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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Uma crônica de Rubens da Cunha

TERREMOTO DIÁRIO

As mãos denunciam a velhice. Se pelo menos parassem de tremer. Não tão velha assim. O que lhe acaba são estas mãos. Foram bonitas, lisas. Agora tremem, tremem sem parar. Não se lembra bem quando começaram a tremer. Era manhã, disso tem certeza. Durante o café, a xícara cheia, não conseguiu segurar. Não entendeu muito bem, pensou em procurar um médico, mas depois esqueceu. A partir daquele dia os tremores ficaram cada vez mais constantes. Ninguém soube diagnosticar direito. Parkinson não era. Síndrome rara, disse o médico, precisamos de mais estudos. Desde então espera, mas dos doutores obteve somente o silêncio. Olha-se no espelho. Nariz rapina. Boca crespa. Olhos fundos: se visse em outra, não iria gostar. Tantos anos se passaram que perdeu a conta. Contou o tempo alguma vez? Não. Jovem, encaminhava-se inteira sobre todos. O tremer vinha dos homens que a cortejavam, que balbuciavam elogios. Via também os lábios das outras mulheres tremerem de inveja. Contorciam-se diante dela, que agora treme e inveja as outras velhas firmes. Senta-se na varanda. Sol lá fora. Crianças brincam. Chegam perto: porque a tua mão treme? Não sabe resposta. Esconde nos bolsos. A vovó tá doente, por isso treme. Parece mão de bruxa. Ouve a sentença de uma das crianças. Ri por fora. Faz um movimento de garra com as mãos. Os meninos saem correndo, voltam a brincar. Por dentro: voz aguda de criança. Parece mão de bruxa, mão de bruxa, mão de bruxa. Dói muito. Chora. Mão de bruxa. Tenta segurar as mãos. Mão de bruxa. Com dificuldade entra na casa. Tremendo, limpa lágrimas, na verdade espalha lágrimas sobre o encavado da cara. Suja a cara de sal. Chora mais do que pode conter. Mão de bruxa. Não tão velha assim. Encosta-se na parede. Toda a cozinha treme. Mão de bruxa. Azulejos descolam-se. O piso solta-se. O teto começa a ruir. Quadros caem. Armários tombam. Tudo treme. Mão de bruxa. As paredes internas da casa sucumbem. Não para de tremer. Todo o corpo estremece. Um coro de crianças grita dentro de suas orelhas: mão de bruxa, mão de bruxa. Telhas voam, caibros esboroam-se. Mundo treme. Ela quer parar, não consegue mais. A casa implode. Debaixo dos escombros continua tremendo. Não grita “socorro”. Não ouve sirenes, não se dá conta do desespero da família. Treme apenas. Horas passam. Deitada sob os entulhos da casa. Milagre! Gritam, milagre estar viva. Sai andando. Nada aconteceu. Como pode, meu Deus? Agasalham-na. Hospital, observação. Milagre. Sempre esta palavra espúria saindo entre dentes dos conhecidos. A casa desmoronou, ninguém viu nada, ninguém sabe como foi isso. Ela viu. Ela sabe. Transferiu sua tremedeira para as paredes. Enfraqueceu a casa com sua fraqueza. Queria que o mundo sentisse o seu terremoto diário. Observa as mãos de bruxa: enfaixadas. Os curativos começam a tremer.

5 comentários:

Marco Vasques disse...

Que densidade psicológica Rubens! Teu texto me toca nesta tarde chuvosa. Abraço.

Cristiano Moreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cristiano Moreira disse...

parece luchino visconti. A terra treme. ontem nos noticiários,um louco muçulmano disse que a terra treme por culpa da beleza das mulheres. sabe lá? abraço rubens.

Rubens da Cunha disse...

obrigado Marco e Cristiano.
Essa declaração do mulçumano merece outra crônica :)

abraços chuvosos

Marco Vasques disse...

É verdade, se a terra treme ou não por causa da beleza da mulher, eu posso dizer que tremo... ahahaah e como tremo. Essa é boa... existe maluco para tudo. E olha que elas só mostram o rosto e a canela... se mostrarem mais a terra vai voar... ahahaah