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segunda-feira, 12 de novembro de 2012


Poética 1 - Claudio Willer

então é isso
quando achamos que vivemos estranhas experiências
a vida como um filme passando
ou faíscas saltando de um núcleo
não propriamente a experiência amorosa
porém aquilo que a precede
e que é ar
concretude carregada de tudo:
a cidade refletindo para sua hora noturna e todos indo para casa ou então
marcando encontros improváveis e absurdos, burburinho da multidão circulando
pelo centro e pelos bairros enquanto as lojas fecham mas ainda estão iluminadas,
os loucos discursando pelas esquinas, a umidade da chuva que ainda não passou,
até mesmo a lembrança da noite anterior no quarto revolvendo-nos em carícias e
expondo as sucessivas camadas do que tem a ver – onde a proximidade dos
corpos confunde tudo, palavra e beijo, gesto e carícia
TUDO GRAVADO NO AR
e não o fazemos por vontade própria
mas por atavismo

DE VIRGINDADES E ESTUPROS

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [12/11/2012]


Quando alguém se preocupa em demasia com a vida sexual alheia é batata! Leitor, não tenha dúvida. Algo de errado sombreia a atividade hormonal daquele que aponta os dez dedos para condenar ou afirmar esta ou aquela atitude sexual do vizinho. Convenhamos que se fala mesmo é  da vizinha, pois a vida sexual de um homem heterossexual nunca está em questão. Sua privacidade é ouro. 
O que fica estranho é querer comentar o que não se pode afirmar. É como uma categoria de intelectual muito vigente em Bundópolis, que costuma falar inflamada de livros que nunca leu, de autores que sequer sabe escrever o nome.  Porque existem coisas que não mudam. Homem virgem falando de sexo e intelectual analfabeto são coisas comuns até em departamento de universidade. E abundam em Bundópolis.
Enquanto isso: crianças morrem de fome todos os dias; mulheres são espancadas a cada minuto e outras tantas assassinadas; a educação não é prioridade; nos corredores de hospitais públicos morrem crianças, jovens, adultos e velhinhos; está mais fácil ganhar na loteria que comprar a casa própria; a polícia, como bem afirma Foucault, está a serviço do judiciário, não da população; a corrupção está generalizada; os quatrocentos anos de escravatura declarada se foram, mas aqui estamos em uma escravidão cruelmente velada; enfim, estupros e mais estupros são praticados todos os dias contra toda a espécie de direito humano.
E a mídia, a chamada grande mídia, passa todos os anos por estes assuntos, sempre de maneira superficial e aterradoramente hipócrita. Então, uma moça, que é dona de seu corpo e deve fazer dele o que bem quiser e entender, resolve vender a virgindade, antes que alguém o faça por uma ninharia, e vira assunto nacional, aliás, internacional. Como se vender a virgindade fosse coisa nova. Nem faz muito tempo, quem vendia o hímen da moçada eram os próprios pais. Alguns, inclusive, resolviam o caso em casa mesmo. Outros doavam em troca de favores. Brancas, escravas, indígenas, enfim, essa gente sem vontade, passou um cortado.  
É esta grande mídia hipócrita, que vive vendendo a mulher como produto em suas propagandas, que faz do caso desta moça uma questão de Estado. A cada dez propagandas, sejam elas de cerveja, creme dental ou carro, nove tem uma “gostosa” praticamente nua. As mulheres não precisam mais dos homens para ter prazer; têm o direito irrevogável de seu corpo e, agora, finalmente, podem, elas próprias, vender aquilo que sempre lhes foi roubado, doado, vendido. E a Igreja, colecionadora de estupros, deveria, também, desvirginar seus moralismos.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ninguém meu amor 
ninguém como nós conhece o sol 
Podem utilizá-lo nos espelhos 
apagar com ele 
os barcos de papel dos nossos lagos 
podem obrigá-lo a parar 
à entrada das casas mais baixas 
podem ainda fazer 
com que a noite gravite 
hoje do mesmo lado 
Mas ninguém meu amor 
ninguém como nós conhece o sol 
Até que o sol degole 
o horizonte em que um a um 
nos deitam 
vendando-nos os olhos.


