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domingo, 22 de novembro de 2009

Uma crônica de Marco Vasques


Crônica Publicada no Jornal Notícias do Dia



Um crivo cristalino


As pessoas nunca o impressionavam muito. Até que começou a sentir um espaço vazio ao olhá-las. Quando encontrava alguém, uma janela aberta se instalava em seu corpo. No primeiro dia ficou com medo de estar cego. Quando sentou à frente de seu oftalmologista, ele também se transformou em janela. Depois, passada a fase da janela, só via sapatos andando, sapatos que corriam para todos os lados. Passou a entender menos ainda este fenômeno. Sentado na praça tinha um desejo enorme de seguir os passos de todos os sapatos, sempre mais belos que os seus passos. Foi ao psiquiatra e ele também era mais sapato. Então desistiu de matematizar os dias e se deixou levar pelas alucinações. Dali para frente suas atitudes começaram a mudar. Em poucos meses, um dos quartos de sua casa estava cheio de sapatos, sapatos de todos os tipos e cores. De crianças, mulheres, homens, palhaços. Não entendia muito bem o motivo de tantos sapatos guardados, mas com o tempo passou a admirá-los com certa devoção. O mesmo ocorreu com as janelas. Criou um amor involuntário pelas janelas. A sala estava cheia delas, de todos os tipos e cores. Passava os olhos por elas com um sabor de paisagem. Um dia, percebeu que uma das janelas havia piscado para ele, um mexer de olhos envolvente e sincero. De início não deu muita importância, até que, certa noite, ao acordar, viu que estava abraçado a uma janela toda despida, toda nua. A moldura e os gonzos desta janela pareciam sempre mais belos que os das outras. Foi quando notou que estava apaixonado. Uma paixão irreversível. Os familiares começaram a cogitar um tratamento intensivo, algo que pudesse transformá-lo no homem que sempre fora. Um homem centrado, devotado ao trabalho e à família. Tentaram de tudo. Fizeram algumas internações e o afastaram de sua janela preferida. A solidão tomou conta dele. Aos poucos ele foi definhando. Os familiares, quando o visitaram pela última vez no sanatório, não acreditaram no que viram. Ele estava tão magro e esquálido que sua sobrinha disse aos outros: “olha, o tio virou parafuso”. Pronto. Todos se assustaram e logo pensaram em deixar a criança ao lado do tio. Porém, como ainda era criança, todos concordaram que poderiam domar sua visão, e logo se foram. Ele, conta a lenda, virou paisagem de outra janela.

3 comentários:

Flavia Milena disse...

Olhando desta minha janela, percebo uma maneira gostosa de ver a vida. Parabéns pelo texto. bjs

Marco Vasques disse...

Sempre presente leitora. E que presente! Beijos

Telma Scherer disse...

E é por isso que nem sempre se deve bater portas. Mais que isso, é a Emergência do Quintana: "Quem faz um poema abre uma janela." Um texto que faz a gente respirar, aliás crônica aliás conto aliás poema, de janelas abertas.