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quarta-feira, 24 de março de 2010

Um texto de Ryana Gabech

Alice fora da Casca

Alice encontra a Lagarta no terminal de ônibus de Florianópolis:
- Você nunca vai trabalhar, menina? Sempre neste mundo da fantasia, crescendo e encolhendo....Só falta a cestinha de maçãs da bruxa! Ara!
-Mas eu sou uma criança! Estou indo para o Alaska, encontrar o Alce Dourado!
-O que você vai ser quando crescer? A propósito que tecido péssimo para uma garota com a pele tão fina, Alice. Você não tira esse vestido azul ha séculos!
A Lagarta pega a mala antiga, a alça de metal emperra, ela abre a mala, tira o que tem dentro e coloca numa sacola plástica. Joga a mala na rua, caximba e diz:
-Adoro ver os carros desviarem seus cursos. Caximba três vezes.
-Às vezes eu queria ser aeromoça ou professora. Alice fala insegura.
-Vocês jovens sempre com sonhos tão distantes. Porque não pensa em ser uma cabeleleira em Tagaçaba? Ou ainda, a cozinheira predileta de um posto de estrada em São Luís do Maranhão?
-Mas posto de estrada é sujo. E eu odeio cigarro. Eu prefiro trabalhar em...Alice começou a ficar nervosa, pois não conseguia pensar em algo diferente, já que estava condicionada a escolher entre ser professora ou aeromoça..Até que lembrou:
-Em um orfanato...Isso! Eu preferia trabalhar em um orfanato!
-Para quê? O destino é cheio de seres desovados e sem casco.
-Mas eu gosto de ajudar as pessoas. Eu adoraria contar histórias para as crianças abandonadas de...Israel!
-Você diz isso porque é jovem, mas o fogo sempre abranda. Essa mania de pensar tão longe me irrita!
-Como eu devo agir então? Dona Lagarta ofendida?
-A vida é cheia de magia Alice. E eu não estou ofendida, apenas tenho algo que você não têm - casca!
E a Lagarta foi entrando no ônibus lentamente, Todos os passageiros tinham entrado,o cobrador já estava bufando.
Alice queria ir embora mas esperou o último degrau, como se soubesse que a Lagarta ia falar mais alguma coisa:
-Não queira muito Alice. Lembre-se de doar alguns caramelos, mas não o último. Dar é feminino de dor, Alice!
-Mas...
-Não queira muito Alice!
E a lagarta foi-se embora deixando um rastro de fumaça.

2 comentários:

Protesto disse...

"Dar é feminino de dor"

Muito bom mesmo.

Adorei.

Cristiano Moreira disse...

conterrânea e bela poeta. estás advertida (com a doçura que mereces) e convocada (pela inexistente autoridade que tenho) a não sumires deste sitio. não por tanto tempo! bom ler você. beijão.