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terça-feira, 22 de junho de 2010

FITA - FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO DE ANIMAÇÃO



Por Marco Vasques

FITA: NOITE DE INTERNACIONAIS

Tenho reiterado que teatro é reverberação. E cada vez mais a arte cênica vem demonstrando que é luz. Que é o exercício de acender-se e apagar-se. Fênix é mesmo a dimensão poética da arte dramática. Uma peça teatral é um poema que se reinventa, porque neste poema é possível o ajuste do ritmo, da luz, da carne, da voz, do som, do silêncio, da cor e da carnação. Tudo para tocar o outro. Iluminar o outro. Tal qual Octavio Paz suspeitava da poesia, o teatro é máquina de transformação. A arte é a máquina de transformação necessária para nos purgar do mundo reto, pasteurizado, mecanizado e cheio de apascentadores de plantão. Na primeira noite do FITA (Festival Internacional de Formas Animadas), que acontece até o dia 27 de junho em Santa Catarina, tivemos um noite de luminescência. A noite foi dos espetáculos internacionais. Chile, Bélgica e Espanha foram os países que mostraram seus trabalhos na primeiríssima noite do FITA. Vamos a eles.

Construtores de mínimas imensidões

Do Chile, a companhia OANI, criada em 1998, com o objetivo de trabalhar com atores, bonecos e explorar distintas linguagens cênicas apresentou três pequenas narrativas-poemas via Teatro LAMBE-LAMBE. O Teatro de LAMBE-LAMBE também é conhecido como Teatro de Miniaturas. E não podemos esquecer das bonequeiras Ismine Lima e Denise di Santos que criaram o gênero Lambe-Lambe aqui no Brasil em 1989. O gênero é, seguramente, uma derivação dos fotógrafos lambe-lambe. As narrativas-poemas apresentadas pela companhia OANI, dirigidas pelo catarinense Luciano Bugmann, foram Amores de Puerto, Dia de Volantín e El perro Babarito. Os dois últimos espetáculos nos tocaram em especial. Dia de Volantín (dia de imaginar, voar) já que a tradução da palavra volantín, em português, é pipa. O espetáculo apresenta uma moça imersa no mundo da imagem repetida pela televisão. Após passar por inúmeros canais ela resolve abrir a janela da sala. Ao virar seu olhar para outra direção a moça viaja por imagens poéticas insuspeitadas, e, a nós, reféns da beleza, só resta viver o mundo feérico imaginado pela encastelada menina. A técnica usada para este espetáculo-miniatura foi a de sombras. Um espetáculo de 4 minutos capaz de ficar uma eternidade na pele. Já El perro Babarito apresenta uma cena cotidiana de uma senhora que limpa as sujeiras de seu cão. Irritada, ela dá ao cão uma poção para acalmar o bichinho. Após beber o líquido o cachorro também dorme e navega (literalmente) entre a fantasia e o pesadelo. A técnica utilizada na execução deste espetáculo é a de luz negra. A companhia OANI é construtora de mínimas imensidões algo incomum no mundo megalomaníaco em que nos encontramos. O grupo domina várias técnicas do LAMBE-LAMBE. E Matsuó Bashô revive: “Nesta noite/ninguém pode deitar-se:/ lua cheia.”


A filosofia do riso

O ator belga Stéphane Georis e uma cômoda. Este é o cenário do espetáculo Le Polichineur de Tiroirs. Nada mais se faz necessário para que o riso e indagação aconteçam. Nas gavetas da cômoda: todos os filósofos: Platão, Sócrates, Aristóteles, Tomás de Aquino, Kierkergaard etc. Nas gavetas da cômoda: uma infinidade de objetos que ganharão sua fabulação. Georis encara uma espécie de professor de filosofia e aposta na filosofia do riso. Transita entre os cínicos e os céticos. Inverte a pergunta de Diógenes e nos mostra exatamente onde está homem. Da filosofia do amor à metafísica ele vai dando vida e provocando riso a partir de alegorias e metáforas da nossa condição. Em um dos quadros criados por ele uma banana representa a lua, uma luva amarela (cheia de ar) o sol e uma laranja a terra ironicamente embrulhada em um papel azul que ficciona o ozônio. Neste quadro somos meros alfinetes espetados na laranja. Alfinete que será o responsável pela explosão/destruição do sol. Tudo em Le Polichineur de Tiroirs é exato, pensado. Toda a ação, mesmo as inúmeras improvisações, tem uma coerência interna e rítmica pouco vista em espetáculos desta natureza. Somos mínimos, mas cada homem é um sol. Somos rios libertos, mas nos encaixotamos. Outro quadro extremamente irreverente e profundo é o da criação do mundo. Eva, Adão e a Serpente são representados por uma banana, um pepino e pimentão respectivamente. A alegria deste mestre do riso e sua capacidade de manipular objetos é um ato puro de poesia, de encantamento. Le Polichineur de Tiroirs é um espetáculo universal e tudo nele acontece. Não há barreiras para que o jogo teatral se torne pleno e para que plateia e ator se comuniquem. O segundo espetáculo da noite de abertura do FITA lembra muito o que Brecht dizia “Nem sequer se deverá exigir ao teatro que ensine, ou que possua utilidade maior do que a de uma emoção de prazer, quer orgânica, quer psicológica”. Le Polichineur de Tiroirs nos apresenta prazer orgânico, psicológico e, ainda, nos revela o mundo tal qual ele é, como queria Barthes. Sim ao palhaço das gavetas e sua arte. Sim!