Sebastião Alba

domingo, 28 de outubro de 2012



Milton faz 70 anos. Por causa de Milton Nascimento eu sou uma outra pessoa. Quando eu tinha 16 anos eu descobri sua música. Depois disso. Bem depois disso, só sobrou o que sou. Fiz um show com ele em Itajaí. Em Itajaí, quando eu ouvia Milton, meus irmãos não entendiam. Coisa estranha. Aquilo ainda hoje está perdido dentro de mim. Se eu fechar os olhos até ilumina. canção do sal é uma dessas músicas que nos fazem mais parecidos com Deus. Se Deus existisse, teria a voz de Milton Nascimento.

sábado, 13 de outubro de 2012

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

De Na Vertigem do Dia (1975-1980)
Ferreira Gullar

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Bia Góes pra quem não conhece


VALENTINO, O INCLEMENTE

POR MARCO VASQUES

Publicada no jornal Notícias do Dia [01/10/2012]

Valentino é negro, carioca, torce para o Flamengo e tem no olhar aquele jeito malandro de sambista que sabe quando o pandeiro está para batucada e, sobretudo, quando o berimbau desafina. É preciso dizer, antes de tudo, que Valentino não é chegado em ostra, ou seja, ele não come mesmo o crustáceo que abunda pelas bandas do Ribeirão da Ilha e Santo Antônio de Lisboa. Mais sortudo que urubu em dia de festa no matadouro, costuma se dar bem com as mulheres. É alto, inteligente e bonito. Não poderia dar em outra coisa. É colocar a camisa do Flamengo, uma roupinha mais ou menos e sentar sob o sol de Santo Antônio de Lisboa, que é batata. Sempre aparece uma marisqueira com desejos suspeitos.
Suspeitíssimo foi o desinteresse dele por Maria dos Prazeres. Ele fotografava o horizonte quando ela apareceu, verticalíssima. Chegou exuberante, perfumada e pediu ao Valentino uma opinião sobre suas medidas: a cor do cabelo, enfim, queria era mostrar o quanto o desconcertado homem, que já olhava para os amigos com aquela cara de parafuso sem furadeira, estava perdendo. Resumindo, ela estava mostrando o material e disparou artilharia pesada sobre os olhos do negão. Meio sem jeito e sem saber o que dizer, voltou para mesa. Ao ser indagado sobre o motivo da moleza e do desinteresse por tanta fartura, ficou em silêncio.
Em seu íntimo, sabia que o berimbau desafinara. Quando instrumento de apenas duas notas desanda, a coisa sobe ou desce. O negócio agora era suportar as piadas dos amigos, que não perdoaram sua inclemência com a moça. Não satisfeita com a recusa (mulher quando coloca algo na cabeça, não tem jeito), comeu uma dúzia de ostras ao bafo, empinou os já agudos seios, balançou a cabeleira longa e negra, pegou uma garrafa de água, meio que avisando que sua especialidade era apagar incêndio, fogo, fogueira e toda sorte de centelha masculina e se dirigiu à mesa do inclemente Valentino.
Na primeira palavra já colocou todos no riso. Constantino, pode abrir a garrafa de água para mim? Olha a minha mão, está toda vermelha de tanto fazer força! Ele, vendo os amigos na maior gozação, tratou de abrir logo a água e mergulhar o olhar no decote da morena. Mais algumas palavras e, de súbito, a deusa dos prazeres se esvai com o vento Sul. Valentino (agora Constantino, o inclemente) largou logo a frase: meu santo não erra, mas me coloca em cada situação. A moça, ignorada mais uma vez, tratou logo de tirar o time de campo para jogar, titularíssima, em outra área. Com Valentino a bola bateu na trave; com o novo ataque, agarrou bola, trave e... chuva na rede.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

TUBARÕES SOBRE CABEÇAS

no aquário de shinagawa
tubarões nadavam sobre minha cabeça

aproveitava o pouco de um dia
quando tinha um dia para respirar um pouco

e o que fazia além de respirar?

