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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Uma crônica de Marco Vasques


Silêncio Branco


A voz e o corpo, mudos, pronunciam o silêncio. A morte é mesmo um silêncio que fala. Como se pintássemos um desenho preto sobre outro desenho preto. Algo se perde e se aloca em algum espaço, sobre outra camada: multiplicação da epiderme. As mortes se acumulam assim: escuro que é clarão, clareira. Quase fogueira. Início de dor e memória. Vela em permanente luz até o silêncio nos tocar. Quem, quando criança, não atirou uma pedra certeira num pássaro? Era a ave cair ao chão e o silêncio estarrecedor se estabelecia. Ficávamos mudos de cantos. Em que lugar andarão os cantos e as vozes de nossos mortos? Sei de um pai e uma mãe que morderam a escuridão do filho. Plantaram canto e voz à beira do asfalto. Ele, o filho, foi atropelado quando praticava seu esporte dileto, o ciclismo. Sem chances de reação. Um monte de ferro que agride a carne. Não conheço o pai, a mãe e muito menos o morto. Mas tenho uma ficção sobre a vida que restou. Uma ficção real. Se é que alguém pode conceber a dicotomia. O fato é que o pai e mãe do garoto fizeram um “protesto-estético-público” no local da morte do filho. Quem nunca viu umas cruzes solitárias à beira do asfalto? Certo dia deparei-me com cinco cruzes cravadas numa curva. Três minúsculas e duas maiores. A solidão e o silêncio da cena mordem a medula: somos túmulos vivos. O “protesto-estético-público” feito pela família espanta (o espanto a que se referia Platão) e enternece. É impossível passar incólume à imagem duma bicicleta branca dependurada num poste igualmente branco. Branco sobre branco. Ao pé do poste, flores, fotos, umas frases (que não me arrisquei a ler), uma faixa preta amarrada ao pé do poste. Um túmulo completo ao lado do asfalto. Aquele silêncio branco da bicicleta, sem suas pedaladas, moldurada pelo azul-céu dos dias de verão, é de uma força aterradora. Aquele trajeto faz lembrar os versos do W. H. Auden “Já não me importam as estrelas: fique o céu todo apagado./Empacotem e embrulhem a lua; seja o sol desmantelado./Esvaziem os oceanos, do mundo sejam as florestas varridas./Porque agora, para mim, nada resta de bom nesta vida.” E o que resta na ossatura daquela paisagem: uma poética, o grito-silêncio que a imagem provoca, o silêncio vermelho, o branco sobreposto ao branco e a difícil arte de carregar as vozes na memória da pele. Tudo isso faz pensar aquela bicicleta branca voando, estática, ao longo do asfalto céu afora.


Marco Vasques

Uma crônica de Rubens da Cunha


Crônica publicada no jornal A Notícia em 2/12/2009


O ENCONTRO


Sonhavam muito em se conhecer pessoalmente. Haviam se falado por telefone, pela internet e por esses canais pareciam íntimos até. Riam, revelaram-se em alguns segredos, expuseram-se até o ponto em que foi preciso se encontrar realmente. A fronteira do virtual precisava ser ultrapassada, eles teriam que enfrentar o teste do “ao vivo”. Agora os corpos seriam expostos: gestos, olhares, cheiros, bocas, contornos físicos que precisavam se encaixar também. Enquanto estavam separados, ou unidos pelo computador, a segurança lhes dava certeza. Eram engraçados, divertidos, sinceros, espalhafatosos até. No encontro, teriam que ser mais comedidos. Começariam o jogo das aparências. Haveria também o enfrentamento de uma verdade quase vergonhosa, constrangedora: cada um sabia mais do outro do que o bom gosto permitiria. O terreno virtual lhes deu essa abertura, se soubessem que se encontraram, que atravessariam a fronteira talvez fossem mais comedidos. Estão frente a frente. Olham-se com certo espanto. “Você é mais alto do que eu pensei.” “Você também”, ele respondeu. “E mais gorda do que parecia”, foi a voz que reverberou dentro dele. “Que orelha estranha ele tem”, foi o pensamento que atravessou a moça. Ambos sorriram tentando vencer a primeira impressão.“E aí?” Os dois pronunciaram ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo pensaram que falta faz o computador, digitar a conversa parece tão mais fácil. Não sabem o que fazer com as mãos, sentam-se num bar. Pedem algo. Os instantes em silêncio perturbam os dois, dentro de cada cabeça várias palavras, várias vontades também de sumir, mas estão ali, se conhecem demais, sabem muito um do outro, por que então não combinaram? Por que a tal da química não funcionou quando colocada na realidade? Insistem mais um pouco, tudo não pode acabar assim, nessa decepção, nesse constrangimento. Se conhecem há tanto tempo, deram tantas risadas, estavam apaixonados, sabiam disso, por que a paixão não sobreviveu fora do computador. “Você não acha estranho a gente não conseguir se comunicar aqui?” Ela arriscou a pergunta, mas não olhou para ele esperando uma resposta, fingiu procurar o garçom. Ele balbuciou um “acho” e também ficou tentando achar uma posição confortável na cadeira. O que fariam? Teria que haver uma saída, um caminho, um olhar, um gesto ainda não explorado e que pudesse vencer a decepção. Olharam-se em silêncio enquanto a porção de frango a passarinho era servida. Ela pegou um pedaço. Ele observou a delicadeza com que ela mastigava. Quis fazer uma piada sobre gula, mas não achou de bom tom. Ela perguntou se ele não iria comer, na verdade querendo perguntar o que eles fariam depois desse encontro frustrado, mas não teve coragem. Conhecia-o bem, deveria haver outra possibilidade. Aguentaram mais alguns minutos. Despediram-se. “Depois a gente se fala pela internet”, ele falou. Os dois pensaram que isso não iria acontecer mais, e essa pequena promessa que não seria cumprida demonstrava que nem tudo deve ser transposto do sonho para a vida real.

