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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Leitura de Poemas dia 04 abril

Ontem dia quatro de abril, ( a pouco mais de06 horas) fizemos a proposta leitura de poemas no Coisas de Maria João, em Sambaqui, Florianópolis.
Deixo aqui os dois poemas que li. Poemas sem moradas em livros.

Báçira

I

um cartapácio de folhas secas e pano

estralam sob as digitais

as palhas, as falas, o solo, as solas

rachadas, hidratadas

um corpo

igual sob a luz q desce a oeste

ao som comprido de um oboé.

quero mesmo todas as falhas

as frestas todas as cores todas os dias

a dança de todas as noites e a imobilidade

de lugar outro, tempo outro, os mesmos no exterior

da maquina do Dr. Faustroll

poucos vêem

outros menos ainda

dançam.

ser cartapácio

desperta um desejo de síntese.

memória, até parece.

por isso as digitais

suas vertigens e deltas

povoam estas margens

olhos baixos bulbos de luz intensa

porém embargada

não chove, não chove, não chove

(assim a seara seca sob as solas)

palavras verdes, húmus, volutas, poeira:

flores maduras sob o sol

desidratam as tatuagens

onde os olhos não alcançam

quero te ver dançar

na pele da tarde talvez

II

povôo este território onde antes mar,

sua desmedida quantidade de pétalas

esta guirlanda inerte na areia,

ignorada, pode mentir, porque tem sangue.

não faz diferença, talvez mau agouro.

distante assim pro mar a maresia

dança o espantalho de costas. aqui. Longe da foz

ilumina-o as frases do trompete

as pétalas que deixei na beira da praia

agora, uma esquadra sem bússola

estrelas boiadas, borboletas marinhas

virei as costas na partida, segui

os mesmos passos do espantalho, do Báçira

tudo gira ao seu redor, ao meu. ali, dançando. no campo árido

como extensão que só existe entre as palavras,

o enorme silêncio. talvez aqui a minha casa

talvez aqui, sinta, como no mar, a extensão

e o solavanco, as fronteiras rangendo ao longe

planto e pesco neste espaço

povôo as falhas das letras, minha mais cara não sabência .

quem sabe em breve floração

a qualquer momento podemos não ter o solo,

dizemos, então: vento.

diante de todo este espaço:

_ um campo re-coberto de naufrágios.

[o espantalho olha de lado, sorrimos]




*



a bicicleta de H.H.desmontada

para Rafael Duarte

antes mesmo do ronco,

da corrente que enguiça

da mola, da mente;

o ferrugem a banguela - a feia

esta que foi, é

lambe o chão

onde cospem os homens

que a modorra carcome

esta sim

aquela que abre a carne mole

para passar uma ponte

um gato com rato na boca

uma boca de lobo com a gengiva inflamada

tentei ainda, tentamos

antes ainda do ranger de dentes

quando os pedalins ainda eram cataventos

lá, nesse lugar que é bueiro

mesmo lá havia brisa

onde a praça ? onde dança a feia?

onde o morro atropelado de teobaldo?

antes ainda

tento lançar minha âncora

fincar o dormente

ver alguns raios da roda

ou do sol

antes do mar da ponte da feia da praça

antes da catinga daquela cinza

fuligem em volta do corpo

antes (onde estávamos?)

um abalo sísmico

o dormente é o antes

o lugar ainda da partida - a ilha a ilha

o ferrocarril da mordedura exata

shhhhh anda rapaz diz o nome dela

_ ó seo, a feia!

então, necessário o retorno.

volto ao inferno

desço a memória

q agora achatada pela fumaça é

escadaria longa, pneu furado

o caminho é diferente

rondando feito bólide aceso na retina

em cabotagem a caixa craniana

baile de marimbondos

caminho diferente depois daquela noite

crescem heras em todos os edifícios

onde, onde crescem heras (?) por todo corpo da ponte

sobre a gengiva da feia

o corpo todo da feia:

o ornamento ganha enfim a fonte, a feia, a falta

a noite ao avesso,

buscava um corpo para habitar.

II

ainda era tudo depois

depois do ronco e da queda

depois do susto e da fenda

depois do rosto, a ruga.

viste já umarruma, na tez da noite?

é assim:

um fio de descarga, um arremedo de poeta, um conjunto de caras falando falando falando

um sonho com um galho na mão, procurando água no poço.radiestesia sem fim e começo

pulmão laminado pelo aço da china, a distância ,a distância que a memória exige. Assim.

aquele rosto falava comigo

ele

um olho maior que o outro

um raio atravessava e ouvia-se

“a poesia não está nisso”

nessa prece, nessa pressa

de engolir em seco.

outro rumor

sob a couro da carta virgem

alí ó – olha

duas bicicletas

pedalando forte sobre a ponte

esse outro ruído não são dentes

são pneus descolando do asfalto molhado.

Assim: páginas nos dedos

a língua do letes lembra a sombra daquela noite

saliva no leste um sol simulando novo começo.

Anda rapaz, larga esta margem de rio.


Cristiano Moreira


Um comentário:

Í.ta** disse...

teus poemas são bons demais, cristiano.

grande abraço daqui da xarraguá!