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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Uma texto de Marco Vasques


CENA 11: SIM


Ampliar o silêncio é uma tarefa difícil e para poucos. A poesia geralmente alcança uma pronúncia errante sobre um silêncio que dói, esmaga, choca e se esfacela, mas que precisa e necessita encontrar uma vibração. Todos sabemos daquela matéria difícil de pronunciar. A matéria-silêncio que nos imobiliza e nos locomove. Quando alcançamos o silêncio, e, enfim domamos sua pronúncia logo outro silêncio nos ocupa. E erramos numa sucessão de silêncios. Somos uma espécie de cavalo selvagem na busca atávica por capturar o impronunciável. Há teóricos da poética que dizem parecer paradoxo, mas a grande matéria da poesia é o silêncio. Um silêncio tem muita potência para morrer na sua própria imagem. Assim saio pensando do espetáculo SIM: a nova experimentação do Grupo Cena 11 Cia de Dança. Desconserto constante da pele. Ampliação da pele. Construção de vazio. Câmara negra que cega para redimensionar a visão. Violência contínua. SIM é um espetáculo intimista que coloca o espectador dentro do espetáculo o que equivale a dizer que coloca a plateia dentro de si mesma. Resignificação do vazio. Uma caixa preta projetada numa tela branca. Projeção da pele e do movimento. No riso dos dançarinos e no choro: lâmina de luz: nevralgia tragicômica. Os balbucios da canção Bandeira Branca. Bandeira branca sobre o preto. Branco sobre preto. Preto sobre o branco. Tourada que invade a plateia, mas que não atinge com o toque. Violação pela ocupação e movimento. O som emitido pelos espectadores e o ritmo e a respiração dos atores são capturados por microfones e, se amplificam o ruído gravam na memória a fratura do breu. A força e a violência de SIM está no silêncio e suas construções. Ao fim do espetáculo os microfones são oferecidos ao público para que o mesmo tente verbalizar o que foi visto, não é de se estranhar que uma enxurrada de asneiras sejam proliferadas, pois a fratura e a energia existentes no espaço não permitem o uso do verbo. Qualquer coisa que se diga soará dissonante à distorção da ausência criada. Ao sair do espetáculo pensei na morte-silêncio-ocupação. “Sim: ações integradas de consentimento para ocupação e resistência” vai além da discussão da ocupação do espaço cênico, do jogo entre espectar e atuar/dançar. A força do espetáculo reside na metáfora da troca dos corpos, na metáfora da carne e sua presença-ausência que multiplica o sem-sentido da ocupação e procura um sentido. Um grafismo poético na pele do movimento. Uma espécie de Sísifo, aquele do filósofo francês Camus, a reordenar a tarefa da reinvenção e da ocupação do corpo-sutileza, corpo-agrura. Um corte na verborragia inócua. SIM. Sim a Alejandro Ahmed e seus bailarinos construtores de silêncios audíveis.

5 comentários:

Gabriel Gómez disse...

Silêncio... Silêncio... Quanto silêncio na poesia...
Abraço!

Marco Vasques disse...

Cara, final de semana vou ler o teu Cerimônia do Silêncio. Estou curioso para morder alguns silêncios. Abração. Ah! O CENA 11 é imperdível mesmo, se passar pela tua cidade não deixe de assistir. Abraço amigo.

Graça Carpes disse...

Grandioso... O silêncio da palavra.
:)

Rossana disse...

Barbaridade!! me emocionei...

Christiano Scheiner disse...

Marques, gostei muito do teu texto, parabéns! Você expressou bem o que muitos calaram.
abraço forte fortíssimo \o/