Entrevista com Dennis Radünz


DENNIS RADÜNZ / Entrevista por Jacqueline Iensen (Diário Catarinense, 01/12/09)


Como nasceu o livro “Cidades marinhas: solidões moradas”?

Dennis Radünz – Esse livro de “jornalirismo” (o jornalismo lírico) nasceu a cada segunda-feira, durante quatro anos (2004 a 2008). Selecionei 31 de cerca de 210 textos publicados no DC, tomei-lhes o pulso, medi a temperatura, voltei a lê-los para descobrir se ainda respiravam e, claro, considerei a opinião dos leitores e dos amigos na escolha das crônicas e dos contos. Deixei de fora artigos impactantes (o do massacre de Beslan ou a defesa do desarmamento), mas mantive a elegia sobre a vinda à Ilha das cinzas do “emparedado” Cruz e Sousa e a minha crônica predileta, sobre a hipótese dos oceanos-portáteis no interior de Santa Catarina.

Como podemos descrevê-lo para o leitor. Do que ele trata?

Dennis – “Cidades marinhas...” fala da estrela caída no chão da cozinha, da arte de ser feliz, dos apagões e engarrafamentos, fala do Mercado Público, da Beira-Mar e do Sambaqui, e da minha própria infância, do futebol dos meninos do morro do Maciço, de outro menino que descobre o nome das coisas repentinamente, fala dos andarilhos e de amantes sem dinheiro, de melancolias e enormes felicidades. É o livro das solidões moradas. E o “homem de açúcar”, na série de fotos da artista Aline Dias, atravessa as páginas – ele tentou adoçar o mar e acabou se dissolvendo.


O que imaginas alcançar com o livro. Qual é o seu objetivo?

Dennis – Imaginei uma escrita francamente literária, com áreas de inocência e de ironia, para documentar, de fragmento em fragmento, o caos e o cosmo da Ilha de Santa Catarina. Tentei recriar Drummond em “A máquina do mundo”. Procurei me aproximar da sintaxe de Guimarães Rosa. Reescrevi uma notícia da página de polícia e escrevi a crônica-poema “Desterra” sobre o elevado viário que se levanta entre o aterro sanitário e o cemitério São Francisco. É muito metafísico isso! Mas se tive algum objetivo com o livro, foi o de causar prazeres, uma certa incerteza, dois ou mais deslumbramentos.


Qual o maior desafio de um cronista?

