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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010



Coisa: aquilo que de algum modo é: assim coisa pode ser o Deus, uma linha de Paul Klee, um piano de Thelonius Monk, o areal, a xícara, o pão, o medo, o ventilador, a moeda persa, a clavícula, o aqueduto, a música de Mozart, o calabouço, o demônio, o vento, o abismo, a salgada branca espuma, o mantra, o astrolábio, o senhor Buddha. Nenhuma coisa é quando falta a palavra. Somente quando se encontra a palavra para a coisa, a coisa é coisa. Não será essa coisa, o que e como ela é, algo em nome de seu nome? Não se trata de agarrar com a palavra o que já está vigorando, nem de a palavra ser instrumento para a apresentação do que é dado. A palavra nasce no instante em que está sendo respirada: o uso é sua respiração. A coisa: o Deus, uma linha de Paul Klee, um piano de Thelonius Monk, o areal, a xícara, o pão, o medo, o ventilador, a moeda persa, a clavícula, o aqueduto, a música de Mozart, o calabouço, o demônio, o vento, o abismo, a salgada branca espuma, o mantra, o astrolábio, o senhor Buddha: só começa a respirar quando usamos a palavra. A palavra é que dá viço à coisa que, de algum modo, é. A pedra preciosa e delicada da palavra some quando a palavra falta. A palavra é um nada e esse nada é a voz do silêncio: a voz insonora. A voz do silêncio: aquilo que se ouve e não tem som. Aquilo que se ouve e não tem som, o que é? É nossa alma contruída durante o tempo: e alma é dessa matéria indizível: diamante sonoro ou perfume de mulher.




Fernando José Karl,

já morto e enterrado na perfumada estrela

3 comentários:

Marco Vasques disse...

É isso aí domador de palavras indóceis!

Cristiano Moreira disse...

meu caro karl, acho que, de alguma forma, há um diálogo obre a linguagem entre nós. que alegria isso dá. a coisa em si, la cosa stessa, como diria ainda o agamben, seria a pura imanência,não achas?

grande abraço.

cm

agência asserial pedro disse...

Karl, vou citar de memória, é possível, então, que esse magistério seja equívoco e que eu cometa ofensas e atraia sobre minha cabeça um karma terrível. A vida sem riscos, no entanto, não vale a pena. Possa o risco imenso espalhar benefícios para todos os seres.
Do imensuravelmente meritório sutra do lótus:
"Subhuti, que achas? Que pensas, Subhuti? Acaso o Tathagata alcançou a felicidade imensurável da sabedoria incomparável?
"Honrado pelo mundo, sem dúvida o Budha alcançou a felicidade imensurável da sabedoria incomparável.
"Subhuti, a felicidade imensurável da sabedoria incomparável é apenas um nome."
Karl, que dizes? Que pensas, Karl? Acaso as coisas são para os nomes das coisas que são? Ser é ter nome? Aquele Adão antes da queda é mesmo o demiurgo, partícipe da criação quando chamado por Deus a nomear as coisas sem nome? Karl, que achas? Que pensas, Karl?

Abraços,
Pedro Soares.