somente um morto teria melhores histórias
caminhando por tóquio em shinagawa

onde scorts fingiam gueijas
 homens de negócios douravam rolex

onde tailandesas eram estrangeiras dentro do oriente
adoravam o desenho de meus olhos

me serviram pratos desenhados do sião
seus corpos minguados

a tarde em shinagawa minguava de ausências
 os tubarões passeavam sobre minha cabeça



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Henri Berssenbrugge, 1925



O gramofone, o colar de pérolas
e o frasco com água benta


Cada um de nós terá tido dessas noites insones, quando se escuta apenas a chuva.
         Penso durante a chuva e na minha decisão de amanhã ir ver, vinte anos depois, se ela ainda vive no sobrado rente ao mar.
         Tudo o que eu tenho na vida cabe numa caixa de sabonete, por isso preciso saber se ela ainda pisa as tábuas da varanda do sobrado onde costumávamos, deitados em redes de embira nova, passar os verões de nossa mocidade.   
Aqueles dias agora parecem frios, como se tivessem sido cavados na pedra. Acordado, mas de pálpebras fechadas, escuto passos sobre as carcomidas tábuas da varanda que estalam. Na verdade, não há tábuas da varanda, porque eu imagino o ruído, e o ruído desenha as tábuas da varanda do sobrado, desenha igualmente cada recanto do sobrado de velha madeira, circundado por ventos apressados.
         Eu não sou nada ou sou um jarro vazio sem aquela que, talvez, ainda viva no sobrado rente ao mar. Eu, sem ela, sou apenas uma dor que desemboca nos ossos. Ela que, há vinte anos, possuía voz tão de gaze como essas mulheres que, no bosque anoitecido, anunciam que os deuses devoram a cabeça dos que se recusam a sonhar. Suas palavras de algodão se dissolviam nos meus tímpanos à maneira de fios de rebuçado na concha da língua. Ela era muito pálida, com certo quebranto nos olhos machucados, um ar de romance e de languidez em toda sua pessoa, e a sua maior beleza estava nos cabelos negros, muito pesados, que deixava cair soltos sobre as costas num desalinho de nudez.   
         Dizia-se que tinha literatura e fazia frases.
         Não suporto mais o excesso de solidão e de silêncio que vincam os meus dias de amargura, por esse motivo é que amanhã irei ver se, vinte anos depois, ela ainda respira no sobrado rente ao mar.
         Um hálito perfumado de capinzal me invade quando chego perto das janelas escancaradas do sobrado enorme, com jardim, com piscina, com a escultura de mármore na entrada.
         A mulher que está no banco de pedra ante o mar, com os cotovelos pousados na mesa de madeira, essa mulher, cansada pela salsugem marinha, morreu ontem, mas como se morreu ainda pode estar com os cotovelos na mesa de madeira? É que estou imaginando que a mulher que morreu ontem está ali com os cotovelos na mesa de madeira e espia o mar, flagra a canoa levando embora a sua respiração.
         Se a canoa retornasse, mas a canoa não retornou.
         Recebo dos homens da agência funerária uma espécie de caixa onde enfiaram as cinzas que foram dela. Remexo as cinzas com o garfo, mas nas cinzas nada de nada: nenhum sopro de voz, nenhum osso, nenhum resquício de memória, nenhuma presença contínua.
          Vou até o mar deitar as cinzas e respiro entre as árvores, porque é só o que posso fazer agora. Ainda não sei porque permiti que queimassem, além de seu corpo, também o gramofone, o colar de pérolas e o frasco com água benta.