Dennis – O desafio de capturar o “coração do instante”, como escreveu o poeta Rimbaud, e, depois, salvar a crônica precária da fome do deus Cronos, o deus do tempo que devorara os próprios filhos e que ainda nos devora... O outro desafio é apossar-se do leitor, porque, como escrevi, “ler é uma possessão consentida”.
Foto de Francine Canto.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Noeli - Crônica - Rubens da Cunha

Crônica publicada no A Notícia, dia 25/11/2009


NOELI


Noeli fez aniversário. Está feliz, me disse. Não com a idade, mas com o todo entorno, está levando a vida e deixando a vida levar. Nem sei se Noeli gosta de samba ou do Zeca Pagodinho, sei que ela gosta de Nana Caimmy e Bruno & Marrone. Noeli é assim: amor em suas demasiadas formas, da elegância lenta de Nana aos berros dos dois sertanejos.
Noeli também gosta de dançar. Igual a todas as mulheres, pena que nem todos os homens gostem de dançar. Há um descompasso aí: a dança nelas é natural, neles parece forçada. Mulheres andando já dançam, com Noeli não é diferente. Talvez um dia encontre um parceiro que lhe leve a bailes intermináveis. Noeli, assim como todas as mulheres, merecem bailes intermináveis.
Noeli teve de aprender certas coisas mais tarde: cozinhar, lavar louça, cuidar da casa. São os percalços da vida, a gente ganha, a gente perde. Igual na canastra, igual quando se dá o vivo e quando se dá o morto.
Noeli sempre ri, quer dizer, nem sempre: já a vi chorando, cinematograficamente, debaixo de uma chuva torrencial, os sapatos nas mãos, a tristeza no rosto e toda a água sobre o corpo. Água e lágrimas, ela me disse. Lágrimas também pelos amores idos, largados, mas daí tudo dentro do quarto, toda cena básica do desespero: a taça jogada contra a parede, a descida até o chão encostada na porta, o choro e o chocolate e a música mais dolorida. Noeli é assim, igual a todos os que amam e que por um destino ou outro desmancham-se porque o amor desmanchou-se. Claro, esses desmanchamentos são do passado, portanto pertencem ao riso, apesar de que os mais recentes ainda doem um pouco. Ela não fala, mas deixa transparecer.
Noeli é transparente. Mas qual mulher não é? Nisso ela não desvirtua a espécie, nem nesse novo comportamento mais exigente, mais seletivo. Quer ser feliz, mas não a qualquer custo, quer ser feliz por ela mesma, não porque está com alguém. Talvez tenha sido diferente, talvez Noeli tenha vivido mais para o outro do que com o outro. Talvez tenha trocado pés pelas mãos, cabeça pelo coração, mas quem não o fez? Quem fica entregue à certeza o tempo todo? Mas muita entrega cansa.
Por isso Noeli está na encruzilhada de tantas outras: quer alguém, mas quer também espaço, liberdade, direcionar-se sozinha no mundo. O amor, não mais caminho único, mas caminho escolhido entre tantos outros possíveis. Talvez Noeli, e todos os que estão nesse espaço de vida, consigam conciliar suas vontades.
Enquanto isso, Noeli vai vivendo, ora sendo uma música de melodia intrincada e acordes dissonantes de Guinga, ora sendo aquela canção mais simples e grudenta de Victor & Léo, porque Noeli é assim, abarcadora de todas as emoções. E ri e chora e fala pelos cotovelos e bebe com os amigos e come suas caixas de chocolate sozinha. Igual a todas as mulheres, emagrece e engorda e trabalha demais e se preocupa demais: mãe, filha, genro, ex-genro, cachorro, chefe, ex-namorado, ex-marido e toda a lista interminável de preocupações.
No meio disso tudo o riso sincero, a vida seguindo, e o futuro, que a Deus pertence, também pertence à Noeli, porque ela merece.

Rubens da Cunha

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Aproximações de um espantalho


Báçira - segundo estudo



um espantalho em jazz diz

“What is there to say?”

my eyes lie like that. digo.

campo aberto à luz de arado

silhuetas distantes dos lavradores

carpem folhas na lembrança

o Báçira

entre cópulas de algodão amarelo

tem olhos multiplicados pelo sol

nas quadraturas de algodão por dentro

centenas de dias

diferentes em uma só

polegada quadrada de pano

neste tempo sequer papel gravado

presa ao cepo a letra segue no espantalho

dançando ao redor antes ,

o espantalho parece o texto dum livro.

