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terça-feira, 19 de julho de 2011

O kataná

a espada era a única coisa que kiguchi-san guardara de sua herança de família. nunca mais voltou à yokohama e os viu depois de seu desterro. lembrou que com essa espada fez três vezes o mesmo ritual: encostou a lâmina contra a carne de seu peito e a puxou contra si uns dez centímetros. depois sentou-se na banheira de ofurô e sangrou por duas horas até tornar a água morna água turva de um sangue dissolvido. abriu o quimono e me mostrou as três cicatrizes paralelas em alto relevo cada uma com a largura de um dedo. confessou que  trocou a dor de sua alma pelo rasgo fino feito pela lâmina do kataná. Foram três as dores trocadas: o suicídio de sua mãe: a falência de sua empresa: e a mais tenebrosa de todas: o amor carnal que sentia por sua irmã.


Antonio Carlos Floriano

2 comentários:

Anônimo disse...

a navalha da prosa de Floriano
corta o alumínio do bule de chá

"abriu o quimono e me mostrou as três cicatrizes paralelas": gostei

karl

Bruno Santana disse...

Magnífico!