Fernando José Karl

segunda-feira, 24 de setembro de 2012


não lembra das coisas
do tiro no ombro
o dia de reis

não lembra da compra do uno
do primeiro filho
da morte do único filho

de tudo que passa no olho
as vezes uma palavra

a única coisa que se lembra
é que te amava



Antonio Carlos Floriano
DE TEATRO EM TEATRO

POR MARCO VASQUES
Publicado no jornal Notícias do Dia [24/09/2012]

A coisa é simples e mais ou menos assim: chega em casa, toma banho, veste a primeira camisa que estiver à frente, coloca a primeira calça limpa que achar. Procura meias e sapados, também sem muita frescura na escolha. Depois se olha no espelho para ver se o corpo e a cabeça estão intactos diante do exercício de 15 minutos. A rotina é semanal. Tem semanas que chega a ir ao teatro mais vezes que os próprios dias da semana. Em resumo, para ele a atividade de frequentar o teatro é vital, necessária e tão natural, que não consegue entender o comportamento de algumas pessoas quando vão a um e outro espetáculo.
Pelo menos duas vezes a cada sete dias se dirige ao Teatro Armação, ao Teatro da Ubro, ao Teatro do SESC-Prainha, ao Teatro da Igrejinha da UFSC, ao Teatro Álvaro de Carvalho, à Casa das Máquinas, à sala do Centro de Artes da UDESC, às ruas da cidade, ao Teatro Pedro Ivo, à Célula Cultural, ao centro de eventos da UFSC ou ao Teatro Ademir Rosa; enfim, onde a cena acontece, costuma se fazer presente. Não tem preconceito algum. Vai da comédia ao drama com a expectativa do gozo estético ou a perspectiva de encontrar alguma poesia que dialogue com a carne e a mente.
No entanto, o teatro, para ele, começa muito antes do teatro, sobretudo nos espaços ditos mais nobres, menos alternativos. Onde, normalmente, as “grandes estrelas” se apresentam. Nestes espetáculos, em que se paga a peso de ouro ou se disputa uma cortesia com o fervor de cães famintos à frente de um bife acebolado, a cena externa, em muitos casos, supera o que se vê no tablado, pois existe um tipo de gente que não vai ao teatro para assistir aos outros, mas para ser assistida.
Então a coisa é assim também: muito laquê no cabelo – daqueles que nem o vento sul consegue abalar -, muita base, batom, brinco de ouro, óculos Dior, bolsa Louis Vuitton e Prada. Ou seja, um mundo de gente que acha bonito se pavonear sem se dar conta do limite entre a beleza e o senso do ridículo. Nestas noites, os teatros são tomados pelo estilo Barbie – com silicone e botox - maquiada por criança. Soma-se aí muita empáfia e burrice; temos o tipo de personagem que brilha mais que qualquer peça global. Teatro não é evento de madame, que compra roupa nova e tudo achando que está indo pro casamento da sobrinha. Fiquei tão puto. Aproveitei o anonimato, claro, duas madames daquelas jamais conheceriam um crítico de teatro. Como um crítico de teatro se nem temos teatro em Florianópolis? Quanto mais dois críticos? Fui pra cima: a senhora conhece o nome de uma ator da cidade? De um diretor? Qual o último espetáculo feito aqui que as senhoras assistiram? O silêncio permaneceu. Estava tudo dito.
Dia deste ele aproveitou o anonimato e se imiscui na conversa de duas madames que difamavam o teatro local. Como? Teatro em Florianópolis? Existe? Só porcaria! Cruzes! Nesse momento ele foi para cima delas – não o julguem um tarado, por favor: qual o último espetáculo feito aqui a que assistiram? Conhecem o nome de algum ator? De um diretor? Conhecem... O silêncio permaneceu. Estava tudo, nada, dito.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

preciso de um momento para descansar
depois eu levanto
e ando

talvez quatro goles de ar
um momento
depois eu ando

vai indo

ÁRIAS PÚBLICAS

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [10/09/2012]

