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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Homenagem a Wilson Bueno



Por Marco Vasques




Amigos: pensei em escrever um texto sobre o amigo Wilson Bueno, sobre alguns de nossos encontros literários, as conversas sobre parar de fumar. Essas coisas: os inúmeros e-mails trocados, a estupidez de sua morte, a estupidez da morte, a violência gratuita, enfim, sobre o absurdo de existirmos do modo como existimos. Contudo procurei nos meus arquivos e resolvi partilhar com vocês a última entrevista que fiz com Bueno. Presto esta honemagem com uma orquestra fúnebre no coração.


Bolero’s Bar, seu primeiro livro, causou impacto em vários escritores. João Antônio, por exemplo, ficou tão impressionado que escreveu um ensaio de duas páginas no jornal O Estado de S. Paulo assim que o livro saiu. Já nesse livro inicial, você une poesia, conto e crônica. Como você classificaria essa obra? Qual a importância dela na sua trajetória?
O velho Bolero’s..., como eu costumo chamar – que terá, agora, no início do ano, sua primeira reedição, revista e ampliada, pela Travessa dos Editores, do meu amigo Fábio Campana –, se constituiu em minha tardia estréia literária, com quase 38 anos. A nova edição, por sugestão de Jamil Snege, foi desdobrada em dois volumes – o Bolero’s Bar propriamente dito e Diário Vagau – abrigando, ambos, textos inéditos mas, se assim podemos dizer, da mesma família. É um livro inaugural em vários sentidos – primeiro porque atende à insistência com que Paulo Leminski desejava que eu estreasse em livro, ele que me acompanhava as escriturações obsessivas desde o começo e, até ali, com um fervor raro nele diante de qualquer autor que ensaiasse os primeiros vôos. Para me convencer a publicar o livro, que acabou saindo em dezembro de 1986, pela Criar Edições, de Roberto Gomes, me prometeu até mesmo um prefácio, outra coisa bem desusada na carreira dele. Contam-se nos dedos de uma só mão, e se tanto, os prefácios que o velho Pablo assinou. Gosto demais do que ele acabou criando para o Bolero’s... Um texto que a vaidade me diz ser definitivo e consagrador – “Bueno’s Blues Band & seus boleros ambíguos”. Trata-se da reunião de textos de diversos tempos e modos, o que acabou resultando num livro importantíssimo, para mim ao menos, porque, antes de tudo, me desvirginou, digamos assim, para a literatura. Perdi o medo do objeto livro e me joguei na vida da escritura como quem se atira do 13o andar. Sim, você tem razão: ali já estão o germe, as sementes de um hibridismo prosa/poesia que haveria de ser a marca de todos os meus demais livros. Classificar Bolero’s...? Acho que Bolero’s Bar é inclassificável – no amplo sentido da palavra. João Antônio, no texto a que você se refere, publicado em O Estado de S. Paulo, lembra justamente esta questão. Diz, entre outras coisas que muito me honram e que à época muito me ajudaram a prosseguir, que a crítica jamais poderia chegar ao Bolero’s... com as armas, o arsenal de que dispunha. Que o Bolero’s... era um livro absolutamente inclassificável. E, não tendo como defini-lo, cravou para ele uma classificação dele, particular, intransferível, e que as pessoas estão sempre lembrando: chamou-o de “autonomias” e vivia alardeando que eu criara um novo gênero literário – “as autonomias de WB”... Veja, você, como são as coisas...

Em alguns textos de Bolero’s Bar, há referência a uma adolescência tumultuada, errante e sempre muito próxima da literatura. Você pode falar um pouco sobre esse período?
Olha, eu comecei a publicar, acredite quem quiser, aos 12 anos de idade. Fui uma espécie de adolescente-prodígio de Curitiba. A minha adolescência foi uma adolescência literária por excelência, ainda que eu não haja descuidado nunca da vadiagem das ruas, do futebol dos campinhos baldios, no tempo em que existiam campinhos baldios em Curitiba... Havia uma professora de francês do colégio Rio Branco que, apesar das excelentes notas nas provas, diante dos meus proverbiais “desregramentos”, costumava dizer: “Wilson, tu sais un ange en forme de diable”... Aos 15 anos, eu já era contratado do mais importante jornal do Paraná, a Gazeta do Povo, publicando os meus textos todo domingo, na página literária do jornal, ao lado, entre outros, de Dalton Trevisan, já então um nome nacional e de alto coturno. E, pasme, numa atividade rigorosamente remunerada. Eu, que era office-boy e ganhava meio salário mínimo (naquele tempo os menores ganhavam meio salário mínimo) para trabalhar das 8 às 18, me vi, de repente, ganhando aí uns dois salários mínimos integrais só para escrever um texto de trinta a quarenta linhas por semana. Nunca mais quis saber de outra atividade... Poucas vezes revelei (e, nas vezes em que revelei, não sei por que não publicaram, até mesmo na Gazeta do Povo): olhe, eu devo a minha estréia em jornal, aos 15 anos como já lhe disse, ao Dr. Francisco da Cunha Pereira Filho, o diretor da Rede Paranaense de Comunicação, a RPC, que leu meus textos infanto-adolescis e, os aprovando vivamente, abrigou-os em seu belo jornal. De lá até aqui, a esta altura do campeonato, dobrando já o cabo da Boa Esperança, aos 55 anos, espero não tê-lo decepcionado...

