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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Uma crônica de Rubens da Cunha

ROTA DE FUGA

Ele vai ao teatro. É segunda-feira. Já foi ao teatro na sexta, no sábado, no domingo. É no palco que acontece a vida. É no palco que ele se molda em cada personagem, em cada perdigoto dos atores. Não que seja um espectador imbecil que não perceba as falhas, tanto que, igual na vida, tem dias no teatro que tudo é sem graça. Igual na vida, alguns criadores insistem em tratar o próximo pelo viés da idiotia. Fica triste quando isso acontece. Vai sempre com boa-fé, quer sempre o melhor, quer que todo o espetáculo funcione, que aconteça com verdade o suficiente para que ele saia de sua realidade menor e adentre a realidade maior que se cria à sua frente.Quer sempre isso, mas nem sempre lhe dão isso, porque insistem em diminuir seu espaço de inteligência e sensibilidade, insistem em fazer tudo sem paixão, sem poesia, apenas com a pretensão dos donos da verdade. Quando acontece, quando o caminho de sua fuga é um espetáculo abridor da visão, ou espetáculo-abismo, destes que ele adora saltar e entrega-se ao voo.Vai ao teatro na segunda-feira. Tão difícil uma peça nesse dia antipático. Ele vai feliz, imaginando como vai ser, dessa vez não sabe nada sobre a peça. Apenas o horário e o local. Mais nada. Está tudo do jeito que ele gosta. Encontra um lugar bom. Senta-se. A curiosidade lhe contornando a pele. Logo começa. Vê alguns conhecidos, palavras amenas, cordiais.Poucos sabem que ele usa o teatro como rota de fuga. Julgam-lhe inteligente, aplicado, talvez um pouco excêntrico. Não interessa-lhe o teatro da plateia, as mulheres e seus cabelos, os homens e seus olhares. Ele olha somente para o palco. Apenas uma cadeira. O que será que virá? Quem será que sentará nessa cadeira? Anunciam o começo. As instruções de sempre. A luz apagada. Dessa vez, a curiosidade já está toda gadunhada em sua pele. É o teatro, é sua rota de fuga se abrindo. Ajeita-se.Lá vem a atriz. A música é um tango. Os movimentos da atriz parecem convidá-lo a dançar também. Mas algo já começa errado, algo demora demais. Ele fecha os olhos por um momento, não pode ser. É segunda-feira, é teatro na segunda-feira, será que não vai dar certo? A atriz começa a falar, expõe onde está e o que veio fazer ali. Os gestos continuam. Ele sinceramente quer dar à peça uma chance. Quer fugir por essa peça e não dessa peça. Mas algo não deixa, o texto idiota, os gritos da atriz, os gestos imaturos, os clichês de sempre. Ele se contorce, pedindo-se calma, foram apenas dez minutos, tem tempo, tem um longo caminho pela frente.O caminho foi longo mesmo. O teatro na segunda-feira não lhe fez bem. A mulher no palco era uma histérica que apenas lhe acrescentou um pouco mais de segunda-feira em sua vida. Nada funcionou, pelo menos pra ele, pois todos os outros gostaram, aplaudiram, riram, encontraram suas rotas de fuga naquela peça. Tão esperançoso que estava, tão querendo se distanciar da vida e entrar no teatro. Não foi dessa vez. Mas amanhã tem mais. A terça-feira não é tão antipática, talvez a peça de amanhã lhe ofereça uma rota de fuga melhor.
Rubens da Cunha

4 comentários:

Marco Vasques disse...

Rubens, eu estava na segunda vendo o espetáculo de liralmente de segunda. Sintoma é um espetáculo que padece de diretor. Bem, eu sou este cara aí. Também não gostei e fiquei horrorizado com os aplausos. Já na terça, na terça não. O espetáculo Réquiem é um prologamento poético da vida. Uma imagem mais bela que a outra, uns personagens que, parecem, trepam com os atores. Uma trepada daquelas.... hoje tem mais teatro. Abração. Marco

Marco Vasques disse...

Só para dizer, gostei do texto! Bastante!

Marco Vasques disse...

Só para dizer, gostei do texto! Bastante!

Denise disse...

É verdade, tem teatro que não acrescenta nada numa segunda-feira, numa terça-feira e em nenhuma outra feira...
Noutro dia assisti, talvez pela enésima vez, uma performance com aquele texto do Karl Valentin: "Por que os teatros estão vazios?"
Talvez por isso!
Adorei a crônica.