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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Uma crônica de Rubens da Cunha


Crônica publicada no jornal A Notícia em 2/12/2009


O ENCONTRO


Sonhavam muito em se conhecer pessoalmente. Haviam se falado por telefone, pela internet e por esses canais pareciam íntimos até. Riam, revelaram-se em alguns segredos, expuseram-se até o ponto em que foi preciso se encontrar realmente. A fronteira do virtual precisava ser ultrapassada, eles teriam que enfrentar o teste do “ao vivo”. Agora os corpos seriam expostos: gestos, olhares, cheiros, bocas, contornos físicos que precisavam se encaixar também. Enquanto estavam separados, ou unidos pelo computador, a segurança lhes dava certeza. Eram engraçados, divertidos, sinceros, espalhafatosos até. No encontro, teriam que ser mais comedidos. Começariam o jogo das aparências. Haveria também o enfrentamento de uma verdade quase vergonhosa, constrangedora: cada um sabia mais do outro do que o bom gosto permitiria. O terreno virtual lhes deu essa abertura, se soubessem que se encontraram, que atravessariam a fronteira talvez fossem mais comedidos. Estão frente a frente. Olham-se com certo espanto. “Você é mais alto do que eu pensei.” “Você também”, ele respondeu. “E mais gorda do que parecia”, foi a voz que reverberou dentro dele. “Que orelha estranha ele tem”, foi o pensamento que atravessou a moça. Ambos sorriram tentando vencer a primeira impressão.“E aí?” Os dois pronunciaram ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo pensaram que falta faz o computador, digitar a conversa parece tão mais fácil. Não sabem o que fazer com as mãos, sentam-se num bar. Pedem algo. Os instantes em silêncio perturbam os dois, dentro de cada cabeça várias palavras, várias vontades também de sumir, mas estão ali, se conhecem demais, sabem muito um do outro, por que então não combinaram? Por que a tal da química não funcionou quando colocada na realidade? Insistem mais um pouco, tudo não pode acabar assim, nessa decepção, nesse constrangimento. Se conhecem há tanto tempo, deram tantas risadas, estavam apaixonados, sabiam disso, por que a paixão não sobreviveu fora do computador. “Você não acha estranho a gente não conseguir se comunicar aqui?” Ela arriscou a pergunta, mas não olhou para ele esperando uma resposta, fingiu procurar o garçom. Ele balbuciou um “acho” e também ficou tentando achar uma posição confortável na cadeira. O que fariam? Teria que haver uma saída, um caminho, um olhar, um gesto ainda não explorado e que pudesse vencer a decepção. Olharam-se em silêncio enquanto a porção de frango a passarinho era servida. Ela pegou um pedaço. Ele observou a delicadeza com que ela mastigava. Quis fazer uma piada sobre gula, mas não achou de bom tom. Ela perguntou se ele não iria comer, na verdade querendo perguntar o que eles fariam depois desse encontro frustrado, mas não teve coragem. Conhecia-o bem, deveria haver outra possibilidade. Aguentaram mais alguns minutos. Despediram-se. “Depois a gente se fala pela internet”, ele falou. Os dois pensaram que isso não iria acontecer mais, e essa pequena promessa que não seria cumprida demonstrava que nem tudo deve ser transposto do sonho para a vida real.

2 comentários:

Marco Vasques disse...

Boa mesmo. Dia desses num encontro com um amigo ele disse que tinha que ligar para casa. Perguntei o motivo. Ele respondeu que o filho estava se masturbando no computador. Baita texto. Abração.

Flavia Milena disse...

Olá Rubens! Cheia de realidade esta sua fantasia!