______________________________________________[ na imagem, Hugo Ball no

Cabaret Voltaire,1917.

sábado, 28 de novembro de 2009

Fritz Henle, 1975



Se não se escutam as folhas do arvoredo, Lucana gasta os olhos numa página avulsa do poeta Almafuerte: yo soy un palmar plantado sobre cal e pedregulho. Os vocábulos lidos na frase anterior já estão mortos, derrotados, e unicamente a retina do leitor pode trazê-los à vida com um sopro. Se o vocábulo é sopro e o sopro é vida, sopramos em yo, sopramos em soy, sopramos em un, sopramos em palmar, sopramos em plantado, sopramos em sobre, sopramos em cal, sopramos em e, sopramos em pedregulho. Lucana confessa ao palmar plantado: “Eu sou uma daquelas víboras descascadas junto à fonte fria. Com pinças curvas eu arranco o cérebro dos fariseus – gruta com lesmas – pelas fossas nasais. Eu, com um garfo de ouro, faço um talho na cara da prosódia sonolenta e, debaixo do chuveiro, tento captar, apesar da água torrente, o sentido das palavras em Fernando Pessoa: ‘Atinjo a força de palavras, não para realizar a obra que eu nunca poderia realizar, mas ao menos para dizer com simplicidade por que razões não a realizei’. No espelho, enquanto me enxugo, verifico que na alma continuo sendo uma daquelas gueixas com neve no negro cabelo. Escuto a balada de Narayama e, com a colherinha de açúcar, faço nevar no espírito do chá”.

Fernando José Karl,

um animal impossível do Espírito



Shirin Neshat, 1993



Escutar os poemas

de Marize Castro

pronunciados por ela mesma.

http://www.mudernage.com.br/

Rubens da Cunha e Enzo Potel
Neste dia 26 participei como autor convidado do encerramento da 2ª Oficina da Palavra Cidade-rio, orientada pelo Enzo Potel no sebo Casaberta, em Itajaí, durante todo o mês de novembro. Foram discutidos textos dos meus livros "Aço e Nada" e "Casa de Paragens".

Como tenho obsessão por poemas finais, eis o último de Casa de Paragens

Desusado, abuso os céus da noite caída. Um
anjo pintado na parede. A verdade traça móveis
e livros. Destroça-os. O que não li argumenta-se
se espera. Espúria conexão com o sonho. Nos
rins, um álcool recém filtrado esmorece a
oração. Raspo a pintura até chegar no osso.
Era um anjo suicida e sem coragem, pediu que
eu o matasse. Então, eu fiz a sua morte.


Rubens da Cunha

Dennis Radünz lança seu primeiro livro de prosas




sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um grafismo de Fernando José Karl



Escutar Prelude Cello Suite No. 1

http://br.youtube.com/watch?v=LU_QR_FTt3E&feature=related

Intérprete: Rostropovich.



Arthur Tress, 1987



Ler a novela Senhora do gelo,

de Fernando José Karl

http://www.germinaliteratura.com.br/booksonline_karl1.htm



Shânkara Lis Martins Karl, minha filha


CARTA À MINHA FILHA

Adorei tua carta, Shân.

Breve comentarei, em minúcias,
tudo o que escreveste nela.

O que posso te dizer, agora, é o seguinte:
eu e o Algo (ou o Deus) somos um;
tu e o Algo (ou o Deus) são um.

Nossa origem é celeste: nossa origem é muito profunda.

Quando se fala do Algo, está se falando do quê?

Perceba que, em vez da costumeira palavra Deus, a palavra que se está usando agora é Algo, que é a mesma coisa que dizer x ou mistério. Quando se diz Algo está se afirmando a liberdade, sim, o livre-arbítrio de termos consciência de que somos muito mais que pó.

Se quisermos achar que somos apenas pó, nada mais, é o que seremos: isto é livre-arbítrio: nós escolhemos se vamos ser babacas ou elegantes: nós construímos e despertamos nosso mundo interior, ali onde reinamos soberanos.

O filósofo alemão Nietszche disse: "Deus não nos quer como ovelhas, mas como co-criadores".

O Algo não é ação, mas sublime ação: ação que vem daquilo que é o mais alto em nós: e o que é o mais alto em nós move o Sol e as outras estrelas: o Algo é o amor (outra palavra um pouco gasta): por tudo e por todos: principalmente pelos mais humildes, pobres, fracos.

Quando se diz Algo, está se dizendo, simplesmente, que somos tudo o que nos cerca: somos a luz e a treva; o tigre e a lama; o podre e o vivo; a pedra e a flor; o vento e a chama; o mar e o peixe; a música e o nada; o medo e a força: o Algo em nós é tudo. Mas precisamos, sim, do livre-arbítrio para escolher se vamos ser o podre ou o vivo; a morte ou a vida; o egoísmo ou o amor. A escolha é nossa, Shân, porque o Algo não é palavra nem imagem, mas vida verdadeira, vida em estado puro: música em estado puro.

