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sábado, 2 de junho de 2012



AS CONCHAS DA PRAIA DO CIBAO

Dedico à Míriam


As conchas, cravadas na pele da Virgem
– cravadas como se fossem as teclas de um piano marinho –
as conchas, catadas na praia do Cibao,
só elas sabem o que calam em seus invólucros calcários.
Cem mil vezes o poeta persa Imru'u-l-qays implorou
– que a Virgem como a neve y honda como la mar –
viesse apagar a sede que a nudez dela lhe causou,
sede que não se apaga nem com toda água da praia do Cibao.
O poeta persa Imru'u-l-qays implora mais uma vez,
eis que aparece por fim, com o silêncio caído a seus pés
– o rosto da Virgem meio escondido atrás do alaúde –
que traz, no seu pensamento que revivesce dourado,
– a nudez toda de uma árvore na chuva –
e o poeta persa Imru'u-l-qays conclui:
se eu não a tenho, ela me tem e sua piscina sacia
a sede que nas conchas da praia do Cibao havia.


Fernando José Karl

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