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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

4037 mulheres assassinadas por ano

Ela, por mais que tentasse, não conseguia se desvencilhar dele. No primeiro ano, não se perder de vista era o maior desejo. O estar juntos, o saborear as coisas com alguma leveza, a praia, as festas, cinema, tudo era mais divertido e saboroso ao lado dele. Ela, enfim, encontrou alguém para compartilhar sonhos, alegrias, tristezas, temores à que toda vida humana está submetida. O tão esperado amor bateu em sua porta.
O tempo, divino e senhor de tudo, foi arrefecendo o desejo, diminuindo a vontade de ficar junto e mostrando os mundos diferentes em que viviam. Sonhavam diferente, entendiam o mundo de modo completamente oposto; o que não é, necessariamente, motivo para não viverem juntos, desde que cada um possa respirar dentro do seu mundo, olhar e pintar a vida com os próprios olhos, com as próprias ideias. E as dores do amor entram pelas janelas.
Então as brigas começam, as discussões se tornam rotineiras, as ameaças surgem e os gritos se tornam frequentes. E a leveza, antes tão evidente, se torna mais áspera e dura que concreto armado. Ela silencia, porque ele é homem e sua mãe ensinou que com homem não se discute, se abaixa a cabeça e se segue, ainda que insatisfeita e infeliz. Ele, percebendo que ela não resiste, se vê triunfante, vitorioso, um verdadeiro macho dominador.
A coisa vai se arrastando até que o amor vira ódio e o convívio se torna um tormento. Não há mais desejo, não há mais leveza, não há mais intimidade e prazeres. Ela, tomada da necessária coragem, resolve por fim a toda aquela situação, resolve abortar o amor natimorto. E sobre ela recai toda a carga moral de uma relação falida; recaem os olhares atravessados dos familiares e amigos. Ele, impotente na sua potência, bate na mesa, briga, ameaça e jura que homem nenhum há de tocar em sua propriedade eterna.
A vida segue. Ele vai a festas. Sai com outras mulheres e não deixa de cercar seu antigo amor com mensagens inoportunas, telefonemas ríspidos e e-mails, numa busca neurótica do amor perdido e de controlar os passos dela. Até que um dia ele sabe, por um amigo, que ela está bem, revigorada, bonita e com um novo amor. Cheio da coragem típica dos canalhas, ele a assassina brutalmente.
E ela entra para as estatísticas. São onze mulheres assassinadas por dia na república de Brunzundangas. O mais intrigante é que oito dos onze crimes são cometidos por “amor”. São os chamados crimes passionais. A palavra grega pathos significa paixão, sujeição, passividade, sofrimento, excesso, catástrofe, passagem. Eles lavam a “honra”, elas são soterradas covardemente.

Marco Vasques

Um comentário:

Thays disse...

Olá, Marco!

Organizando meus papéis nesse fim de semana, encontrei o livro "Loucos de Pedra" que foi presente seu no ano de 2009, na ag BB Trindade. E lá estava o endereço do blog que há muito tempo eu não visitava. Muito legal ler os textos de vocês novamente.
Parabéns!