E a infância?
Uma coisa absolutamente mágica. Até os 6 anos, eu vivi em Jaguapitã (que quer dizer cachorro vermelho, em guarani), cidade do norte do Paraná, a uns cinqüenta quilômetros de Londrina, me espojando nas areias das ruas, subindo em árvore, correndo de cachorro, assaltando o pomar dos vizinhos, me aventurando nos pequenos rios, pescando lambari com meu pai e meus tios. Mesmo com essa idade, minha mãe, dona Cida, me levava quase todos os dias ao circo. Não preciso dizer o que aquilo tudo me fascinava – os palhaços, os dramalhões encenados pelos artistas circenses, os malabaristas, os mágicos... E o sempre terror dos ciganos – salteadores e ladrões de crianças que se aventuravam nas ruas... Uma coisa hilária que nunca me saiu da cabeça: no drama A escrava Isaura, que vi, aos 6 anos, umas oito vezes, os escravos eram atores loiros, acho que de Curitiba, com o corpo inteiramente pintado a carvão... Essas e outras – e digo outras porque depois tem o cinema, já em Curitiba, onde chegamos em 1955, eu com quase 7 anos de idade – influíram e continuam influindo muito em minha literatura...

Seria acertado afirmar que você, como muitos outros autores, é fruto do fervor literário curitibano dos anos 60 e 70?
Deixei Curitiba em 1968 e só retornei em 1980. Foram doze anos no Rio. Todos os anos 70, em bloco e em peso, todo o Maio de 68 e a ditadura e a junta militar e o AI-5. Todo o make love not war, as dunas da Gal, sex, drugs and rock’n’roll. Estive muito próximo dos Dzi Croquetes. Fui preso pelos militares. Assinei, em intervalos os mais despirocados, uma coluna no emblemático jornal Tribuna da Imprensa dos anos de chumbo. Tinha a vaidade de os meus vinte e poucos anos (e como somos vaidosos nessa idade, né?) assistirem ao meu nome estampado em letras enormes no generoso espaço que eu possuía no aguerrido diário de Hélio Fernandes. Sob censura prévia, claro. Driblando os milicos-censores, driblando o Estado policial, fugindo de blitz e dormindo na praia ou declamando poemas dúbios aos brancos luares das pedras do Arpoador... O fervor literário a que você se refere, o fervor curitibano, eu o peguei, sim, baixo as caldeiras ferventes do meu saudoso e nunca esquecido compadre Jamil Snege (não batizei até hoje o Daniel Snege, que está com mais de 35 anos, mas é como se eu o tivesse batizado), e até debitaria, não propriamente ao “fervor” mas à madura amizade com Snege, o começo de tudo. A leitura de livros essenciais, as primeiras inquietações, os primeiros ensaios para valer com a literatura, eu os devo, em muito, à interlocução com Jamil Snege, embora o Paulo tenha sido uma pessoa importantíssima em minha vida, mas de um outro modo e de um outro jeito. Só tive coragem de dar uma banana à então pérfida província (Curitiba há menos de trinta anos era uma aldeia, cidade cartorial e retrógrada) sob o impulso, o estímulo e o incentivo de Jamil Snege. Foi duro, quase terrível, eu diria, deixar tudo aqui, mas eu fiz isso porque tinha certeza de que, se eu aqui ficasse, provavelmente não teria sobrevivido – morto exclusivamente de perplexidade e susto.