A palavra Algo nada quer dizer, mas o que o Algo é mesmo, isto faz toda a diferença.

O Algo é cada detalhe do mundo exterior, só que dentro de ti. E é dentro de ti, Shân, que pulsa teu mundo, com chuvas e músicas, delícias e funduras, mel e sono, tempestade e amor.

Devemos serenamente fechar os olhos e escutar a voz do silêncio que há em nós: esta voz é o nosso diamante sonoro.

Se estás infeliz, fecha os olhos e viaje por teu mundo interno, pois ali és uma deusa e és inteiramente livre, sim!

Se não despertamos pra nossa liberdade interior, não somos felizes; e não somos felizes se não reverenciamos o Deus que há em nós. E pode ser que o Deus (ou Algo) em nós seja a coisa mais simples deste mundo. E o que é a coisa mais simples deste mundo, então?

Namastê: o Deus que há em mim reverencia o Deus que há ti, Shân.

Um beijo, com amor

Fernando José Karl

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Mula de Deus - Poema Final de Hilda Hilst

Equus Mulus. A mula, o animal híbrido. A filha do jumento com a égua. Da mãe herda a força e o tamanho, do pai lhe resta a servilidade e a resistência. Nada transmitirá, estéril, incapaz de transcender, descender, eternizar-se. A mula, imanente em seu corpo “pardacim” e “fosco”. A mula escrava, carregadora de fardos, equilibrista, a mula sempre recebedora dos achaques, dos açoites humanos. Que outro animal melhor serviria de metáfora para o poema final da obra de Hilda Hilst? Que outro animal daria conta de ser a montaria de Deus, a possuída de um Deus cheio de escracho? Nem o cavalo com sua elegância, nem o asno com seu tamanho breve, nem o camelo com sua falta de sede, nem o elefante com seu gigantismo, é preciso que seja a mula, a bastarda, a degenerada da espécie, só ela, a vergonhosa mula, conseguirá carregar uma locução adjetiva tão extrema: de Deus.
Rubens da Cunha







Hilda Hilst


in: Estar Sendo. Ter Sido.


MULA DE DEUS

I

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pêlo fosco.
Pois há de rir-se de mim O PRECISO

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sangüinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.


II

Há nojosos olhares sobre mim
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.

Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há de mim um sentir delicioso.
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.

Há alguém que foi luz e escureceu
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai.E era meu.



III

Escrituras de pena (diria mais, de pêlos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma.
Quem há de ouvir umas canções de mula?

Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão
E por que não de ti, poeta-mula?

E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores

Alegrou-se de mim o coração.



IV

Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussuro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.


V

Ditoso amor de mula, Te ouvir murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo.
De espessura e de feridas.


Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula.

Este de mim, mas tão festivo e doce.
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.



VI

Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.


Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...

Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.



VII

Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pêlo e as chagas.

Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra.
Como as mulas de Deus.



VIII

Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada.

Essa sou eu.

Poeta e mula.
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).


terça-feira, 24 de novembro de 2009

Um poema de Octavio Paz traduzido por Marco Vasques



Refranes

Una espiga es todo el trigo
Una pluma es un pájaro vivo y cantando
Un hombre de carne es un hombre de sueño
La verdad no se parte
El trueno proclama los hechos del relâmpago
Una mujer somada encarna siempre en una forma amada
El árbol dormido pronuncia verdes oráculos
El água habla sin césar y nunca se repite
En la balanza de unos párpados el sueño no pesa
En la balanza de una lengua que delira
Ena lengua de mujer que dice sí a la vida
El ave del paraíso abre las alas


Sentenças

Uma espiga é todo o trigo
Uma pluma é um pássaro vivo e cantando
Um homem de carne é um homem de sonho
A verdade não se divide
O trovão anuncia os feitos do relâmpago
Uma mulher sonhada encarna sempre a imagem do amor
A árvore adormecida pronuncia verdes oráculos
A água fala sem parar e nunca se repete
Na dança dumas pálpebras o sono é nada
Na dança da boca é a língua que delira
A língua de uma mulher dizendo sim à vida
A ave do paraíso abre as asas


(Tradução: Marco Vasques)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Francine Canto

Clic de Pedro Revilion