Um certo Don Juan


Há várias versões para as incursões amorosas do mítico Don Juan. Uma coisa é certa e muitos historiadores estão de acordo: seu primeiro relato se deu no princípio do século XVII. Há o Don Juan que estupra uma donzela e mata o pai; o que é um mulherengo inveterado e que se disfarça para ludibriar suas presas; o Don Juan envelhecido e sem forças. Este último é o do espetáculo Don Juan, Memória Amarga de Mi. O mito do galanteador já virou ópera, filmes, novelas, peças teatrais etc. Sua figura vive no imaginário popular e mesmo quem nunca tenha lido algo sobre ele sabe o que moveu sua vida: conquistar e amar as mulheres, todas que puder. O Don Juan que a Companyia Pelmànec, da Espanha, apresentou na abertura oficial do FITA é o velho sem forças e que tem que conviver com os seus demônios, suas conquistas e suas promessas nunca cumpridas. O espetáculo, diga-se já de saída, é impecavelmente bem feito. A iluminação e o cenário criam uma atmosfera de tristeza, de sofrimento e favorecem a entrada na psique de Don Juan. O espetáculo explora a solidão do velho Don Juan, que agora é visitado por todas as mulheres que amou/enganou. O ator/manipulador é de uma capacidade técnica pouco vista em atores/manipuladores e a direção do espetáculo, assinada por Maria Castilho, nos remete aos bons tempos em que o teatro era feito do encenador para o ator, do ator para o encenador. Contudo, parafraseando um espetáculo aqui da terrinha: nem tudo são flores se tu fores. O fato é que espetáculo Don Juan, Memória Amarga de Mi exige muito da fala, da língua. O público se mostrou impaciente em vários momentos por não compreender o que o ator/manipulador nos dizia. Neste caso, vai aqui uma sugestão para a organização: ou se coloca uma legenda ou se passa a selecionar espetáculos mais universais, em que a língua não seja um fator determinante para a compreensão do todo do espetáculo. Não podemos esquecer que o espectador não tem obrigação de saber outra língua. E neste caso, podemos assegurar, mesmo que o ouvinte tenha estudado a língua espanhola perde parte do que é dito, dada a velocidade com que o texto foi à cena. Porém, cabe reafirmar que o problema é apenas de decodificação da língua. A decodificação dos elementos primordiais e universais do teatro, postos em cena pelo grupo com extremada sofisticação, foi possível. Memória e sentido. Desejo e impotência. Prisão e liberdade são os temas desse Don Juan que vive num mosteiro com um padre glutão e seu acólito com propensão a doublé de Don Juan. A primeira noite do FITA foi de poesia e partituras poéticas perfeitas. Fomos do haicai ao épico. Então fica aí a sugestão para a semana toda: vá ao FITA.

3 comentários:

Priscila Lopes disse...

Marco, quero te escrever, entrar em contato. É sobre os Cantares Catarinas... mas o e-mail retorna; acho que não usas mais aquele que tenho, q nem sei de onde tirei.

Marco Vasques disse...

Priscila, envia para vasques_marco@hotmail.com beleza? Beijo.

luxluli disse...

Sim, concordo com vc sobre o último espetáculo..porém, eu pessoalmente, não me importo em entender as palavras, quando elas conseguem me balançar não pelo seu sentido..mas concordo com vc..este espetáculo em particular dependia muito de sua narrativa contada atraves do texto falado..enfim, consegui "me divertir" com as falas mesmo entendo muito pouco do texto já que o fato de ele ser dito em espanhol e bem dito claro, trouxe um charme para toda a cena de Don Juan. Besitos e até!! Queremos mais textos seus!!!!