Em Cristal, a personagem Velha, carregada de angústia e solidão, vê o mundo se esvaindo através de uma janela, e certamente reside aí uma metáfora do olhar. De um modo ou de outro, todos nós somos personagens desse roteiro findo que é a vida. Você pode falar um pouco sobre a construção dessa obra?
De todos os meus livros, eu diria que Cristal foi aquele em que mais obsessivamente apliquei o meu método de reescritura de textos... Trabalhei arduamente, flaubertianamente, em cada frase, em cada parágrafo. Tudo ali é pensado, até mesmo o mais inocente travessão. Eu pretendi, em Cristal, não só esgotar as possibilidades, as minhas, evidentemente, dos recursos “clássicos” da língua, digamos assim, como também propor, quem sabe, uma metáfora da ditadura militar brasileira... Alguma coisa que ocorresse/corroesse por dentro, desde a visada de uma velha em sua janela. Todas as coisas – não sei se você observou – estão imersas numa atmosfera sombria, funérea, aziaga, ao mesmo tempo que a cor é um elemento muito presente ao longo de toda a novela. Muita cor, muito tecido, uma carnavalização estertorada e estertorante de tudo e de todas as coisas, subsistindo, por baixo, a dor, o desconsolo, a ausência de perspectivas... Roberto Echavarren, o grande crítico e poeta uruguaio, costuma dizer que Cristal seria um título que William Faulkner assinaria embaixo, sem a menor hesitação... Será? Realmente, quando escrevi Cristal, eu estava absolutamente impactado pela obra de Faulkner – de Santuário a esta inenarrável obra-prima que é As I lay dying (Enquanto agonizo). Todo o livro é vazado nessa ambiência ditatorial, autoritária, provinciana. A Velha é dura e rija; rija e dura é a sua cama; dura e rija é a sua vida que olha.

Sim, percebi a aspereza, a dureza e também a crítica à ditadura. Há um agonismo constante em Cristal...
Sem dúvida. Há até quem o chame de um martirológio estético... Mas foi o efeito que eu pretendi mesmo, desde o início, desde a primeira concepção do romance... Há uma certa solenidade ali, também proposital. Não confundir com ausência de humor, mas um dado, uma pegada que quase obscurece o humor e amplia essa solenidade, esse trato sofisticado de “uma” linguagem... E o que foi o “discurso” da nazi-fascista ditadura brasileira senão todo ele em torno do solene, do retórico, do paranóico e do desesperador? Há uma “nóia”, linha a linha, ali... Ou, ao menos, eu pretendi que houvesse... E, como você sabe, o inferno está cheio de (boas) intenções... A Velha como uma resistência armada e belicosa, Ananias como a inocência e Ique como um anjo caído, caído pela existência, se é que posso me expressar desse jeito... A Sirigaita é o melancólico contraponto de uma alegria que poderia ter sido mas não foi... O personagem principal de Cristal talvez não seja a Velha, mas o alemão de mil nomes estrebuchado a morrer, a morrer sempre, de boca em boca, de pronúncia em pronúncia; como em música, baixo contínuas (baixo(s)-contínuo(s)) variações sobre o mesmo tema...

Em Cristal, você usa um recurso que se repete em Meu tio Roseno, a cavalo: a (des)construção constante do nome do personagem. A impressão que fica é que você multiplica o personagem até chegar ao leitor como próprio personagem. Meu tio Roseno, a cavalo consiste em uma intertextualidade com a obra de Guimarães Rosa. Você não acha esse recurso muito “perigoso”?
“Perigoso” por quê? O diálogo com autores do quilate de Rosa, Machado de Assis, Clarice Lispector será sempre um diálogo frutuoso, você não acha? Bernardo Carvalho, num texto muito oportuno sobre nosso tio humilde, lembrou que uma das grandes qualidades do livro era justamente essa interlocução. E que ela passava um dado essencial que vem se perdendo em literatura, em qualquer literatura – a alegria de criar, a epifania do texto, o gosto e o gozo da arte que sabe dizer o seu nome e que sabe dizer a que veio... Claro, hay que tener algum talento para que essa conversa não caia num vazio medonho ou mesmo não frutifique... Talvez nesse sentido seja perigoso, conforme você denuncia – quanto melhor e mais importante o escritor, maior e melhor terá que ser o diálogo, a interlocução (ou a intertextualidade, para usar essa palavrinha enjoada e meio pedante) com o autor que eventualmente viermos a escolher, você não acha? Quem se habilita, por exemplo, a interagir com Shakespeare?

O perigo de que falo refere-se justamente à possibilidade de se cair num mero pastiche, o que não acontece no seu caso. Mas muitos autores que seguiram por essa vereda não atingiram sucesso. Basta ver, em Curitiba, e em outros estados também, o efeito Leminski?
Mas o efeito Leminski, como você coloca com muita propriedade, é diluição. Diluição é esgotamento de sentidos, é repeteco obsessivo, é até, por força da imitação, do empastichamento, uma ausência do sujeito da influência... Uma anulação, até mesmo, da referência, o que sugere um contra-senso, mas não o é... Tanto em nosso tio humilde (Meu tio Roseno, a cavalo) quanto em Amar-te a ti nem sei se com carícias, o que há é um ensaio crítico da linguagem através da apropriação dessa mesma linguagem... Uma coisa muito distante, mas muito distante mesmo, da diluição leminskiana que se observa hoje em quase todo o país. Leminski virou um ícone, uma lenda... E, como toda lenda, em vez de suscitar “pensamento crítico”, no bom sentido da palavra, desperta paixões... E a paixão, a paixão deste ângulo e modo, é uma coisa tanática, estéril e escandalosamente narcisista; infantil, eu diria... Não eleva nem constrói...

