mês sem que eu receba, dos mais surpreendentes lugares e de gente da mais variada idade, e até de nacionalidades diversas, imensos questionários para que eu detalhe como pudemos criar um momento tão vivo do jornalismo cultural brasileiro. E olhe que eu saí (ou fui saído...) do Nicolau já faz 10 anos! O mais fascinante é receber aqui em casa a visita de estudantes de jornalismo ou de pessoas interessadas em jornalismo cultural com 20, 21, 23 anos... Eram crianças, mal saídos da adolescência quando deixei o projeto; veja bem: quando deixei o projeto, porque, se formos contar o tempo da fundação do jornal, então aí a coisa ficaria ainda mais notável... Não preciso dizer o quanto isso me enche de orgulho e daquela agradável sensação de “dever cumprido”... O jornalismo cultural praticado hoje no país segue seu ritmo. Me parece que o tempo agora é, no gênero, o das revistas, e penso que a criatividade não pequena de nossos produtores culturais tem sido uma constante na área. Veja o Paraná, agora, com a Etcetera, uma revista magnífica, editada e “bancada”, o que é ainda mais significativo, pelo meu amigo, o escritor Fábio Campana. E as outras tantas: a Sibila, em São Paulo, editada pelo poeta Régis Bonvicino; as valentes Ficções e Inimigo Rumor, no Rio, com o grande Carlito Azevedo fazendo e acontecendo; a Cacto, que tem à frente o jovem e talentoso poeta Tarso de Melo, e a Teresa, a Ácaro, e até mesmo a Rumos, do Itaú Cultural – são exuberantes momentos de um jornalismo cultural que aí está mostrando a que veio. Ainda que com outra pegada, gosto muito também da Bravo. E há ainda as revistas digitais de cultura, como a Zunái, a Sara Fazib, a Patife, e este momento ímpar no gênero que é, a meu ver, a belíssima Trópico, dirigida por Alcino Leite Neto. Necessário lembrar ainda a presença marcante de dois preciosos momentos do jornalismo cultural que se pratica hoje no Brasil: o refletido pela revista Coyote, comandada por Ademir Assunção, Rodrigo G. Lopes e Marcos Losnak, e pela Oroboro, do sempre atuante Ricardo Corona.

Sabe-se que o motivo de sua saída do jornal Nicolau foi uma quizília com um determinado político. Você poderia falar sobre o episódio?
Estes projetos patrocinados pelo poder público têm dessas coisas – mudou o governo do estado e junto, claro, mudou o secretário da Cultura. Não demos sorte – entrou, para a Secretaria, um senhor avançado em anos e extremamente curto de idéias, justamente quando devia, pela idade, estar dono e senhor da melhor das sabedorias, não é mesmo? Posso lhe garantir que, bem pelo contrário, ele era (não sei se já faleceu), ou é, uma dessas proverbiais figuras de província, e aí, diante da enorme resistência dele a que seguíssemos na linha vitoriosa em que Nicolau se situava, pedimos demissão em bloco e assinamos um manifesto famoso contra a caretice, a burrice estatal e o provincianismo do tal secretário, um pobre-diabo cujo nome não merece nem mesmo ser citado aqui... A primeira edição do “novo” Nicolau, na qual ele escrevia do editorial à contracapa – não ria, por favor – era uma edição monográfica dedicada inteiramente à FEB. Aquilo ali pegou mal até mesmo para os nossos valorosos pracinhas... Uma edição horrenda, com desenho de soldado na capa e versalhadas laudatórias... Bem, não preciso dizer da reação de grandes admiradores do Nicolau, como Paulo Francis, por exemplo. Contam que ele devolveu o número que recebeu em Nova York diretamente para o então governador, e diz a lenda que escarrado...

Se você tivesse que dizer algo a um jovem escritor, o que diria?

Aos jovens que me procuram, e são muitos, e com uma constância que muito me envaidece, eu costumo dizer que não tenham pressa. Esta ansiedade de chegar ao primeiro livro, do qual eventualmente poderão se arrepender mais tarde, é sempre muito danosa para qualquer carreira literária. Você pode enganar em muitos modos de expressão artística, mas em literatura isso é impossível... Ou se é ou não se é... Não há meio-termo... E depois tem que literatura exige maturidade – não propriamente cronológica, mas maturidade, razão e pensamento. Sem um amadurecido pensamento sobre o mundo, é impossível criar em qualquer área; mas, sobretudo na velha ars litteraria, isso fica impossível... E outra coisa que costumo dizer aos jovens escritores: “Só saberemos se alguém é um escritor de verdade não quando é escritor aos 20 anos, mas se continua e persiste escritor aos 60, aos 70, aos 80, aos 100...”.