O grupo de teatro O Dromedário Loquaz possui uma trajetória de mais de trinta anos e é liderado pela atriz e diretora Sulanger Bavaresco. Foi criado pelo ator Isnard Azevedo e, ao lado do grupo Teatro Armação, é uma das referências históricas obrigatórias para se pensar o atual momento do teatro feito em Santa Catarina. Da trupe, assistimos, nos últimos dez anos, às montagens Quinnipack – Mundos de Vidro (2002) e Jardim das Delícias (2008), ambas dirigidas por Bavaresco. A estética inicial do grupo, a de buscar espaços não convencionais para a cena, em ambos os casos, foram mantidas pela diretora.
Isnard Azevedo, quando criou o grupo, tinha por objetivo montar a peça Os Fuzis da Senhora Carrar, algo que não aconteceu. No entanto, não abandonaram Bertold Brecht, porque a primeira peça que executaram, em 1981, foi A Importância de Estar de Acordo, do dramaturgo alemão. Tanto o grupo Teatro Armação quanto O Dromedário Loquaz nasceram sob a égide de um teatro político e social; influenciados pela estética do Teatro de Arena e pela necessidade que a época exigia. Os grupos ainda sobrevivem e, vez por outra, aparecem com novo trabalho.
Quem esteve na última segunda-feira, pelo final da tarde, nas esquinas das ruas Felipe Schmidt e Trajano pôde acompanhar mais uma intervenção do grupo O Dromedário Loquaz. Mantendo firme as preocupações de seu fundador, a diretora Sulanger Bavaresco, em que pese todos os contratempos técnicos de sonorização, presenteou a cidade com o espetáculo Árias Públicas, um híbrido que conjuga ópera, performance, arquitetura e dança. O resultado dessa mistura foi surpreendente e provocou forte impacto na plateia.
Com Árias Públicas, Bavaresco colocou Lucio Dalla, Puccini, Verdi, Mozart e Bizet ao aprecio do populacho. E o povo, tão heterogêneo quanto o espetáculo, aplaudiu, gostou, chorou e silenciou para ouvir as vozes de Ricardo de Castro, Claudia Todorov, Javier Venegas, Claudia Ondrusek, Masami Ganev, Kalinka Damiani, Carla Domingues, Alicia Cupani, Rute Gebler e Douglas Hahn.
Um piano, conduzido por Eugênio Menegaz, um grupo seleto de cantores-atores e a dança cigana invadiram o espectador desavisado. Se o objetivo da diretora Sulanger Bavaresco foi o de presentear a cidade, os amigos e a arte, tal intento foi atingido em sua plenitude. E se “todo artista deve ir aonde o povo está”, deveríamos pensar em expandir ações como essa pelo centro da cidade e acabar de vez com os preconceitos, geralmente vindos das elites, de que o erudito e o popular estão distantes e de que o sabor e saber da arte lhes pertencem.  

sábado, 8 de setembro de 2012

VIVIANE MOSE


quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?

o tempo andou riscando meu rosto

com uma navalha fina


sem raiva nem rancor

o tempo riscou meu rosto

com calma


(eu parei de lutar contra o tempo

ando exercendo instantes

acho que ganhei presença) 


acho que a vida anda passando a mão em mim.

a vida anda passando a mão em mim.

acho que a vida anda passando.

a vida anda passando.

acho que a vida anda.

a vida anda em mim.

acho que há vida em mim.

a vida em mim anda passando.

acho que a vida anda passando a mão em mim


e por falar em sexo quem anda me comendo

é o tempo

na verdade faz tempo mas eu escondia

porque ele me pegava à força e por trás


um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo

se você tem que me comer

que seja com o meu consentimento

e me olhando nos olhos


acho que ganhei o tempo

de lá pra cá ele tem sido bom comigo

dizem que ando até remoçando

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Canto de Ossanha com Fabiana Coza

AS CARPIDEIRAS CÊNICAS


POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [03/09/2012]