Você conseguiu, em Cristal, tratar da ditadura sem cair no planfetarismo. Por falar nisso, o que você tem a dizer sobre a literatura engajada? Toda literatura é engajada, como acentuou Sartre? E a ditadura não se manifesta hoje sob falsos lençóis brancos?
Tenho, e sempre tive, um sagrado horror do realismo socialista, aqueles tijolaços stalinistas mediocrões e insuportáveis, esquemáticos, burros... Lembro que li, por influência de amigos, aos 16 anos, um livro horrendo, chamado, veja só, Cimento, de Gladkov... Não precisa dizer mais nada, né? Atravessei aquilo, umas quatrocentas páginas, vencendo o tédio e a suprema irritação ante aquela autêntica antiliteratura... Posso lhe afiançar que começou ali a minha verdadeira alergia a todo naturalismo, a todo neonaturalismo, a toda arte-reportagem... Ora, ou a arte é arte ou é reportagem! Literatura para mim é sedução, exuberância, magia, feitiço, bruxedo, trato com a linguagem, fraude, arapuca, armadilha, em busca, de novo, de um rendimento máximo do expressivo. Não, jamais essa coisa “congelada”, conservadora – dêem a ela o nome de “arte engajada” (à esquerda ou à direita, não importa, no tempo em que ainda existiam esquerdas e direitas) ou o nome que melhor convier a essa gelatinosa artimanha... Sim, Sartre está certo. O meu engajamento é, por exemplo, o da busca de um máximo de tensão naquilo que eu quero dizer. Toda experiência é inevitavelmente uma experiência empenhada em defender a sua natureza essencial, e escrever não é diferente disso... Agora a minha escolha, a minha opção, o meu “engajamento”, são um partidarismo, sim, um partidarismo a favor da Literatura... Cada qual se avenha com o engajamento que lhe falar melhor à alma. Literatura pede muita sinceridade, sinceridade de propósitos e sinceridade de intenções... Não vejo ditadura em lugar nenhum, à exceção do velho discurso autoritário que sempre foi o discurso de nossas elites... Mas não podemos chamar esse discurso de ditatorial... É autoritário, não passa disso... Mas, contra as regras, eu professo a adesão a todos os desregramentos...

Tenho lido muitas críticas favoráveis às suas obras nos mais variados jornais e revistas do país. Não dá um certo temor esta unanimidade da crítica?
Sei, ou penso que sei, rigorosamente, o que estou fazendo. Falar bem ou falar mal não é comigo. A minha função, a minha obrigação ética perante a vida é fazer o meu trabalho. O meu projeto literário não é uma coisa de agora; vem de muito longe, uma coisa maturada e sofrida, e muitas vezes de uma solidão que dá nojo... Está claro que obter a boa recepção crítica, que invariavelmente ocorre com o meu trabalho, é muito estimulante. Mas, creio, não sou só eu a merecer esta espécie de unanimidade crítica hoje, no Brasil – há o Hatoum, o Bernardo Carvalho, para só ficar em dois grandes nomes da moderna prosa brasileira. Há mais, bem mais...

Já que estamos falando sobre crítica, qual a sua função?
Eu considero a crítica, a reflexão sobre o que escrevemos, uma coisa muito, mas muito nobre. Mas será sempre uma leitura particular, com uma recepção toda própria e particular. O livro que escrevi jamais será o livro que você leu, por exemplo. O livro de minha autoria que você leu (e me rejubilo com isso e aí estão centrados todos os meus esforços) terá que ser o seu livro, a sua reinvenção de minha viagem, senão já não será mais literatura – a mais fabulosa das fabulosas ampliações da imaginação humana.