Todas as suas obras, embora com unidade interna em relação à linguagem, são muito distintas. Se confrontarmos Mar Paraguayo e Amar-te a ti nem sei se com carícias, citando só um exemplo, podemos ver isso. Por muito tempo se cobrou de um escritor que tivesse linearidade em relação à linguagem. Por que a opção pela multiplicidade de linguagens?
Todo escritor está sempre escrevendo (ou reescrevendo) o mesmo livro. Não vejo diferença alguma entre os livros que você cita. Se em Mar Paraguayo o mix era o de português, espanhol e guarani, em Amar-te a ti... o mix é o de prosódias no tempo. Há ali toda a dicção do século XXI entremeada ao dizer do Oitocentos. Por mais que eu queira chegar à linguagem do século XIX brasileiro, esta será sempre uma tarefa frusta e vã, porque quem a escreve é um escritor do terceiro milênio, com os vezos e vícios de alguém que é contemporâneo deste tempo aqui e não de outro... O resto é literatura...

O que mais o incomoda no meio literário?
A hipocrisia, a vaidade oca, o prosaísmo de passear um nome feito quem passeia um cachorro engalanado... Das coisas que fiz, uma das que mais gosto é o tanca chamado “Anônimo”, que está em meu único livro de poemas – Pequeno tratado de brinquedos. E diz assim, em rigorosa métrica nipônica (5/7/5 e 7/7): “eu e a minha mestra/ saímos caçar cepilhos/ só colhemos grilos/ tarde voltamos com fome/ jantamos os nossos nomes...

E a vida, o que dizer dela?
Penso que os personagens que criei até aqui falam melhor dela do que este pobre escriba, alheado com o exame das nuvens e dos langorosos céus deste dezembro, por exemplo...

Qual é o seu processo de criação? Como você começa a pensar em um livro? De que ponto você parte?
Isso aí depende do livro... Às vezes, uma frase; alguma coisa que ouvi ou entreouvi em sonhos; um sonho mesmo; a leitura de um clássico, de um poema ou de um verso; o balbuciar de uma criança; e sobretudo o silêncio das noites profundas do arrabalde, onde me assisto a viver... Há, nesses silêncios, poemas inteiros, romances, novelas, haicais...

Uma crônica de Rubens da Cunha

DESPEDIDA


Despedida. Despedir. Entre outras acepções significa desfechar, arremessar, desprender, soltar, terminar, licenciar, separar. Todos esses verbos podem também ser reflexivos: arremessar-se, ausentar-se, terminar-se. Despedir é um gesto duplo, direcionado ao outro e a si mesmo. É uma ruptura, um corte na alteridade e em si próprio. O patrão despede seu empregado. O general despede o soldado liberando-o da batalha. O amado despede-se da amada nos umbrais de um romantismo perdido. Os vivos despedem-se dos mortos em velórios e rituais de choro. Despedir, despedir-se é da condição humana. Há sempre os que ficam e os que partem. Estes recuperam de certa forma aquele nomadismo ancestral que nos tangenciou há muito. Há no despedir aqueles dois lados da mesma viagem, tão bem colocados na letra da canção de Milton Nascimento e Fernando Brant. Trata-se de um ato que carrega em si a dor de não saber o futuro, dos laços rompidos, talvez por isso seu correlato seja o adeus, o sem deus, sem guarida, sem a segurança da proximidade, sem a certeza do pertencimento. Por outro lado a despedida é uma forma de liberdade, de alargamento da visão, de novos territórios para a vida, então o a de adeus já não é um prefixo de negação, mas de encaminhamento. Adeus é um paradeus, para a vida que te chama e que está prenhe de liberdade para ser usufruída, basta você se despedir, se soltar, se desprender. Tanto um lado como o outro o que se tem pela frente é o enfrentamento do novo, a necessidade de se encarar a mudança. Apesar das possibilidades benéficas do despedir-se, ele tem muito parentesco com o despedaçar-se. A etimologia não aproxima as raízes dessas palavras, porém, não por acaso, elas caminham próximas nos dicionários. Despedir vem do latim expetere, que significa reclamar, reivindicar, palavra derivada de petere, pedir. Despedir: deixar de pedir, deixar de suplicar, apartar-se com um cumprimento e despedaçar-se no silêncio, no devir, na espera da morte. Despedir. Partir. Repartir-se em pedaços de pessimismo. Essa dubiedade, essa fronteira entre ir embora e quebrar-se em pedaços faz da despedida um acontecimento muitas vezes extremado, muitas vezes dolorido. Belo e dolorido como o aceno dos lenços do navio que parte; como os próximos distanciados nos campos de concentração do passado, ou nos campos de refugiados do agora. Despedir-se sobre e sob os escombros de um terremoto, as noturnidades de uma violência qualquer, os achaques dos senhores da guerra. Despedir. Despedaçar. É um romper, um atravessar a fronteira da segurança, um pisar nos escuros, nos silêncios do que será. A despedida pode ser bonita ou triste, longa ou repentina, imersa na aceitação ou na discórdia. A despedida pode se amigar com a liberdade ou com a prisão, pode se embrenhar numa vida mais plena, escorreita, ou cair na escuridão. A despedida tem sempre duas faces, menos num aspecto: nenhuma despedida é fácil.