A mente e o corpo são mesmo uns punhados de mistérios. Parece que sempre serão. Quase nunca saberemos ao certo o motivo desta ou daquela reação. Dia destes, por exemplo, estávamos numa das piores peças de teatro já vista nos palcos brasileiros. Tudo acontecia daquele jeito enfadonho quando, mais que de repente, uma frase dita por um dos atores, ao que parece, fez com que uma senhora, que estava ao nosso lado, se esvaísse em lágrimas.
Que gatilho, imagem, lembrança, enfim, parte do corpo aquela frase teria atingido para que aquela mulher vivesse ou revivesse um fato, uma ideia, um pingo de memória que levasse o seu corpo a reagir da forma mais inesperada possível, já que o espetáculo se posiciona numa zona inclassificável? As perguntas nos perseguem. O que teria acontecido naquele pequeno e minúsculo pedaço de tempo? Como o encontro sonoro provindo de um ator que mal sabe as entonações das palavras se aconchegou nos ouvidos daquela estranha?
A coisa foi tão intensa que a emoção, o choro e inquietude da desconhecida desviaram a atenção e passaram a dominar a cena. A plateia, quase toda em absoluto constrangimento, já havia percebido que algo de estranho estava acontecendo. Aliás, já tinha notado que alguma coisa de esquisito se desenrolava no palco. No entanto, ficou mais intrigada ainda quando o teatro foi tomado por soluços desesperados.
Já no centro das atenções ela se recupera. Os atores, que continuaram servindo ao público um prato insosso e estranho, engoliam as palavras na velocidade da luz sem se preocupar com os espectadores. O ramerrão se estabelece novamente. O trabalho se prolonga ao ponto de tirar a paciência de Jó da rota. Os barulhos das cadeiras, sinal inequívoco de insatisfação, começam a se intensificar. Um e outro suspiro de impaciência. Público e atores já não se comunicam.
Antes do término, o choro recomeça. Lágrimas que destoam completamente da energia que circula pelo ambiente, ou melhor, da falta de energia e sintonia entre o que acontece na cena e com o público. Quando, finalmente, a coisa - porque aquilo não era mesmo uma peça teatral - finda-se, o mistério se desfaz. A tal da senhora, aquela que tinha mais águas nos olhos que dinheiro nas contas do Cachoeira, era uma carpideira cênica profissional.
Tal categoria é formada por amigos, tios, primos, mães, pais, irmãos e namorados. Emocionam-se com cenas estapafúrdias. Costumam, junto a uma plateia domesticada pela televisão, aplaudir tudo de pé e chorar diante da pieguice. As carpideiras cênicas são a parte teatral do não-teatro.

domingo, 2 de setembro de 2012

Poetas em Itajaí

                                                   Encontro de Poesia em Itajaí
Na foto: Floriano, Rubens da Cunha, Péricles Prade,Rogério Lenzi, Rodrigo de Haro, Celso de Alencar,Cristiano Moreira, Ryana Gabech e Marco Vasques. Grande noite.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012


OBRIGAÇÃO E MÉRITO
POR MARCO VASQUES
Publicado no jornal Notícias do Dia [27/08/2012]
Não tem jeito. Em toda eleição acontece a mesma coisa. São as mesmas promessas, os mesmos discursos, as mesmas brigas e toda sorte de discussão em torno do que pode ser feito para que a cidade melhore. Mudam as alianças, as lideranças, os partidos, os candidatos. No entanto, o cenário é o mesmo, ou seja, todos disputando a tapas e bofetadas o comando de um barco, quase sempre, marcado pela ausência do poder público. 
É neste período, que num passe de mágica, as cidades são invadidas por obras. Independente do partido, parece que todos absorveram a máxima de que temos a memória fraca. Então, para que fazer obras no primeiro ano de gestão? Deixa-se tudo para o mais próximo das eleições, para que todos tenham o frescor da poeira na lembrança. Até aí nenhuma novidade. Num país em que se acaba de institucionalizar o caixa dois, todo o resto é piada.
Com as propagandas e a intensificação das campanhas, para além das frases bregas e preconceituosas estampadas em sorrisos oxigenados, o que salta aos olhos é o desconhecimento total, de alguns candidatos, do real motivo da existência de um alcaide. Fica evidente a constante inversão de valores sobre o que é mérito e o que é obrigação. Porque nós estamos tão acostumados com a ineficiência, inoperância e toda sorte de “in”, que acabamos, involuntariamente, entrando na onda e acabamos aplaudindo o gato por seu miado.
Ora, melhorar a vida dos cidadãos, as escolas públicas, o sistema de saúde, o transporte, a educação, o acesso à cultura, as ruas, os bairros, enfim, tornar a cidade um espaço mais habitável, menos violento e diminuir as desigualdades sociais são obrigações primeiras de qualquer prefeito. No entanto, não são poucos os que se vangloriam de ter construído escolas, creches e hospitais. Outros ainda estufam o peito e empolam a voz para dizer que farão o saneamento básico, iluminarão a cidade, construirão praças, escolas e aumentarão os números de leitos em hospitais e o salário dos professores.
O que não nos falta é candidato prometendo fazer tudo aquilo que é sua obrigação, isto é,  a premissa de sua existência, pelo constante hábito de nada se fazer, passa de obrigação à mérito. Se observarmos todos os discursos, com raras exceções, veremos que eles incorporaram suas obrigações como fator de mérito. Essa inversão de valores absurda acontece de dois em dois anos no Brasil. O disco furou na pior das faixas. Estima-se que o gasto das campanhas, em todos os quase seis mil municípios brasileiros seria suficiente para o cumprimento de cinquenta anos de promessa-obrigação.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O BAR DO + ARROZ


POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [20/08/2012]

            Em alguns casos se chega à verdade com muita facilidade. Quando se trata de bar, a coisa fica mais simples ainda. Inventamos inúmeros motivos às companheiras: a sinuca, o dominó, assistir ao jogo de futebol, o baralho, a dobradinha, o mocotó, a almôndega, rever os amigos. Enfim, arrumamos uma série de desculpas, quando na verdade, a tal da verdade é apenas uma: vamos ao bar pelos atrativos etílicos. É a cerveja, o campari, a caipirinha, o vinho, a vodca, o uísque, a cachaça, o underberg, o maracujá e toda essa farmacêutica secular que nos conduzem aos bares. 
            O bar do + Arroz tem tudo isso. Nas quartas, de quinze em quinze dias, é oferecida uma dobradinha excelente por apenas R$10. Um jantar por apenas 10 pilas? Só no Córrego Grande mesmo. Nas sextas-feiras, também quinzenalmente, servem um mocotó pra lá de especial, pelo mesmo preço. A almôndega é uma das melhores da cidade. Tem sinuca e dominó, com muita, mas muita gozação aos perdedores. Quanto à farmácia, nem precisamos falar, já que o grosso, o motor, o carro chefe de qualquer bar, muito obviamente, é o líquido estonteante.
            No entanto, o bar do + Arroz é um lugar especial para se frequentar porque é visitado por figuras como o Valtinho, cliente desde quando lá era o bar do Júnior. O Valtinho está sempre com o copo de campari ou uísque na mão, com um sorriso imenso no rosto e com um humor de meter inveja. Tem a turma composta pelo Dico, Renato, Elemar, Ninho, Júlio e Serjão. São silenciosos, bebem conversando com o líquido, meio que confessando algum segredo. Tem a turma do barulho formada pelo Sidclei, Vidal, Mosca, o Marcelo e o Moisés. Os visitantes esporádicos: o Tomé, o Sérgio. Existe no bar do + Arroz até uma categoria incomum: o homem-festa. Sim, o Martendal, sozinho, já é uma festa. Não podemos esquecer do Ézio, que jogou até com o Garrincha.
             O bar do + Arroz ainda conserva aquela atmosfera familiar, intimista e amigável, características que começam a ser ameaçadas pela quantidade excessiva de prédios e pela especulação imobiliária. Não duvide, caro leitor, se em poucos anos, no lugar do bar do + Arroz e do Minimercado Ana Paula, seja erigido um prédio de luxo.
Enquanto isso não acontece, para alegria da galera, o + Arroz vai conduzindo esse barco ébrio inundado por mundos imaginados. Se o leitor acha difícil conhecer a verdade, é só dar uma passadinha lá. Lugar onde podem ser encontradas milhares de verdades e certezas, tantas que acabamos embebidos numa imensidão de dúvidas. É preciso acreditar nas verdades e nas certezas bêbadas, pois as sóbrias são sombrias.