O narrador do livro Amar-te a ti nem sei se com carícias, em um determinado momento, diz: “[...] o destino que eu deseje a estas folhas manuscritas: do fogo às cinzas do nada, compostas, as folhas, só para encher as horas, muitas delas soturnas, de um homem devotado a encontrar-se a si próprio, mais que na existência mesma, detrás do espelho da escrita – esta a única verdade do ser, como aumentava o Motta, sobretudo o Motta, quando bêbedo”. Leocádio, mesmo querendo dar cabo de seu manuscrito, crê na redenção pela escrita. Você tem essa mesma sensação? Qual é o poder da escrita, isto é, da arte, num mundo onde a fome mata uma pessoa a cada cinco segundos?
Vamos começar do começo... Você percebeu bem essa questão com a vacilação dentro do panorama geral de extrema ambigüidade do romance... Há o desejo obsessivo, uma conspiração contra si mesmo até, eu diria, de Leocádio Prata, no sentido da destruição, ao fim e ao cabo, das confissões que vai deitando ao papel... Eu introduzi aí uma vacilação, uma hesitação que, para mim, tem muito a ver também com o século XIX. O Oitocentos brasileiro não foi somente ambíguo (uma no ferro, outra na ferradura) mas também pleno de hesitação. Você quer uma coisa mais vacilante (e até hoje ambígua) do que a abolição da escravatura? Foi mais lenta e gradual do que a abertura que os militares, para citar um exemplo recente, promoveram para desatarraxar a hedionda ditadura que eles próprios inventaram e da qual não sabiam mais como se safar, não é verdade? Também a abolição foi uma batata quente para dom Pedro II... E depois tem que eu precisava fazer falar um enrustido, dar voz a uma figura conservadora e cerimoniosa, e nada melhor do que este expediente – o de que tudo o que se diz se diz só para é dito –, já que há a certeza de que ninguém lerá aquelas anotações obsessivas de um bacharel aposentado... E mais: será que Leocádio Prata não morreu antes de fazer o que se propunha, isto é, queimar os papéis, e o canalha do Licurgo Pontes, aproveitando a deixa, se decidiu por publicar o pecado? Não podemos perder a orientação de que Amar-te a ti... é também um livro noir. Há ali um cadáver (suicida?), enormes suspeitas e suspeições, e um véu parece obscurecer os acontecimentos relativos a essa morte. Quem foi que matou Lavínia? Ou ela própria deu cabo de sua vida? Esse é outro elemento de extrema ambigüidade e ainda o de maior vacilação de todo o livro... Quanto ao mundo faminto e cruel em que vivemos, assaltados que somos a cada minuto por uma hórrida imagem dentro de nossa sala ou de nosso quarto ou de nosso escritório, via tevê ou internet, este é o mundo que encontrei ao nascer, em 1949. Já estava tudo aí... E, se existe alguma coisa que nos ajuda a atravessar as banheiras ferventes destes horrores, é a arte... Sem a mediação da arte, seríamos todos doidos varridos, psicóticos de carteirinha. A arte nos salva de nós mesmos – seja como agentes ativos ou passivos de sua fantástica e sublime ação.

Você permitiria a leitura de que Leocádio, Licurgo e Lavínia, a tríade de Amar-te a ti nem sei se com carícias, sejam apenas uma pessoa? O ciclo de um único ser, que passa pela beleza, pela força vital junvenil e, naturalmente, pela velhice? E que representem a dor e a alegria da existência e o silêncio da morte?
É, se você quiser ler o meu livro deste modo, você ou qualquer outra pessoa, está inteiramente à vontade para fazê-lo. A sua leitura será sempre sua, ainda que o livro seja meu, né? A rigor, quem escreve, em todos os meus livros, eu pretendo que seja o leitor.

Essa narrativa dialoga com a obra de Machado de Assis de várias maneiras: Capistrano está atrás do Bromelius Citricus e Dom Casmurro, do emplastro; temos igualmente uma tríade amorosa... Mas é, enfim, na linguagem, que o diálogo se harmoniza. Que tipo de pesquisa você faz para atingir tal grau da escritura?
Para escrever Amar-te a ti..., eu li o que pude da grande prosa do Oitocentos em língua portuguesa... Não só a brasileira – Joaquim Manuel de Macedo, Taunay, Alencar, Machado – mas também a lusitana – Alexandre Herculano, Fialho de Almeida, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão –, todas estas gentes d’antanho... Fiz como Saramago ao escrever o Memorial do convento – ele leu tudo o que havia de Barroco, e aí então fechou todos os livros e dedicou-se ao barroquismo pessoal e intransferível de seu livro.

Quando e como você descobriu a obra de Machado de Assis?
Aos 13 anos eu já estava lendo Machado de Assis. Aliás, não passa uma semana sem que eu leia um pedaço de crônica, um conto, um trecho dos romances já repetitivamente lidos, uma carta, um bilhete ou, até mesmo, os seus execrados poemas sentimentais... Machado está presente em minha existência desde que me conheço por gente. Ele faz parte da trilha sonora de minha vida.

Como você vê a colocação da crítica de que há, em Amar-te a ti nem sei se com carícias, uma sugestão homossexual entre Leocádio e Licurgo? Quando Leocádio narra Licurgo tomando banho, de certo modo ele cultua o corpo de Leocádio, certo? Mas seria um desejo homossexual ou a comparação com sua, digamos, decrepitude?
Foi muito bom você tocar nesse tema. Leocádio José de Azeredo Prata Filho, não podemos ignorar: ele é o século XIX. E, se assim se funda no romance, teria que ser erigido também com esta ambigüidade que faz, principalmente de sua sexualidade, mas não só dela, uma matéria móvel, igualmente hesitante e ambígua. Mas o que vale ali, para mim ao menos, é a feroz oposição, que permeia todo o livro, entre senectude e juventude, o tempo ido e o tempo indo, o tempo indo e o tempo sendo. É como, guardadas as proporções, of course, Morte em Veneza, uma de minhas devoções literárias. Thomas Mann não fez de Aschenbach um homossexual, mas um ser pateticamente em luta pelo que na vida é morte desde o primeiro vagido, o primeiro suspiro e a primeira dor... O que entre Aschenbach e Tadzio é vida versus morte, vigor versus fragilidade, começo versus fim, com Leocádio Prata não é diferente – Licurgo arde de sol, Licurgo é a juventude que esta (aquela) brisa canta (cantava)... Ah, o Tempo! Este deus que não dorme...

Em entrevista a Rogério Pereira e Guida Bittencourt, publicada no jornal Rascunho, você diz que um país que tem Machado, Lispector e Guimarães Rosa não pode se queixar. Além do Hatoum e do Bernardo Carvalho, já citados, como você avalia o atual momento da literatura brasileira?


Eu acho que a literatura brasileira vai muito bem, obrigado. Vejo uma imensa quantidade de vozes e dicções despontando na cena criativa tupiniquim. Impossível que deste quadro, ao menos quantitativamente generoso neste primeiro momento, não venham a frutificar novos grandes nomes com a disposição de prosseguir mantendo acesa a chama de uma literatura maiúscula, como sempre foi a nossa. Estamos formando ainda, no meu entender, uma tradição literária. Veja, você, que A Moreninha, do grande Joaquim Manuel de Macedo, considerado por muitos como o primeiro romance brasileiro, é de 1844... De lá até aqui, só fizemos ampliar caminhos e campos na busca de uma “poética” brasileira. Muitas vezes aos trancos e barrancos, como tudo na vida, aliás... Veja, você, que o surgimento de um prosador como Machado de Assis é coisa recente. Machado morreu em 1908, justamente o ano em que nasce, em Cordisburgo, Minas Gerais, o Rosa... Eu me lembro nitidamente do dia, do ano e da hora em que Rosa morreu... Deu no noticiário do rádio. O Brasil ainda não digeriu inteiramente o Machado, no meu entender... Lima Barreto, um escritor importante, vital mesmo para o desenvolvimento das letras pátrias, morreu um ano antes de meu pai nascer, meu pai que está aí vivo e forte... E Clarice, então? Clarice, que partiu a meu ver muito precocemente, poderia, tranqüilamente, estar viva, da mesma geração que é da Lygia, da Hilda... Revistas, encontros, poetas e novos poetas... As universidades parecem ter acordado, levando autores a leituras; acabando, de vez, com esta chatice inominável que é palestra de escritor... Faço lá as minhas, admito, mas acho muitíssimo mais interessante, e vejo nítida a resposta do público, quando sou convidado para leituras. Com minha frustrada vocação de ator, acho que me saio bem nessas empreitadas... Eu continuo a apostar na literatura brasileira, mesmo porque, se fosse o contrário, eu deveria mudar de ofício, não é mesmo?

Jardim zoológico e Manual de zoofilia são duas partituras ímpares em sua obra. Esta é uma avaliação minha, portanto muito pessoal. Esses dois livros me causam dor e encantamento, desespero e alegria, choro e riso. Eles retomam a tradição do bestiário, tão usada na Idade Média e em outras idades. Fale um pouco sobre essas obras.
Enche-me sempre de sincero júbilo a reação da maioria dos leitores com relação às duas obras citadas por você. Tanto o Jardim... quanto o Manual... – ainda que próximos são livros absolutamente diversos um do outro, nos entendamos bem – costumam provocar este tipo de recepção. Uma recepção quase sempre entusiasmada e quase sempre, o que é melhor, lucidamente entusiasmada... Eu as compus a ambas no silêncio povoado de cães das noites do arrabalde... Em esforçados e concentrados exercícios... Eu os escrevi, sobretudo o Manual de zoofilia, sobretudo este, para não empreender um mergulho – naquele tempo sem volta – nas tramas da solidão... O Manual... deverá ser reeditado com mais treze bichos que até há alguns meses permaneciam absolutamente inéditos... Mas, no afã de atender a um site aqui, uma revista acolá, acho que até estes já foram todos publicados. A primeira edição desse livro ainda hoje me enche de orgulho. Foi feita, numa tiragem de 350 exemplares, um a um, pelo tipógrafo-inventor Cleber Teixeira, autor também da capa, pela Noa Noa, um selo que honra qualquer escriba. A edição da UFPG, supercuidadosa, mantendo a já histórica capa do Cleber, também é muito bela e correta. Os bestiários integram este lúdico-maravilhoso de que só as grandes literaturas são capazes... Como desconsiderar bichos, bestas, monstros num país como o Brasil, onde a exuberância de fauna e flora é uma coisa acachapante... Os novos escritores deveriam prestar mais atenção neste tema. É um tema fascinante e muito afim com a nossa zôo-alma, plena de sacis e lobisomens, mulas-sem-cabeça e boitatás ardendo, fogos-fátuos, na linha do horizonte...

Junto com toda a bicharada do Manual de zoofilia, aparece um texto com o título “Crianças”. Qual a intenção desse recurso?
A intenção acho que é bem clara – primeiro a de provocar uma estranheza para quem está às voltas com todos aqueles bichos... Na terceira edição revista e sensivelmente ampliada, com inúmeros bichos inéditos até aqui, de Manual de zoofilia, programada para sair pela Editora Planeta, acrescentei ainda outro elemento de estranhamento: as Chuvas... Uma busca obsessiva deste “animismo” que busca emprestar vida, ainda que vida apenas poética, aos mais surpreendentes elementos da natureza... O “Crianças”, do Manual..., em face do panorama geral do livro, fica sendo também uma espécie de intrigante catacrese, você não acha?

Você criou e esteve à frente do jornal Nicolau por oito anos. O que dizer sobre a imprensa cultural hoje?
O “momento histórico” em que Nicolau foi criado e todos os anos em que refletiu o melhor da intelligentsia nacional e internacional – de 1987 a 1994 – foram anos muito fecundos, sobretudo no Brasil. Praticamente sozinho no país, naquele tempo, Nicolau fez história. Mas o impressionante é esta “permanência” do tablóide nos corações e mentes dos leitores. Sem exagero, posso lhe informar que não passa um mês sem que eu receba, dos mais surpreendentes lugares e de gente da mais variada idade, e até de nacionalidades diversas, imensos questionários para que eu detalhe como pudemos criar um momento tão vivo do jornalismo cultural brasileiro. E olhe que eu saí (ou fui saído...) do Nicolau já faz 10 anos! O mais fascinante é receber aqui em casa a visita de estudantes de jornalismo ou de pessoas interessadas em jornalismo cultural com 20, 21, 23 anos... Eram crianças, mal saídos da adolescência quando deixei o projeto; veja bem: quando deixei o projeto, porque, se formos contar o tempo da fundação do jornal, então aí a coisa ficaria ainda mais notável... Não preciso dizer o quanto isso me enche de orgulho e daquela agradável sensação de “dever cumprido”... O jornalismo cultural praticado hoje no país segue seu ritmo. Me parece que o tempo agora é, no gênero, o das revistas, e penso que a criatividade não pequena de nossos produtores culturais tem sido uma constante na área. Veja o Paraná, agora, com a Etcetera, uma revista magnífica, editada e “bancada”, o que é ainda mais significativo, pelo meu amigo, o escritor Fábio Campana. E as outras tantas: a Sibila, em São Paulo, editada pelo poeta Régis Bonvicino; as valentes Ficções e Inimigo Rumor, no Rio, com o grande Carlito Azevedo fazendo e acontecendo; a Cacto, que tem à frente o jovem e talentoso poeta Tarso de Melo, e a Teresa, a Ácaro, e até mesmo a Rumos, do Itaú Cultural – são exuberantes momentos de um jornalismo cultural que aí está mostrando a que veio. Ainda que com outra pegada, gosto muito também da Bravo. E há ainda as revistas digitais de cultura, como a Zunái, a Sara Fazib, a Patife, e este momento ímpar no gênero que é, a meu ver, a belíssima Trópico, dirigida por Alcino Leite Neto. Necessário lembrar ainda a presença marcante de dois preciosos momentos do jornalismo cultural que se pratica hoje no Brasil: o refletido pela revista Coyote, comandada por Ademir Assunção, Rodrigo G. Lopes e Marcos Losnak, e pela Oroboro, do sempre atuante Ricardo Corona.

Sabe-se que o motivo de sua saída do jornal Nicolau foi uma quizília com um determinado político. Você poderia falar sobre o episódio?
Estes projetos patrocinados pelo poder público têm dessas coisas – mudou o governo do estado e junto, claro, mudou o secretário da Cultura. Não demos sorte – entrou, para a Secretaria, um senhor avançado em anos e extremamente curto de idéias, justamente quando devia, pela idade, estar dono e senhor da melhor das sabedorias, não é mesmo? Posso lhe garantir que, bem pelo contrário, ele era (não sei se já faleceu), ou é, uma dessas proverbiais figuras de província, e aí, diante da enorme resistência dele a que seguíssemos na linha vitoriosa em que Nicolau se situava, pedimos demissão em bloco e assinamos um manifesto famoso contra a caretice, a burrice estatal e o provincianismo do tal secretário, um pobre-diabo cujo nome não merece nem mesmo ser citado aqui... A primeira edição do “novo” Nicolau, na qual ele escrevia do editorial à contracapa – não ria, por favor – era uma edição monográfica dedicada inteiramente à FEB. Aquilo ali pegou mal até mesmo para os nossos valorosos pracinhas... Uma edição horrenda, com desenho de soldado na capa e versalhadas laudatórias... Bem, não preciso dizer da reação de grandes admiradores do Nicolau, como Paulo Francis, por exemplo. Contam que ele devolveu o número que recebeu em Nova York diretamente para o então governador, e diz a lenda que escarrado...

Se você tivesse que dizer algo a um jovem escritor, o que diria?

Aos jovens que me procuram, e são muitos, e com uma constância que muito me envaidece, eu costumo dizer que não tenham pressa. Esta ansiedade de chegar ao primeiro livro, do qual eventualmente poderão se arrepender mais tarde, é sempre muito danosa para qualquer carreira literária. Você pode enganar em muitos modos de expressão artística, mas em literatura isso é impossível... Ou se é ou não se é... Não há meio-termo... E depois tem que literatura exige maturidade – não propriamente cronológica, mas maturidade, razão e pensamento. Sem um amadurecido pensamento sobre o mundo, é impossível criar em qualquer área; mas, sobretudo na velha ars litteraria, isso fica impossível... E outra coisa que costumo dizer aos jovens escritores: “Só saberemos se alguém é um escritor de verdade não quando é escritor aos 20 anos, mas se continua e persiste escritor aos 60, aos 70, aos 80, aos 100...”.

Todas as suas obras, embora com unidade interna em relação à linguagem, são muito distintas. Se confrontarmos Mar Paraguayo e Amar-te a ti nem sei se com carícias, citando só um exemplo, podemos ver isso. Por muito tempo se cobrou de um escritor que tivesse linearidade em relação à linguagem. Por que a opção pela multiplicidade de linguagens?
Todo escritor está sempre escrevendo (ou reescrevendo) o mesmo livro. Não vejo diferença alguma entre os livros que você cita. Se em Mar Paraguayo o mix era o de português, espanhol e guarani, em Amar-te a ti... o mix é o de prosódias no tempo. Há ali toda a dicção do século XXI entremeada ao dizer do Oitocentos. Por mais que eu queira chegar à linguagem do século XIX brasileiro, esta será sempre uma tarefa frusta e vã, porque quem a escreve é um escritor do terceiro milênio, com os vezos e vícios de alguém que é contemporâneo deste tempo aqui e não de outro... O resto é literatura...

O que mais o incomoda no meio literário?
A hipocrisia, a vaidade oca, o prosaísmo de passear um nome feito quem passeia um cachorro engalanado... Das coisas que fiz, uma das que mais gosto é o tanca chamado “Anônimo”, que está em meu único livro de poemas – Pequeno tratado de brinquedos. E diz assim, em rigorosa métrica nipônica (5/7/5 e 7/7): “eu e a minha mestra/ saímos caçar cepilhos/ só colhemos grilos/ tarde voltamos com fome/ jantamos os nossos nomes...

E a vida, o que dizer dela?
Penso que os personagens que criei até aqui falam melhor dela do que este pobre escriba, alheado com o exame das nuvens e dos langorosos céus deste dezembro, por exemplo...

Qual é o seu processo de criação? Como você começa a pensar em um livro? De que ponto você parte?
Isso aí depende do livro... Às vezes, uma frase; alguma coisa que ouvi ou entreouvi em sonhos; um sonho mesmo; a leitura de um clássico, de um poema ou de um verso; o balbuciar de uma criança; e sobretudo o silêncio das noites profundas do arrabalde, onde me assisto a viver... Há, nesses silêncios, poemas inteiros, romances, novelas, haicais...

2 comentários:

vinícius alves disse...

Marcola,

meus parachoques. excelente a tua entrevista com o Bueno. estais te saindo, cada vez mais, um exímio entrevistador.

é isso

amprex do vini

Dennis Radünz disse...

Bueno era "o cara"... Fraterno. Só o "Mar paraguayo" já lhe valeu o ter vivido.
Dennis